Há vários séculos Leonardo da Vinci desenhava o seu famoso Homem Vitruviano, figura incontornável que se tornaria uma referência no movimento Renascentista que se propaga por toda a Europa pós-medieval, centrando o Homem no centro do mundo, enquanto seu catalisador e principal impulsionador do seu desenvolvimento, afastando-se de forma bastante marcada a forte tendência religiosa que tinha sido apanágio dos séculos anteriores, especialmente no velho continente.

Foi, segundo alguns, uma época em que se procurou valorizar o “eu” e o potencial individual de cada indivíduo nas diversas áreas da cultura, arte e ciências, algo bem patente nas diferentes representações artísticas que ainda perduram nos mais diversos museus, cidades e coleções privadas da atualidade.

Chegados ao século XXI, pós-convulsões sociais do século anterior, com o fim dos regimes coloniais, abolição de escravatura, emancipação feminina, luta pelos direitos das minorias, entre outras, tendo a nossa espécie passado igualmente por vários fenómenos revolucionários à escala global, do qual também Portugal fez parte, em busca da liberdade de opinião e pensamento, da liberdade de ação e de diálogo, chegamos assim a este ponto da evolução social em que é imperioso questionar o que resulta de tudo isto.

Que foi possível construir com séculos de evolução e revolução, de guerras, de lutas sociais? Que novo homem é este que surge para conduzir os destinos deste pequeno planeta numa altura em que o ambiente está na ordem do dia, em que a palavra extinção, o conceito de falta de recursos e o evidente aumento das desigualdades está à vista de todos e ameaça de forma inigualável as gerações imediatamente vindouras?

Não é preciso pensar muito para perceber que, findos os fenómenos dos séculos imediatamente anteriores, fenómenos sociais coletivos, de luta coletiva, social, em que o pensamento de nova ordem ou direitos foi entendido enquanto algo que deveria servir um todo, estamos a regressar rapidamente a uma fase em que se desenha este novo homem vitruviano, no centro de tudo, focado em si próprio, mas, ao contrário daquele que Leonardo imaginou, mais egoísta, mais indiferente ao que o rodeia e ao que o sucede. Este novo foco no “eu” em detrimento do todos é sem dúvida catalisador das catástrofes que se adivinham, muitas das quais já com reflexos bem presentes no nosso dia-a-dia.

Esta não é uma qualquer apologia religiosa ou social, em que devemos pensar no todo e não em nós próprios, longe disso. A verdade mostra que na maioria dos casos se não pensamos em nós, mais ninguém o faz. Mas isso está longe de implicar que não pensemos no resto, naquilo que as nossas ações individuais, na maioria das vezes egoístas, causam de prejuízo a uma realidade mais abrangente face àquela que é o nosso pequeno mundo. Na maioria dos casos o nosso ganho imediato tem como consequência uma perda substancialmente superior, quer a nível coletivo quer também a nível pessoal, embora haja muita incapacidade em aferir essas consequências quando o espírito que norteia as nossas ações é focado apenas no ganho imediato e na satisfação pessoal.

Se me perguntarem o que isto tem a ver com o empreendedorismo, a resposta é simples: tudo. São as pessoas que fazem as empresas. Enquanto a mentalidade perante o mundo e o “eu” continuar e persistir como está, qualquer empreendedor ou empresa está fadada ao insucesso, mesmo que inicie um percurso com alguns ganhos iniciais, inevitavelmente a ruína abate-se sobre o futuro económico da iniciativa. E nem sempre o Estado estará lá para resgatar os coitados…

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Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais