Os tempos extraordinários provocados pela pandemia Covid estão cheios de perplexidades com consequências ainda difíceis de avaliar. Porém, um dos maiores riscos da atual situação é a ilusão gerada pela criação das bolhas virtuais do teletrabalho e do confinamento.

Gerou-se uma falsa ilusão de proteção e conforto cumulada pela cobertura que os apoios do Estado às empresas e a muitos cidadãos gerou. A perceção errada da existência de recursos financeiros ilimitados ao dispor do Estado tem gerado, em muitos, a ilusão de que, agora, a vida em teletrabalho e em casa corresponderia a um novo “normal” confortável, pelo menos, para os que, não sendo todos, podem desfrutar de tal “mundo”.

Sucede que a realidade é sempre determinada por uma condicionante que não depende, a não ser na forma mais ou menos eficiente como são geridos: a escassez de recursos disponíveis.

É, por isso, preocupante ver a facilidade com se tem vindo a falar da disponibilização de dinheiro do Estado para tantas iniciativas e sem que a análise mínima de retorno seja colocada como condição prévia da aprovação da despesa. Sucede que recursos mal aplicados – despesa realizada sem critérios de racionalidade – tem um duplo efeito negativo: destruição de capital acumulado que, dada a ineficiência da aplicação, deixa de ser reprodutivo e maior exigência de redirecionamento de recursos futuros para cobrir tais afetações ineficientes.

Ora a despesa do Estado só pode ser paga à custa de duas vias: mais impostos de imediato ou mais impostos no futuro, caso o Estado opte por e consiga financiar-se à custa de maior dívida pública. O problema é que, quanto maior for a dimensão dos recursos absorvidos pelo Estado, menos dinheiro é aplicado na geração de riqueza e no crescimento económico e, sem isso, todos iremos ficar cada vez mais pobres.

Torna-se, por isso, indispensável que se combata a tentação confortável de as decisões de realização de despesa pública não serem sujeitas ao escrutínio da sua eficiência e do retorno que a mesma espera gerar. O estado atual de emergência em muitos países alimenta dá muito gás a essa tentação. E adicionalmente tem-se inventado toda uma infindável lista de razões não económicas e em muitos casos altamente discutíveis para justificar despesa não produtiva e de utilidade muito duvidosa. São causas ambientais, são pretensas políticas de reengenharia social e até biológica. Tudo muitas vezes envolvido num tique socializante “déjá vu” para justificar despesismo em bases não económicas e que no final, como a história já provou muitas vezes, conduzem sempre a miséria crescente e a menos desenvolvimento.

Esperemos, por isso, que, começando nós a passar a fase mais critica da pandemia, haja o bom senso e a preocupação de voltar a optar critérios racionais de aplicação do dinheiro em busca de sempre maior eficiência. Se não, os radiantes mundos virtuais que muitos sempre gostam de apregoar para o futuro gerarão novos fracassos económicos e sociais

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Franquelim Alves é Diretor-Geral da 3anglecapital, sociedade especializada em operações de M&A e serviços de “advisory” financeiro. Licenciado em economia, pelo ISEG, detém um MBA em Finanças pela Universidade Católica Portuguesa e o Advanced Management Program da Wharton School of... Ler Mais