Opinião
A mana Clara (que era tudo o que de bom sobre ela foi dito… e muito mais!)
A minha irmã Clara Pinto Correia foi enorme. Na inteligência, na beleza, no brilho, na sedução, na escrita, no ensino, na ousadia, no inconformismo, no desafio das convenções … e no desespero que nos causava com a sua recusa em aceitar fazer o que achávamos seria melhor para ela…
Viveu como entendeu, com a liberdade e o flamejar que sempre a caracterizaram. Desapareceu em dezembro passado, quando o corpo se cansou. Cedo demais!
Custou muito vê-la ir tão inesperadamente.
Dói muito a sua ausência. Todos os dias me interrogo sobre o que poderia ou deveria ter feito enquanto ela cá esteve e não fiz (será que isto acontece a todos os que perdem alguém fora de tempo?)
Mas é sobre algumas memórias daqueles dias terríveis depois de termos recebido o telefonema que não queríamos receber que quero escrever hoje. Sobre todos os amigos, nossos e dela, que nos ampararam e apoiaram, com a sua presença e palavras amigas. Sobre as homenagens que lhe foram prestadas, por entidades públicas, privadas e pessoas que não conhecíamos. E sobre todos os que sobre ela escreveram coisas lindas, que a recordaram, enalteceram e nos fizeram chorar, mas ficar orgulhosas.
A todos estes, OBRIGADO!
Infelizmente há os outros.
Os que a ignoraram quando ela precisou, e que se apressaram a aparecer nas cerimónias, a postar nas redes sociais, a escrever artigos na comunicação social, sempre com ar pesaroso e grandes elogios. Porque não lhe atenderam o telefone? Porque não lhe estenderam a mão quando ela vos procurou? Porque não a elogiaram quando ela precisava do vosso chão?
Os que, sem a conhecer ou fazer ideia do que pensava ou sentia, postaram a torto e a direito. A querer saber como tinha morrido. Quando tinha morrido. Se pagava ou não à empregada. Se recebia ou não apoio da segurança social. Se a família a apoiava ou não. Para onde tinha ido o cão. E tantas outras parvoeiras sem interesse.
Sobre quem tinha obrigação de fazer o seu trabalho bem feito.
Quem escreve no elogio fúnebre que teve uma carreira académica complicada por causa de um plágio na tese de doutoramento (*1). E que, quando interpelado sobre o erro, não se preocupou em esclarecer o engano, limitando-se a retirar o parágrafo.
Quem entende que pode afirmar e censurar o seu abandono pela família, apenas porque morreu sozinha (*2), sem conhecer a real situação da Clara, mesmo quando a realidade lhe foi apresentada.
Sobre alguns meios de comunicação social (felizmente poucos) que não se cansaram de especular sobre a data, a forma e as causas da sua morte, sobre a sua vida, sobre a sua família, sobre as suas posses… sempre numa tentativa de semear dúvida e suspeição. E todos aqueles que se deram ao trabalho de comentar todos os anteriores. Uma vez mais sem qualquer conhecimento de causa. Apenas porque sim, porque é fácil inventar, reproduzir, comentar, denegrir, criar dúvidas, lançar suspeitas.
E pergunto-me o que provoca tudo isto.
Vidas sem interesse? Pessoas sem escrúpulos? Entretenimento gratuito? Pura maldade?
A quem é amigo de quem parte, tudo isto causa repugnância e dor – ver quem se conhece ser maltratado sem hipótese de se defender, é terrível.
Sei que a Clara não é caso único. Sei que há por toda a parte especulações sobre quem faz o quê e porque o faz. Assisto às histórias e especulações que se levantam sobre tantas pessoas.
E desta vez senti na pele a hipocrisia dos que a abandonaram e agora a elogiam, o destratar dos incógnitos, o insulto de quem devia saber mais.
Peço a todos que, da próxima vez que se prepararem para comentar alguém, seja ao vivo, online ou na comunicação social, pensem um minuto sobre a veracidade do que vão dizer, sobre as fontes onde se informaram, sobre a dor que o que disserem pode causar.
Talvez assim causemos menos mágoas
Obrigado
(*1) Se alguma coisa a Clara Pinto Correia tinha acima de qualquer suspeição era a sua carreira académica, desenvolvida entre Portugal e os EUA, com obra publicada e mérito internacionalmente reconhecido. Existiu um plágio, sim. Mas em artigo publicado e não em conteúdo académico.
Numa altura em que a sua vida pessoal estava complicada, uma reprodução de um artigo de uma revista americana sem os devidos “” foi o suficiente para que a pequenez da intelectualidade de Portugal a crucificasse sem apelo, e que nunca mais permitissem que fosse esquecido, independentemente da riqueza de toda a sua obra literária
(*2) Eu, como muitos de nós, vivo sozinha. Mesmo tendo família e amigos perto, não falamos com eles todos os dias. Se morrermos durante a noite, ou num dia em que não tenhamos nada marcado com alguém que possa estranhar a nossa ausência… pode bem passar um par de dias antes que sejamos “encontrados mortos”.








