Sem perder há 25 jogos, o Liverpool pode tornar-se na 34.ª equipa no século XXI a terminar uma liga europeia sem derrotas. Segundo os técnicos da equipa inglesa, o grande sucesso deve-se às decisões que são tomadas com base na análise de dados. Saiba como Liverpool pode servir de inspiração para todas as empresas que estão a perder relevância no mercado onde atuam.

O Liverpool conquistou a última edição da Liga dos Campeões e está completamente lançado para a conquista do campeonato inglês, 30 anos depois da última vez que venceu a liga. Independentemente do que acontecer até ao final da época, tudo aponta para que os reds continuem a somar títulos ao palmarés nos próximos anos.

O segredo da ascensão desta equipa está no seu departamento de análise de dados, segundo os especialistas. Atualmente, todas as decisões tomadas no clube – seja dentro de campo ou fora de campo – passam pelo estudo da área gerida por Ian Graham, diretor de pesquisa do clube. Foi ele que autorizou a chegada do técnico Jurgen Klopp, considerado por unanimidade um dos melhores do mundo.

Alguns desportos coletivos, especialmente os norte-americanos, têm maior tradição a utilizar dados nas tomadas de decisão. Um caso famoso é o do basebol, que foi inclusive retratado no filme Moneyball – O Homem Que Mudou o Jogo. O filme conta a história real de Billy Beane, o diretor geral da equipa Oakland Athletics, que em 2001 apostou nas estatísticas apresentadas por Peter Brand, estudante de economia da Universidade de Yale, para contratar jogadores.

A equipa de Oakland contava com um dos orçamentos mais restritos da liga de basebol e, mesmo assim, conseguiu obter uma boa classificação.  A equipa era formada em geral por jogadores baratos, que eram considerados jogadores apenas razoáveis pelos media e olheiros, mas que apresentavam estatísticas necessárias para vencer os jogos. A partir daquela temporada, todas as equipa de basebol norte-americano começaram a tomar decisões baseadas em dados.

No caso do futebol, o cenário é diferente. Praticamente todos os clubes do mundo têm departamentos de análise de desempenho e aplicam os estudos dos dados nos seus modelos de jogo. No entanto, o Liverpool é uma referência por recorrer a modelos complexos baseados em dados que influenciam quase todos os departamentos da equipa inglesa.

Segundo o site do Liverpool, citado pelo Starse, Ian Graham, que é formado em física teórica, “acredita na avaliação de jogadores e tendências mais completas no desporto, analisando números”. Neste sentido, Graham elaborou o conceito de “domínio de campo”, que combina diversas estatísticas recolhidas durante os jogos.

Através deste conceito, é possível definir quais as áreas do campo de futebol, dependendo do posicionamento da equipa no momento, que apresentam maior probabilidade de um jogador do Liverpool alcançar antes do seu adversário. São nessas regiões que os atletas da equipa devem procurar passar a bola, de forma a não perder a posse. Caso os jogadores se movimentem de forma incorreta, o mapa digital de domínio de campo vai ficar mais reduzido – e a probabilidade de fazer um golo dentro dos próximos 15 segundos diminui. Com estas informações, o técnico Jurgen Klopp consegue corrigir erros de posicionamento nos treinos.

Fora das quatro linhas, o departamento comandado por Graham é responsável, entre outras tarefas, por avaliar jogadores e staff do mundo inteiro, a fim de encontrar possíveis contratações para o clube. O guineense  Naby Keita  é um dos exemplos. Durante cinco anos, Graham analisou os dados do jogador, que pertencia aoRed Bull da Áustria.

De acordo com o New York Times, Ian Graham não trabalha com dados isolados, mas cria modelos complexos que agregam diversas estatísticas. Graham consegue avaliar a probabilidade de uma equipa fazer golo após determinada ação. Keita destacou-se porque, apesar de ter um alto índice de erro de passe, a probabilidade da sua equipa fazer golo era maior quando ele era o responsável por “criar” a jogada. Isto indica que o jogador toma riscos em detrimento de passes sem objetividade.

“O que os olheiros viram quando observaram Keita era um meio campo versátil. O que Graham viu no seu computador foi um fenómeno”, explica o jornal norte-americano, acrescentando que “Keita trabalhava continuamente para mover a bola para posições mais vantajosas, algo que até um espectador atento provavelmente não notaria”. O atleta africano foi contratado pela equipa inglesa em 2018.

O Liverpool conquistou a Liga dos Campeões que terminou no ano passado, venceu o Mundial de Clubes em dezembro e ruma ao título inglês. É consenso dentro do clube que o departamento de pesquisa, liderado por Ian Graham, tem papel fundamental na ascensão do clube, que ficou 13 anos sem levantar um troféu.

A transformação de uma instituição com 127 anos de história é um case study que serve de inspiração para todas as empresas que estão a perder relevância no mercado onde atuam.

 

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