Opinião

A falha é sistémica: Médicos temos. Gestão é que não!

José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education

Portugal discute saúde como quem discute futebol: todos opinam, todos sabem, todos reclamam, todos vêm à televisão e à rádio falar sobre saúde.

Mas, quando tiramos o ruído da equação, há uma verdade simples e dolorosa: não estamos a falhar por falta de profissionais (nomeadamente médicos); estamos a falhar clamorosamente por falta de gestão. E, enquanto não assumirmos isto com coragem, continuaremos a insistir num modelo que mascara problemas estruturais com soluções cosméticas.

Os profissionais clínicos (e os médicos) são essenciais, parece óbvio. Mas não se pode pedir a quem salva as nossas vidas e trata de nós que, ao mesmo tempo, desenhe processos, otimize fluxos, faça planeamento de capacidade, negoceie com fornecedores, redesenhe cadeias de abastecimento, implemente sistemas de informação, motive equipas, analise dados, crie modelos de previsão, estude impactos financeiros e, no fim do dia, ainda sorria para cada paciente. Há profissões e competências para isso. Chama-se gestão e, Portugal, ainda não a colocou no centro do sistema.

A maioria das organizações de saúde vive presa a uma teia de burocracias, silos, egos, baixíssimo sentido institucional e modelos de governação que se perderam no tempo. O resultado é óbvio: temos excelentes clínicos a trabalhar dentro de organizações frágeis, onde processos básicos não funcionam, a tecnologia não conversa entre si, a logística falha clamorosamente, os prazos nunca se cumprem e a experiência do paciente é indescritível.

O problema não está nas pessoas. O problema está na ausência de um modelo de gestão moderno. Consistente. Com lideranças fortes que saibam como se cria valor em saúde.

Numa organização de saúde, tal como numa empresa, há que gerir capacidade, variabilidade, qualidade, tempos de ciclo, custos, stocks, filas de espera, fluxos físicos, fluxos de pacientes, fluxos de dados, pessoas, cultura e, em cima de tudo isto, ter uma estratégia clara, simples, e conhecida de todos. Mas quantos hospitais têm verdadeiros gestores a ocupar posições críticas e com visão e um desenho estratégico e a ser implementado? Quantos têm modelos de decisão baseados em dados e não em episódios diários? Quantos têm accountability clara? Quantos estão orientados para valor e não apenas para produção?

Continuamos a fingir que a saúde é um mundo à parte, onde as leis da boa gestão não se aplicam. E onde vamos repetindo uma máxima cansativa: “na saúde tudo é diferente”. Ignorar a gestão é pagar um preço altíssimo. E o que nos está a custar é o próprio SNS.

Façam-se PPP’s, arranjem-se novos modelos de gestão, encontrem-se lideranças responsabilizáveis, remunere-se o mérito a sério, ponha-se a gestão no centro da equação. Sem isso, o tempo ditará o que uma vez foi uma boa ideia. Vamos deixar de ter, fruto de muitíssimos anos de atavismo, um sistema universal de saúde. Tudo isto vai colapsar. Lamentavelmente para todos nós.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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