Estamos a viver a Revolução 4.0, caraterizada pela confluência das tecnologias digitais, físicas e biológicas, que se prevê vir a produzir transformações gigantescas no mercado de trabalho e na própria sociedade.

Tal como apregoado por Klaus Schwab, autor do livro “A Quarta Revolução Industrial” publicado em 2018, a velocidade, o alcance e o impacto desta revolução é de tal ordem, que as mudanças vão afetar a forma como trabalhamos, como nos relacionamos … enfim, a própria forma como vivemos! Por outras palavras, a Revolução 4.0 vem introduzir uma verdadeira mudança de paradigma, no modo de trabalhar, de organizar, de relacionar … de viver.

É neste contexto que o empreendedorismo assume um papel crasso: o empreendedorismo representa também ele uma mudança de paradigma – na forma de pensar, agir, trabalhar e gerar valor. Mas, porquê? Vale a pena refletir sob quais as razões que explicam esta afirmação.

O empreendedorismo compreende três tipos fundamentais: o empreendedorismo autónomo ou comercial, o empreendedorismo social e o intra-empreendedorismo. Em relação ao empreendedorismo autónomo ou comercial – que está associado à criação de strart ups lucrativas e geradoras de valor – a resposta poderá parecer relativamente mais simples. É esperado que cada nova empresa que entra no mercado introduza inovação, e dessa forma produza alterações no comportamento dos clientes (que adquirem novos hábitos) e dos concorrentes (que se vêm forçados a ser mais competitivos). Aliás, só a inovação introduz valor no mercado, pelo que as strart ups pouco inovadoras – que não conseguem mudar hábitos – tornam-se pouco lucrativas e tendem a desaparecer no mercado. A mudança de paradigma é assim notória, não apenas ao nível do mercado, mas também dos próprios empreendedores que trabalham continuamente para a “inovação”. No que toca às organizações sem fins lucrativos, o modus operandi tende a ser equivalente. As ideias inovadoras que produzem grande impacto tendem a produzir mudanças na vida dos seus destinatários, contribuindo para melhorias efetivas na sua qualidade de vida. E consequentemente tendem a ser reconhecidas como casos de sucesso, recebendo ampla visibilidade na comunicação social e diversos apoios, o que vai contribuir para um impacto ainda maior – numa roda viva de empreendedorismo, inovação e mudança de paradigma.

Também o intra-empreendedorismo implica mudanças de paradigma, não apenas no que diz respeito aos colaboradores internos, mas a todos os dirigentes e administração. A vontade de explorar novas oportunidades, novos projetos, novos produtos ou serviços torna-se viável numa cultura dinâmica e proativa, que encoraja a experimentação, o risco e a autonomia responsável. Consequentemente, a empresa passa a oferecer novas soluções no mercado, tornando-se diferenciadora e mais competitiva. O intra-empreendedorismo contribui, assim, para uma mudança de paradigma a dois níveis: 1) dos colaboradores, que assumem uma postura autónoma e proactiva de pesquisa e proposta de soluções; e 2) do topo estratégico, que mais do que descentralizar, incentiva entre os colaboradores a geração de ideias, a exploração de novas oportunidades e a proposta de soluções com alto valor-acrescentado.

Da análise das três principais formas de empreendedorismo depreendemos que todas elas produzem mudanças no padrão vigente, i.e. no modelo, nos valores e nos comportamentos partilhados. O empreendedorismo implica assim uma mudança de paradigma, um rasgar com o status quo … Mas, o empreendedorismo não se limita meramente à introdução de novas formas ou novos comportamentos. O empreendedorismo produz mudanças na própria forma de pensar, transformando as pessoas em agentes proactivos, autónomos, capazes de arriscar e inovar … Por outras palavras, o empreendedorismo implica uma mudança de paradigma em que as pessoas se tornam atores ativos na construção da realidade, da sua realidade.

Então, e remetendo para a questão que norteia este artigo: A Quem Interessa o Empreendedorismo? Respondendo … o empreendedorismo interessa (ou deve interessar) a todos nós! Todos nós podemos (e devemos) ter um papel ativo na construção do nosso futuro … de um futuro mais inovador, estimulante e orientado para as reais necessidades.

* Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

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Sobre o autor

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Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais