Um dos desafios atuais prende-se com a palavra digital. Apareceram os digitais. Essa nova chusma que foi entrando pelos edifícios das empresas pelos calabouços até aos pisos do board.

Desde o inovador solitário que ali deambulava com umas ideias loucas até hoje à horda das dezenas que erguem a bandeira da modernidade dizendo-se vindos do futuro, por serem digitais.

E nisto, há duas reflexões a fazer para a tomada de decisão que ajuda as empresas a manter a peugada: ou se juntam os ditos digitais aos restantes para um processo de aculturação ou se mantêm separados para evitar o contagio e manter a sua integridade.

Não há, na experiência que tenho vivido e que me têm partilhado colegas e amigos nos seus vários sectores de atividade, decisões universais e certas.

Desde logo porque depende da cultura da empresa, da história da mesma, das pessoas, do setor de atividade, dos objetivos para o curto, médio e longo prazo, etc, etc.

Há no entanto uma verdade. Se quer que as pessoas que sabem de digital continuem a saber de digital, mantenha-as próximas do digital. Os vasos comunicantes com as restantes áreas têm de ser criados. Sim. Poderá sê-lo por reuniões de briefing, sessões de trabalho conjuntas na fase A, B ou C, ou qualquer outra que faça sentido. Mas é importante, com a velocidade e expansão deste ecossistema, que em muitos casos no digital como em todas as áreas, para crescer se permita que se conviva de perto com os pares, acelerando um processo de conhecimento, teste, exploração, descoberta, consolidação e implementação – de ideias, práticas, teorias, modelos.

Isto é tão efetivamente verdade para o digital como para qualquer área. Mas tenho visto nos últimos anos uma novidade a emergir – a de se querer fazer parecer ser mais moderno matando departamentos ou equipas digitais, porque para dar sinal de que estamos à frente já nem usamos a palavra digital, está tudo misturado. E está certo. O princípio. Não a forma.

Mas isso não pode significar que se anulem as especializações e que se partam as equipas nelas contidas pelos quatro cantos da empresa, desacelerando as mesmas. Este é um ecossistema que está ainda, qual Big Bang, numa expansão terrivelmente acelerada, precoce, onde muito é ainda inconstante e onde todos os dias se abrem novos ramos – a cloud, a inteligência artificial, o blockchain, as apps, os pagamentos mobile, o analytics, o machine learning, a gamification, etc.

Ainda que o digital se consolide como uma área entre outras que já existiam, e se apaguem os silos, deve ter-se cuidado e não confundir a integração do digital com a anulação do digital dentro das empresas.

Procure um modelo onde esse contágio se efetue, onde técnicos e especialistas talentosos de várias áreas se impregnem e estimulem com dúvidas, ideias, soluções. Mas onde depois todos possam regressar e no seu meio encontrar os que da mesma língua falam, entendem e a qual até desenvolvem. É preferível que estejam à parte mas juntos, aprofundando conhecimento, do que separados e isolados, abrandando o ritmo e deixando de poder acompanhar a mudança atroz no digital e com isso ajudá-lo a si e à empresa que gere.

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Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory)... Ler Mais