A pandemia de Covid-19 está a ter um grande impacto no desemprego jovem, cuja taxa regressou a valores de há três anos.

De acordo com dados do INE, em junho havia 81,2 mil jovens sem trabalho, mas que procuravam ativamente emprego e estavam disponíveis para trabalhar. Isto significa que um em cada quatro jovens (25,6%) entre os 15 e os 24 anos está desempregado, um cenário semelhante ao de 2017 e não muito distante dos anos da troika.

Mas, já antes da pandemia, muitos jovens sentiam os efeitos da transformação laboral motivada pela massificação das tecnológicas digitais. A indústria 4.0 está, de facto, a provocar mudanças profundas na organização das empresas e, consequentemente, no mercado de trabalho. As profissões mais repetitivas e rotineiras – tipicamente menos especializadas e que não exigem conhecimento científico, talento tecnológico ou criatividade – estão a desaparecer ou deixaram de ter procura pelas empresas, que já automatizaram muitas das suas tarefas e processos.

Por outro lado, o conceito de “emprego para a vida” está perfeitamente obsoleto. O rápido avanço tecnológico obrigou não só a uma renovação de conhecimentos e competências, mas também à própria reconfiguração do mercado de trabalho, que passou a ser mais flexível e dinâmico. Isto obriga as novas gerações a adquirirem, ao longo das suas carreiras, novas competências e a abraçarem novas atividades profissionais.

Esta situação parece não ser totalmente desconfortável para os jovens. As novas gerações tendem a não valorizar a ideia de estabilidade profissional, segundo inquéritos realizados nesse sentido. Hoje, os jovens procuram novos desafios, estão abertos à mudança, gostam de arriscar, desejam ter novas experiências e valorizam o bem-estar, a mobilidade e a flexibilidade mais do que uma carreira profissional estável.

Apesar de condenar muitos empregos e atividades à obsolescência, o desenvolvimento tecnológico está também a alimentar um conjunto de novas e promissoras profissões ligadas às TIC, à indústria de software, ao e-commerce, às redes sociais, à robótica, ao big data, às energias alternativas ou à inteligência artificial. E é natural que também surjam, no decurso da crise pandémica, novas atividades profissionais relacionadas com a biomedicina, o controlo de pandemias, a qualidade sanitária de espaços públicos, a gestão hospitalar, a assistência a idosos ou a proteção civil.

Hoje, o mercado de trabalho valoriza as competências técnico-científicas (hard skills) com elevado grau de especialização. Mas também procura jovens que tenham características pessoais que encaixam na cultura das empresas e acrescentam valor às suas dinâmicas internas. São as chamadas soft skills, sendo muito apreciadas as qualidades de liderança (capacidade de decisão e mobilização, determinação, responsabilidade, facilidade de comunicação e de resolução de conflitos, etc.) e a criatividade, o pensamento crítico, a adaptabilidade a várias funções e ambientes, o gosto pelo trabalho em equipa, a mobilidade e o espírito cosmopolita.

Por tudo o que aqui foi dito, o atual contexto de transformação laboral e de pressão sobre o emprego jovem obriga o país a um grande esforço ao nível da formação/educação. Importa não só massificar o acesso ao ensino superior como tornar as competências tecnológicas transversais a todos os cursos, investir na formação e reconversão de jovens pouco qualificados e promover a especialização profissional dentro das empresas.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais