Num momento em que a pandemia do novo coronavírus ocupa, quase que em exclusivo, o espaço mediático, este artigo versa sobre uma outra pandemia, não mortal, felizmente, mas perigosa e com um nefasto potencial impacto humano e social. A pandemia da apatia.

Tenho por hábito partilhar os artigos que escrevo para o Link To Leaders na minha página do LinkedIn e em alguns grupos de WhatsApp, e tenho vindo a notar uma certa tendência para a ausência (ou escassez, pelo menos) de reações ou manifestações em relação aos mesmos, exceção feita a um conjunto circunscrito de pessoas que, invariavelmente e de forma mais ou menos breve ou efusiva, concordando ou discordando, se pronuncia sobre tais artigos.

Certamente que o teor desses artigos não será, naturalmente, do interesse ou do agrado de toda a minha rede de conexões, muitos nem sequer os leem, mas não me parece que seja apenas isso que justifica tais circunstâncias.

Há cerca de um ano e meio que colaboro – com muita satisfação – com o Link-to-Leaders, uma plataforma rica em conteúdos variados e relevantes para empreendedores, investidores e outros stakeholders no contexto de negócios e empresarial.

Várias dezenas de pessoas, dos mais variados quadrantes, ali colaboram de forma voluntária e regular, partilhando os seus valiosos conhecimentos, perspetivas e experiências, em benefício de milhares de seguidores nas redes sociais (cerca de 35 mil no Facebook e 7 mil no LinkedIn, à data deste artigo) ou no próprio website, onde diariamente são publicados artigos, opiniões e outros interessantes conteúdos.

De forma análoga, tenho observado, por mera curiosidade, semelhante fenómeno (ausência ou escassez de reações) em relação a alguns dos conteúdos ali publicados, nomeadamente a artigos de opinião, não raramente muito interessantes, a meu ver.

Como explicar então este aparente desinteresse das pessoas em assinalar, comentar ou partilhar tais conteúdos (assumindo que os leem, naturalmente), divulgados por várias dezenas de milhares de seguidores (além de muitos outros que certamente também lhes acedem)?

Claro que há dias ou períodos em que sentimos uma menor predisposição ou temos uma menor disponibilidade para o fazer, mas não me parece, novamente, que isso justifique tão evidente passividade.

Num momento em que a pandemia do novo coronavírus ocupa, quase que em exclusivo, o espaço mediático, este artigo versa sobre uma outra pandemia, não mortal, felizmente, mas perigosa e com um nefasto potencial impacto humano e social. A pandemia da apatia.

Vivemos num mundo global e agitado. Um mundo que nos jorra uma imensa e permanente torrente de informação. Canais de televisão e estações de rádio são às dezenas, jornais e revistas idem, portais e plataformas digitais em cada vez maior número. Informação e mais informação. Conteúdos infindáveis, sobre tudo e mais alguma coisa, permanente e facilmente acessíveis.

O tempo, por sua vez, é um bem escasso. Não que o tempo se tenha tornado mais lento ou mais rápido. O tempo sempre teve o mesmo tempo. Nós é que passamos a ter um ritmo diferente, acelerado, ocupando cada vez mais esse tempo, como se este fosse elástico. Com coisas importantes, certamente, mas com outras que nem por isso. Família, trabalho, amigos. Trânsito, desporto e entretenimento. E a dita torrente de informação. Uma correria constante. Cansamo-nos, para mais tarde descansarmos. Ainda ontem eramos umas crianças, hoje já somos adultos e amanhã, sem termos tempo de dar por isso, seremos velhos (de idade, não de espírito!).

O cansaço mental e emocional (e físico, porque não?) – nem sempre real, parece-me, por vezes imaginado ou criado por nós – decorrente de tais fatores resulta necessariamente numa menor capacidade de foco ou de atenção e, consequentemente, numa maior superficialidade, potenciando um estado de aparente apatia em que muitos parecem viver.

Veja-se, por exemplo, a pandemia que atravessamos. Será que temos, sociedade em geral e os media em particular, procurado entender de forma adequada o verdadeiro alcance e impactos da mesma? Será que os media, por exemplo, têm aprofundado convenientemente este importante assunto (investigando e questionando aquilo que parece ser mais complexo ou difícil de responder), ou têm funcionado apenas como um mero veículo de transmissão? Mas porque deveriam fazê-lo de outra forma, se as pessoas em geral parecem preferir (ou precisar de) conteúdos mais superficiais, para não dizer inúteis (Big Brothers, debates futebolísticos e afins)?

Ora, como li recentemente, e concordando, é precisamente quando conseguimos prestar atenção que quase tudo se torna mais interessante.

Projetando o tópico deste artigo no contexto organizacional das instituições e empresas, a superficialidade ou a apatia na liderança ou gestão das mesmas, algo que se pode manifestar de várias formas, é como que uma pandemia que vai fragilizando e corroendo as suas fundações, constituindo uma ameaça séria para o seu futuro.

As empresas, tal como as pessoas, precisam, pois, de evitar a perigosa espiral da superficialidade, colocando o seu foco na gestão dos respetivos drivers de valor (operacionais, táticos ou estratégicos, organizacionais ou de negócio/mercado) e procurando atuar de forma ágil e dinâmica na prossecução dos seus objetivos.

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções executivas e de gestão em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais