Segundo especialistas, as start-ups de tecnologia financeira têm transformado o mercado e desafiado os bancos a inovarem para não perderem clientes.

“Os serviços bancários são essenciais, os bancos não são.” A frase foi proferida por Bill Gates em 1994, ano em que a Microsoft quis adquirir por 1,5 bilião de dólares (cerca de 1,4 biliões de euros) a Intuit Inc., empresa que desenvolveu a ferramenta Quicken, direcionada para a gestão financeira pessoal.

A proposta foi recusada pelo Departamento de Justiça norte-americano e o negócio não se concretizou. Passaram 22 anos e as grandes instituições financeiras continuam a existir e a estar muito presentes no dia a dia das pessoas. No entanto, o aparecimento das fintechs está a alterar o panorama e a tornar a frase de Bill Gates cada vez mais atual.

As fintechs (financial technology, na sigla em inglês) são start-ups que pretendem fornecer algum tipo de serviço ou produto financeiro substituto ou que melhore os oferecidos pelos bancos tradicionais. “Não há dúvida de que as fintechs criam uma preocupação entre os grandes bancos: são empresas que têm como destaque a agilidade e os processos inovadores e disruptivos, atraindo principalmente jovens que preferem ser atendidos digitalmente, a ter que se deslocar até uma agência”, diz Frank Meylan, sócio-líder de digital da KPMG no Brasil, consultora que, este ano, colocou o Nubank, o VivaReal e o GuiaBolso entre as 100 fintechs mais promissoras do mundo.

“Elas [as fintech]já nascem pequenas, centradas em novas tecnologias e com um DNA voltado para o utilizador e a solução de problemas”, afirma Marcelo Bradaschia, fundador da FintechLab. “Isso faz com que sejam muito ágeis e possam mudar o rumo dos negócios rapidamente assim que identificarem que algo não está a funcionar, ao contrário dos grandes bancos, que possuem estruturas muito maiores. Os bancos não têm a cultura de inovação enraizada dentro da empresa, apenas nichos mais digitais”, acrescentou o responsável.

Estas start-ups podem atuar em diversos segmentos, como o crédito, empréstimos, pagamentos, saúde financeira, crowdfunding, segurança, entre outros. Há ainda diversas frentes que já estão a ser exploradas pelas fintechs.

“Acho que ainda vamos ver muita inovação na área do crédito, empréstimos para pequenas empresas, com garantia ou sem garantia, além de novidades no financiamento imobiliário”, defende Guilherme Horn, diretor da área de serviços financeiros e open innovation da consultora Accenture. “Na área de investimentos, por exemplo, chamam a atenção para os robo-advisors, algoritmos que fazem recomendação de investimentos. Há também, nos Estados Unidos e na Europa, plataformas de investimentos só para mulheres ou exclusivas para jovens. Esse tipo de personalização na indústria é uma tendência”, frisa.

Uma caraterística particular das fintechs que está a ser observada, prende-se com o facto de, geralmente, serem capazes de oferecer apenas um bom serviço ou produto, encontrando apenas dificuldades na hora de aumentar o portefólio. “Não há ninguém que tenha conseguido disponibilizar uma oferta como um banco o faz”, disse Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco. “O cliente é quem vai escolher se se vai servir de um único ‘mercado financeiro’ ou se vai utilizar vários tipos de fintechs”, rematou.

Outro ponto a favor das instituições mais antigas, além do portfólio oferecido, é a ampla base de clientes e a influência junto dos órgãos reguladores. “Um ponto que permite o desenvolvimento das fintechs é o ambiente regulatório de cada país: há os mais permissivos e os mais restritivos”, diz Meylan, da KPMG.

“Porém, aquilo que foi restringido pela regulamentação e é de interesse público pode ser modificado. A Uber, que não é uma fintech, serve como exemplo: houve um consenso de que a plataforma melhorou o atendimento ao nível do transporte de passageiros nas cidades. É evidente que ninguém vai apoiar que os políticos aceitem maior facilidade para enviar dinheiro para exterior sem pagar impostos ou comunicar ao Banco Central, mas é de interesse público que os brasileiros que estejam fora, principalmente quem mora lá e deixou família aqui, vejam esse processo caro e demorado ser otimizado, por exemplo”, afirma Meylan.

Se, no começo deste movimento, o clima era de disputa, atualmente o que impera na relação entre bancos tradicionais e as fintechs é muito mais a colaboração e a sinergia. “No início, os bancos estavam mais preocupados em como reagir e as fintechs interessadas em competir diretamente”, considera Horn, da Accenture. “Hoje as start-ups colaboram com as grandes instituições que, por sua vez, criaram incubadoras como a CUBO (Itaú) e InovaBRA (Bradesco) para estar mais perto delas”, acrescenta.

Há duas perspetivas por parte das grandes instituições, segundo Bradaschia, da FintechLab. “Uma é o de aprender com as fintechs, entender os modelos de gestão, as tecnologias, as formas de lidar com os problemas e pensar novos modelos de negócios, o foco no cliente e a velocidade para mudar. A outra está relacionada com a colaboração: quando encontram uma novidade que interessa, aproximam-se ou mesmo adquirem-nas”, explica.

O caminho que começa, portanto, a ser percorrido, está voltado para um ambiente onde a convivência dos grandes bancos com as fintechs leve ao estímulo, mas também à cooperação, e não à aniquilação de um lado ou de outro.

“Os bancos são responsáveis por executar diversas atividades, algumas estão a ser asseguradas pelas fintechs, outras procuram uma robustez que não têm e nunca vão ter”, diz Horn, da Accenture.

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