Costumava referir-se que alguma das últimas guerras trouxera grandes avanços tecnológicos, organizativos, de treino eficaz… Talvez sim, mas as consequências de uma guerra são sempre nefastas em vidas perdidas, traumatismos físicos e psicológicos, com crianças marcadas pelos horrores e angústias, pessoas idosas sofrendo com a ansiedade; gastos astronómicos e, em geral, fome generalizada e perturbações.

Sem grande esforço há quem veja algo de positivo na pandemia: uma atitude de atuar com urgência, para levar à prática decisões de protocolos de tratamento; de cuidados a ter para evitar a difusão; o poder-se trabalhar de casa; satisfazer-se com o mínimo necessário, não criando necessidades, etc… Mas não se pode esquecer o grande número de mortes, sem ninguém da família ao lado, muito sofrimento, isolamento, etc.

Naquela visão positiva, muitas ideias que eram possibilidades longínquas acabaram por entrar em força nos hábitos. Antes classificadas de “ver o que dá”, agora aí estão, sem se olhar para trás, porque são necessárias para fazer funcionar a vida na sociedade, a economia, mesmo que nos seus mínimos.

Falava antes do trabalhar de casa. É uma realidade, talvez reversível em parte, mas com inegáveis vantagens para as famílias, sem se perder tempo em transportes morosos. Na TCS -Tata Consultancy Services, agora com 469 mil trabalhadores intelectuais, mais de 96% trabalha remotamente e sem que haja data de regresso, nem pressa nisso. Melhor, pensa-se que na nova “normalidade” apenas 25 % trabalharão no escritório, para assegurar o regular funcionamento da empresa a 100%. Os outros, da sua casa, da cidade ou de alguma aldeia longínqua de sua procedência.

Numa entrevista, R. Gopinathan[1], CEO da TCS, notava como um dos quarto pilares do crescimento era a tecnologia “cloud”, que nos últimos três anos ganhou tração, e a pandemia acelerou a sua utilização. Ela é importante por ter introduzido o que se pode chamar operações sem fronteiras. Nos próximos 5 a 10 anos, o tecido sem costuras que é a “cloud” e o modelo de operar subjacente, irá redefinir a indústria. Daí também que o crescimento de dois dígitos para o setor indiano das TI nos próximos anos pareça um dado adquirido.

A relevância que tiveram as aplicações das tecnologias de informação à IA – Inteligência Artificial, à robótica, à IoT- Internet das coisas, ao ecommerce e à digitalização de muitas pequenas empresas que usando uma plataforma eletrónica podem ser o elo final de ligação com o cliente, na entrega de produtos. Tudo isso deu um forte impulso à atividade e aos resultados das empresas de TI. Em franco contraste com a clara travagem de outros setores económicos.

As TI vão possibilitar serviços de saúde de qualidade para todos, afirmava Meena Ganesh, CEO da Portea Medical. Num país como a Índia onde o acesso aos serviços de saúde é um privilégio de poucos, através das tecnologias pode-se chegar a novos níveis de atenção de muitos mais utentes. Com uma relação médico/paciente abaixo da preconizada pela OMS, e mais enviezada em favor dos residentes urbanos, as tecnologias digitais e remotas, nos cuidados da saúde podem vir a fazer a grande diferença.

A pandemia evidenciou isso claramente, no sucesso dos serviços de saúde não convencionais como a telemedicina, a monitorização remota da evolução dos pacientes com Covid, e serviços ao domicílio, pois os hospitais e centros de saúde podem ser polos perigosos de transmissão de vírus.

A utilização generalizada do telemóvel, do Whatsapp e agora da internet (por mais de 740 milhões de indianos), tem facilitado os conceitos antes referidos da telemedicina, da monitorização remota dos doentes, etc.

Os robots na indústria já tinham tradição, sobretudo na indústria automóvel. A OLA entrou em colaboração com a ABB (Asea, Brown-Boveri) para a sua fábrica de veículos elétricos no Estado de Tamil Nadu. Terá 5 mil  robots e dará trabalho a 10 mil pessoas, produzindo 2 milhões de V. E. por ano. Toda a manipulação dos materiais na fábrica será robotizada. O sistema tecnologicamente avançado interagirá com as pessoas para melhor usar as máquinas a trabalhar em tandem, com alta eficiência e qualidade.

Um dos setores “exclusivo” da Índia é o do corte e lapidação de diamantes (mais de 90% dos diamantes são processados na Índia). É muito intensivo em mão de obra e pela proximidade no trabalho houve muitos casos de vírus, com fecho de centros de trabalho por longos períodos. Alguém se lembrou de adquirir “robots”, que podem trabalhar longos períodos de tempo. Concluíram que um robot faz o trabalho completo de processamento de um diamante em 20 minutos, quando um trabalhador muito treinado levaria duas horas para o mesmo.

A cidade de Surat (Gujarat) que emprega quase 1 milhão de trabalhadores especializados, vê-se ameaçada pelos robots, nas empresas mais ricas com disponibilidade para os adquirir. A tecnologia “robótica pode realizar as tarefas mais complexas de polimento de modo perfeito, sem falhas e com precisão”.

Naturalmente irá criar-se trabalho para fabricar e programar robots para todos os aspetos mais específicos de corte e polimento. Ao polir, sempre há nanopartículas que se desprendem, eventualmente nocivas à saúde, se não se tomam precauções. Coisa que não incomodará os robots.

Esperemos que haja o bom senso de se pensar como requalificar os técnicos para trabalhos parecidos ou melhores e mais bem pagos, como a joalharia (com boa exportação da Índia) e a utilização de diamantes menos valiosos na indústria de corte ou perfuração.

As quatro maiores empresas indianas de TI: TCS, Infosys, HCLTechnologies e a Wipro, recrutaram 36.500 novos trabalhadores de outubro a dezembro passado e prevê-se que recrutem mais 91 mil no ano 2021/22.  Num inquérito, 74 % das empresas de TI diziam que iriam contratar mais 14% de pessoal neste ano 21-22. Pelo menos nesta área de trabalho de TI e afins, a Índia espera muito bons ventos nos próximos anos.

[1]How TCS turned Covid crisis into an opportunity, ET Now, Dec, 18, 2020

*Professor da AESE-Business School, do IIM Rohtak (Índia) e autor do livro “O Despertar da Índia”

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais