No meu último artigo falei sobre as vantagens do empreendedor que mantêm o seu emprego enquanto o seu negócio dá os primeiros passos.  No fundo, trata-se de uma estratégia de redução do risco, uma forma de ultrapassar aquela que é muitas vezes a razão porque tantas pessoas passam uma vida inteira a pensar em ter um negócio próprio sem nunca o concretizar, ou seja, o medo do fracasso do negócio e das suas consequências.

Tenho para mim que o principal desafio de Portugal é ter mais e melhores empreendedores. Não apenas mais e não apenas melhores. Mais e melhores. Para isso precisamos de reduzir as barreiras ao empreendedorismo e assim proporcionar às pessoas mais oportunidades para criarem negócios. Uma das melhores formas de o conseguirmos é possibilitar a todos a oportunidade de experimentar ter um negócio próprio. Quantos mais experimentarem mais e melhores empreendedores teremos.

Mas afinal o que é preciso para experimentar ter um negócio próprio? Quais os componentes fundamentais de um negócio? E como os conseguimos obter? A resposta a esta questões começa no conceito de Modelo de Negócio, conforme apresentado por Alex Osterwalder, ou seja, um negócio é um conjunto de nove peças fundamentais. Se as conhecermos e se as conseguirmos obter ou criar então temos um negócio.

Um negócio parece à primeira vista ser algo complexo, exigindo muitos conhecimentos, uma equipa numerosa e grande esforço. Na verdade, existem diferentes níveis de negócios. Neste artigo defendo que o melhor negócio para começar é também o mais simples, composto por um conjunto de peças fundamentais e por uma só pessoa, o empreendedor em part-time. Curiosamente, existem muitas pequenas e médias empresas que nem estas peças críticas têm bem definidas ou implementadas. Podem até ter muitos empregados, mas são empresas que funcionam mal, com uma produtividade reduzida.

A primeira peça consiste em conhecer os clientes para o qual o negócio se destina, identificando as suas principais características. Uma forma de o fazermos é desenhar para cada segmento de clientes uma ou mais “Persona”, uma descrição visual de uma pessoa-tipo representativa do segmento. De seguida temos de detalhar a nossa proposta de valor, o produto ou serviço que queremos disponibilizar, ou seja, a forma como o negócio pretende satisfazer a necessidade ou problema que caracteriza o segmento de mercado. Uma ferramenta muito utilizada para este efeito é a “Curva de Valor”, um gráfico que possibilita saber quais os atributos da nossa oferta que o cliente mais valoriza.

Temos ainda definir como é que a nossa proposta de valor é comunicada e entregue aos nossos clientes, ou seja, que canais, diretos ou indiretos, digitais ou físicos, pretendemos utilizar e que relações com os clientes é que vamos desenvolver. Esta parte do Modelo de Negócio é uma das mais críticas, pois se não formos capazes de comunicar de forma eficaz com os potenciais clientes não vamos ter vendas. E sem vendas não há negócio nenhum que consiga sobreviver. Uma peça indispensável no que respeita à criação e desenvolvimento de relações com clientes é termos um sítio na Internet, capaz de atrair clientes, com uma imagem profissional e visitado frequentemente por pessoas interessadas no nosso negócio. Precisamos também de ter uma presença ativa nas principais redes sociais.

Um quinto componente essencial consiste na definição das fontes de receitas e dos preços que vamos praticar.  Um aspeto essencial a considerar nesta fase é a chamada “psicologia de preços”, ou seja, a forma como diferentes modelos de preço são percecionados pelas pessoas.

Os restantes componentes de um negócio são também de grande importância e incluem a definição das atividades chave, os recursos necessários, as parcerias críticas e a estrutura de custos. As atividades chave são uma descrição passo-a-passo dos principais processos de trabalho. Os recursos são as pessoas, equipamentos, instalações e tudo o que é essencial para possibilitar o funcionamento de um negócio. As parcerias são os nossos principais fornecedores e parceiros de negócio, incluindo os fornecedores de matérias primas e as entidades que asseguram a distribuição dos nossos produtos.

São muitos os negócios que podemos criar enquanto continuamos empregados, dedicando até 10 horas por semana ao seu desenvolvimento. Para os descobrir é apenas necessário fazer uma pesquisa no Google utilizando a palavra chave “side project”. Muitos destes negócios necessitam de muito pouco dinheiro para arrancar. O que também não falta na Internet são informações sobre como criar os componentes do negócio aqui descritos. A grande maioria das ferramentas necessárias são gratuitas ou de muito baixo custo. Neste contexto a pergunta que falta fazer é: e você, o que espera para avançar com o seu negócio?

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Sobre o autor

António Lucena de Faria

António Lucena de Faria é sócio Fundador e Presidente da Fábrica de Startups, empresa criada em Abril de 2012. É também membro fundador da StartupPortugal, em representação da Fábrica de Startups. Foi o responsável pela organização e realização em 2012... Ler Mais