Obteve licença para operar no mercado português em junho de 2021 e iniciou as operações digitais de corretagem em outubro do mesmo ano. Na Criptoloja, é possível comprar e vender criptoativos. Em entrevista ao Link To Leaders, Pedro Borges, CEO da Criptoloja, fala do papel das criptomoedas, da notícia recente sobre os bancos em Portugal que estão a encerrar as contas bancárias das empresas de cripto e dos desafios da indústria.

No início deste mês vários bancos portugueses decidiram encerrar as contas bancárias de plataformas cripto registadas no Banco de Portugal. Falamos da Caixa Geral de Depósitos, do BCP, do Santander, do Banco BiG e do Abanca que encerraram, de forma unilateral, as contas de entidades como a Criptoloja, a Mind The Coin, a Luso Digital Assets e uma quarta que prefere permanecer não identificada.

Em entrevista ao Link To Leaders, Pedro Borges, CEO e cofundador da Criptoloja, a primeira corretora de criptomoedas autorizada pelo Banco de Portugal, refere que esta medida “coloca claramente em causa princípios de concorrência, colocando-nos em desvantagem concorrencial. Por outro lado, mostra um enorme desconhecimento e falta de visão sobre a evolução do digital. Vedar o acesso a contas bancárias de toda uma indústria é um retrocesso enorme e dá uma imagem extremamente negativa do próprio país”.

Criada em 2020, a Criptoloja obteve licença para operar no mercado português em junho de 2021 e iniciou as operações digitais de corretagem em outubro do mesmo ano. Na sua plataforma, é possível comprar e vender criptoativos online.

Em maio deste ano, o Banco de Portugal autorizou a operação de aquisição de uma posição maioritária do capital da empresa por parte do grupo brasileiro 2TM, dono da maior bolsa de criptomoedas da América Latina, a Mercado Bitcoin. Consolidar a sua posição em Portugal e apostar na internacionalização, com Espanha a ser o primeiro mercado-alvo, fazem parte da estratégia da start-up.

Que balanço faz de um ano de atividade da Criptoloja?
O balanço é deveras positivo. Foi um ano extremamente intenso, mas muito recompensador. Desde a abertura do capital à brasileira 2TM, ao lançamento da plataforma online, passando pelo crescimento da equipa para 12 pessoas, destaca-se obviamente o orgulho que é passado um ano servirmos mais de 4 mil clientes.

Como surgiu a ideia de criar a Criptoloja?
Ao voltar para Portugal em 2018, depois de 5 anos a viver em São Paulo, reparei que não havia nenhuma empresa a fornecer serviços de corretagem em criptomoedas. Assim, a Criptoloja nasce, antes de mais, pelo facto de não existir outra empresa no mercado a prestar esse serviço.

Quais os vossos objetivos enquanto instituição acreditada pelo Banco de Portugal?
A nossa filosofia sempre foi estar o mais próximo possível do regulador e tentar com a nossa experiência contribuir ao máximo para uma grande aproximação entre a regulação e esta nova indústria emergente. Isso será sempre algo que norteará a Criptoloja. Caminhar, lado a lado, com a regulação e com os reguladores.

“Infelizmente os maiores desafios têm sido o relacionado com as entidades bancárias. As nossas contas são sistematicamente encerradas e vemo-nos forçados a ter de trabalhar com bancos estrangeiros”.

Quais têm sido os vossos maiores desafios?
Infelizmente os maiores desafios têm sido o relacionado com as entidades bancárias. As nossas contas são sistematicamente encerradas e vemo-nos forçados a ter de trabalhar com bancos estrangeiros. Não obstante sermos registados e regulados pelo Banco de Portugal e seguirmos rigorosos processos de compliance, os bancos não se sentem “confortáveis” em trabalhar connosco. Aliás, o mesmo tem acontecido a outras empresas desta indústria devidamente regulada. É absolutamente lamentável esta atitude até porque coloca em causa o próprio regulador. O que demonstra na prática que os bancos não confiam no regulador pelo qual são regulados.

O que acha de vários dos principais bancos portugueses estarem a fecharem contas bancárias de corretoras de criptomoedas, incluindo da Criptoloja? 
Atendendo a que os bancos parecem ter agido de forma simultânea e concertada, acho que coloca claramente em causa princípios de concorrência, colocando-nos em desvantagem concorrencial. Por outro lado, mostra um enorme desconhecimento e falta de visão sobre a evolução do digital. Vedar o acesso a contas bancárias de toda uma indústria é um retrocesso enorme e dá uma imagem extremamente negativa do próprio país.”

Quais as consequências desta medida para a Criptoloja?
Do ponto de vista corporativo, gerir pagamentos a fornecedores, salários e até o pagamento dos impostos é muito mais dificultado a partir de contas bancárias fora do país. A operacionalidade é mais lenta e mais dispendiosa. Do ponto de vista do negócio, obviamente que esta é uma atividade em que a confiança criada nos clientes e a necessidade de segurança percebida por estes é fundamental. Ter contas em bancos nacionais ou estrangeiros faz toda a diferença nessa perceção.

