Com um impacto fortíssimo na atividade empresarial, a presente crise veio tornar mais visíveis forças e fragilidades da economia global, de cada economia e de cada empresa em particular.

Se, por um lado, se revelaram as enormes potencialidades do desenvolvimento de redes e serviços digitais, sem o qual a natureza disruptiva da pandemia teria sido muito mais profunda, por outro lado, ficou bem patente que a fragmentação em redes muito densas e dispersas da produção tornou as economias mais interdependentes e as empresas mais vulneráveis a perturbações em qualquer um dos inúmeros elos das cadeias de valor onde se inserem.

Além disso, as empresas tiveram de se reinventar para se adaptarem, não só a restrições que as afetaram diretamente, mas também a uma sociedade que passou a funcionar num quadro completamente diverso.

Neste contexto, a adaptabilidade e flexibilidade das empresas, fundamentais para a resolução de problemas novos e inesperados, revelam-se, mais do que nunca, trunfos indispensáveis para a sua sobrevivência e para o seu sucesso competitivo num mercado diferente e hostil.

Entre nós, nestas últimas semanas, face a situações inéditas e a desajustamentos nada habituais nas cadeias de abastecimento e de distribuição, temos sido surpreendidos por exemplos de ajustamentos céleres por parte de muitas empresas.

Os resultados do inquérito do INE/Banco de Portugal mostram-nos que 21% das empresas alteraram ou reforçaram os seus canais de distribuição.

Muitas empresas transfiguram-se e reconverteram a sua produção para responder à escassez de bens e serviços cruciais na crise sanitária que vivemos. Rapidamente, de uma situação de dependência externa de bens indispensáveis no quadro da crise sanitária, passámos a exportadores de alguns desses bens.

O mesmo inquérito revela que 29% das empresas adaptaram a sua atividade através da diversificação ou modificação da produção.

Esta flexibilidade e capacidade de adaptação das empresas, a sua criatividade e estoicismo, estão, novamente, a ser postos à prova, nesta fase de abertura prudente e gradual da economia, com a necessidade de respeitar novas regras e buscar novas formas de organização, modulando horários, adaptando metodologias, afetando recursos a novas exigências.

Finalmente, estes trunfos serão mais uma vez fundamentais no que não será nunca um “regresso” à normalidade pré-COVID-19, mas a chegada a um “novo normal”, mesmo no cenário, ainda distante, do pleno levantamento de restrições.

De facto, o mundo, a economia, a sociedade não serão os mesmos após a experiência, traumática mas rica em ensinamentos, por que estamos a passar. Estamos numa fase de mudança acelerada, de aprendizagens forçadas, de abertura a novas formas de comunicação e de trabalho, de quebra de paradigmas.

No “novo normal”, a transformação digital terá ganho uma nova dimensão, com a naturalidade com que novas tecnologias estão a ser adotadas por trabalhadores e consumidores. Haverá uma nova perceção e interiorização de riscos de excessivas dependências de determinados mercados, de um número reduzido de fornecedores, ou clientes. A excessiva rigidez que estava a caracterizar muitas cadeias de valor será reapreciada pelos seus diferentes elos. Certamente que haverá alguma reponderação, por exemplo, entre os benefícios da redução ao mínimo de stocks, num sistema de produção just in time, e as vulnerabilidades de eventuais dificuldades de fornecimento. As necessidades de liquidez serão vistas de uma forma diferente.

Estas e outras mudanças, algumas bem visíveis, outras menos percetíveis, ao nível da tecnologia, dos negócios, das estratégias, dos comportamentos individuais, das políticas públicas, dos (des)equilíbrios geoestratégicos, determinarão esse “novo normal”.

Um “novo normal” ainda em aberto, cujos contornos ainda não são claros, mas onde, estou certo, a adaptabilidade e flexibilidade de que as empresas portuguesas estão a dar provas serão vantagens competitivas cada vez mais relevantes nos mercados mundiais. Assim as decisões políticas que afetam a envolvente empresarial se tornem mais favoráveis a estes trunfos das empresas portuguesas.

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António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais