Opinião

A Inteligência Artificial não vai substituir líderes. Vai expor os maus líderes.

Filipe Carvalho, fundador e CEO da Optiwisers
Foto: Filipe Carvalho, fundador e CEO da Optiwisers

Todos os dias surgem novas previsões sobre o impacto da Inteligência Artificial no mercado de trabalho. Uns dizem que milhões de empregos desaparecerão. Outros acreditam que estamos perante a maior revolução tecnológica desde a Internet. Mas, na minha opinião, estamos a fazer a pergunta errada.

A questão não é quantos empregos serão substituídos. A verdadeira questão é o que acontecerá às empresas cujos líderes continuarem a decidir exatamente da mesma forma.

Durante décadas, muitas organizações justificaram decisões lentas com a falta de informação.

Era preciso esperar por relatórios.

Consolidar dados.

Cruzar diferentes fontes.

Recolher opiniões.

Hoje, essa realidade está a mudar rapidamente.

A Inteligência Artificial consegue analisar grandes volumes de informação em segundos.

Resume documentos.

Identifica padrões.

Compara cenários.

Produz recomendações.

Automatiza tarefas que antes consumiam horas ou dias.

O acesso à informação deixou de ser o maior obstáculo.

Mas isso não significa que decidir tenha ficado mais fácil.

Pelo contrário.

Quanto maior for a quantidade de informação disponível, maior será a importância da capacidade de interpretar contexto, definir prioridades e tomar decisões.

E essa continua a ser uma responsabilidade exclusivamente humana.

A Inteligência Artificial pode sugerir uma decisão.

Mas não assume as suas consequências.

Não inspira equipas.

Não cria confiança.

Não desenvolve pessoas.

Não constrói cultura.

Não resolve conflitos.

E, sobretudo, não toma decisões difíceis quando não existe uma resposta perfeita.

Essas continuarão a ser responsabilidades da liderança.

É precisamente por isso que acredito que a Inteligência Artificial não vai diminuir a importância dos líderes.

Vai aumentá-la.

Durante muitos anos, era possível justificar decisões pouco eficazes com a falta de informação ou com processos demasiado lentos.

Essa desculpa está a desaparecer.

Quando todas as empresas tiverem acesso às mesmas ferramentas de Inteligência Artificial, a diferença deixará de estar na tecnologia.

Estará na capacidade de cada organização transformar essa tecnologia em melhores decisões, equipas mais fortes e maior capacidade de execução.

A vantagem competitiva deixará de ser tecnológica.

Passará a ser cada vez mais humana.

Isso significa que as empresas precisam de começar a preparar os seus líderes para um contexto completamente diferente.

Menos tempo dedicado a procurar informação.

Mais tempo dedicado a decidir.

Menos foco no controlo.

Mais foco em desenvolver pessoas.

Menos preocupação em ter todas as respostas.

Mais capacidade para fazer as perguntas certas.

Investir em Inteligência Artificial será importante.

Mas investir na capacidade de liderança será decisivo.

Porque nenhuma tecnologia consegue substituir pensamento crítico, visão estratégica, coragem para decidir ou a capacidade de mobilizar pessoas em torno de um objetivo comum.

As empresas que terão sucesso não serão necessariamente aquelas que utilizarem mais Inteligência Artificial.

Serão aquelas cujos líderes conseguirem transformar essa tecnologia em decisões melhores, organizações mais ágeis e equipas mais preparadas para mudar.

Talvez a maior transformação provocada pela Inteligência Artificial não seja tecnológica.

Seja humana.

Porque a Inteligência Artificial será cada vez mais acessível.

A liderança continuará a ser rara.

E será essa diferença que separará as empresas que apenas utilizam tecnologia daquelas que verdadeiramente se transformam.

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