Que mais-valias têm trazido a brasileira 2TM, dono da maior bolsa de criptomoedas da América Latina, a Mercado Bitcoin, à Criptoloja?
Claro que o alívio financeiro proporcionado pelo novo acionista foi importante. Mas mais do que isso, a experiência que acumularam desde 2014, permite-nos evitar cometer erros que muito provavelmente iriámos cometer. Poder ter e implementar processos já testados é uma mais-valia inegável.

“A Criptoloja só disponibiliza serviços de corretagem em criptomoedas. Isto significa serviços de troca de moeda fiduciária por criptomoedas e vice-versa; e além disto, obviamente a troca de criptomoedas entre elas”.

Quais os produtos e serviços financeiros que a Criptoloja disponibiliza atualmente?
A Criptoloja só disponibiliza serviços de corretagem em criptomoedas. Isto significa serviços de troca de moeda fiduciária por criptomoedas e vice-versa; e além disto, obviamente a troca de criptomoedas entre elas.

Quem são os clientes da Criptoloja?
São essencialmente clientes particulares portugueses ou estrangeiros a residir em Portugal, oriundos de todo o Mundo. Por exemplo, clientes de nacionalidade brasileira a viver em Portugal representam quase 5% do total dos nossos clientes.

Qual a estratégia de internacionalização da Criptoloja? Quais os mercados prioritários para expansão
De momento o objetivo passa por consolidar a Criptoloja em Portugal e sermos percebidos pela generalidade do mercado como a referência quando o assunto são criptomoedas. Após isso, Espanha será seguramente o primeiro passo da internacionalização.

O que acha que tem contribuído para o aumento da adoção de criptomoedas, por parte de instituições, grandes gestores de ativos, tesouros empresariais e escritórios familiares?
Obviamente que os momentos de subidas vertiginosas dos preços e o potencial de valorizações rápidas são o grande motivo de interesse inicial. No entanto, é bem rápida a perceção do potencial de reserva de valor, de proteção e independência que o Bitcoin, por exemplo, proporciona, principalmente no atual contexto económico e monetário. Assim, diria que se começa pela curiosidade e se continua pela necessidade.

Como avalia o mercado das moedas criptos em Portugal?
Estamos ainda numa fase muito embrionária, mas que, acredito, rapidamente irá prosperar. Pessoalmente, penso que, dentro de dois anos, haverá mais pessoas e instituições investidas em criptomoedas do que em ações.

“A avaliar pelas últimas notícias, o próximo orçamento de Estado já irá contemplar as criptomedas como algo tributável”.

Portugal é dos poucos países onde os lucros com criptomoedas não pagam imposto. O que tem a dizer sobre esta realidade?
Na prática, só as transações que não são consideradas uma atividade profissional é que não pagam imposto. Apenas essas. Sempre pairou (um pouco) a dúvida se esse não pagamento de impostos se devia a uma “distração” ou se existia a real intenção de tornar Portugal um país mais atrativo para esta indústria.

A avaliar pelas últimas notícias, o próximo orçamento de Estado já irá contemplar as criptomedas como algo tributável. De qualquer maneira, há algo mais importante do que discutir se as criptos devem ser taxadas ou não, até porque essa seria uma discussão fútil já que ser tributado é o destino de tudo em Portugal. Efetivamente, acima de tudo, espera-se que seja uma tributação de qualidade, distinguindo as diferentes características dos ativos virtuais. Afinal de contas, um Bitcoin é algo completamente diferente de um NFT, por exemplo, e espero que a regulação tributária não “coloque tudo no mesmo saco” como se costuma dizer.

Que desafios enfrenta a indústria das criptomoedas neste momento?
O maior desafio é sem dúvida a “guerra sem quartel” movida pelos bancos e a vasta desinformação que é passada por entidades e comentadores, mais ou menos oficiais. Enquanto continuarmos a ler e ouvir opiniões tão ridículas como o Bitcoin servir para lavar dinheiro, significa que ainda temos um longo caminho pela frente.

O que se deve saber antes de se investir em criptomoedas?
Formação e educação deveriam ser palavras a constar da missão de qualquer empresa ligada à indústria da criptomoeda. Sinceramente, a primeira lição que toda a gente deveria saber é que não vai ficar rico com criptomoedas. E isto antes de ler sequer a definição de “O que é Bitcoin”.

Como vê a Criptoloja dentro de dois anos? E o mercado de criptomoedas?
Dentro de dois anos, a Criptoloja será seguramente um dos principais players da indústria na Península Ibérica e é isso que ambicionamos.

Relativamente ao futuro da indústria, acredito que a lógica de descentralização que o Blockchain proporciona será cada vez mais transversal; e que o consumidor optará, de forma crescente, por prestadores de serviços descentralizado ao invés dos tradicionais, e isso, não só nos serviços financeiros como também nos outros em geral.

Respostas rápidas:
O maior risco: Má Regulação.
O maior erro: Confiar nos bancos.
A maior lição: O corporativismo da banca.
A maior conquista: 4800 clientes num ano.

Comentários