Entrevista/ “A Europa tem tudo para ser uma potência global em inovação e empreendedorismo”
“Os investidores já não olham apenas para a aquisição de utilizadores; escrutinam rentabilidade, sustentabilidade e transparência”, explica Ricardo Luz, vice-presidente da EBAN – European Business Angel Network.
Criada em 1999 por redes pioneiras de business angels com a colaboração da Comissão Europeia e da EURADA, a EBAN – European Business Angels Network é o representante pan-europeu da comunidade de investidores early-stage, reunindo mais de 150 organizações membros em mais de 50 países, representado um setor que investe mais de 11 mil milhões de euros por ano.
Membro do Board da EBAN há mais de dez anos, Ricardo Luz é vice-presidente da associação onde dá o seu contributo “para influenciar as prioridades políticas essenciais ao fortalecimento do panorama de investimento early-stage na Europa.
Em entrevista ao Link to Leaders traça o retrato atual do investimento em start-ups na Europa, onde existem 358 redes de business angels ativas, em 37 países europeus, analisa este mercado que se caracteriza pela consolidação e profissionalização, e onde se vive um “otimismo cauteloso”.
Pode contar-nos como começou a sua ligação à EBAN e como evoluiu ao longo destes mais de 15 anos?
Em 2007 fundei a Invicta Angels – Associação de Investidores early-stage do Norte e, juntamente com o Francisco Banha e o Paulo Andrez, fui cofundador da FNABA – Federação Nacional de Associações de Business Angels. Desde o início considerámos fundamental aprender com as melhores práticas, e partilhar conhecimento para desenvolver o ecossistema nacional e europeu, pelo que associámos a FNABA à EBAN – European Business Angels Network, a mais forte associação europeia representante de business angels.
Desde 2010 estive presente nos principais eventos da EBAN, especialmente no Congresso Europeu e no European Angel Investment Summit, e membro ativo de uma jornada marcada pela colaboração com muitos investidores, na Europa e no Mundo, e tive oportunidade de participar em decisões e iniciativas da EBAN em prol do investimento early-stage na Europa.
Atualmente, como VP, quais são as suas principais responsabilidades e prioridades?
Desde 2014, com exceção de um período em que fui administrador executivo da IFD (atual BPF), que integro o Board da EBAN. Atualmente, com responsabilidades em termos de Advocacy, onde, junto com os meus colegas de Board e a equipa executiva da EBAN, trabalhamos para influenciar as prioridades políticas essenciais ao fortalecimento do panorama de investimento early-stage na Europa.
Neste momento, a EBAN solicita atenção imediata da UE para três áreas críticas: o alargamento dos fundos de coinvestimento público-privados, com investidores early-stage, tanto a nível da UE como nacional, aprendendo e aperfeiçoando a partir das melhores práticas; incentivar fundos de pensões e seguros a direcionarem mais capital para fundos de capital de risco e fundos liderados por investidores early-stage; e a introdução do 28.º Regime – um quadro jurídico a nível da UE para simplificar o crescimento transfronteiriço de start-ups, reduzindo complexidades regulamentares e facilitando operações através de uma estrutura empresarial pan-europeia comum.
Entre outras, a EBAN mantém relações próximas com relevantes instituições europeias, como o Gabinete da Comissária Europeia Ekaterina Zaharieva, a DG Grow, a DG FISMA e o Grupo BEI/FEI, e trabalha ativamente junto de muitas entidades privadas internacionais, e especialmente com os seus associados – redes de business angels e outros investidores early-stage, e empresas por estes investidas, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento do ecossistema de investimento early-stage na Europa.
Qual é o retrato atual do investimento em start-ups na Europa? Estamos a acompanhar o ritmo dos EUA ou de outros mercados internacionais?
Os EUA mantêm-se na liderança do investimento em start-ups. Nos primeiros nove meses de 2025, o investimento total em empresas tecnológicas americanas atingiu cerca de €150 mil milhões, captando 2/3 do financiamento global de venture capital no segundo trimestre de 2025.
A Europa, embora com um ecossistema maduro e em crescimento, opera a uma escala menor. No mesmo período os investidores aplicaram cerca de €44 mil milhões em start-ups europeias, num total que deverá igualar os cerca de €60 mil milhões investidos em 2024. Apesar do fundraising de empresas de Venture Capital europeias até Q3 2025 ter sido de €8,3 mil milhões, observam-se sinais encorajadores, como sejam a maior diversificação geográfica, ao lado do tradicional domínio do Reino Unido, o influxo crescente de capital estrangeiro e potencial de crescimento significativo impulsionado pelo investimento em IA e Defesa.
No investimento por business angels, se analisarmos os dados de três mercados ativos, a Dinamarca, Finlândia e Estónia, o investimento atingiu o pico em 2022 e tem diminuído desde então, refletindo a evolução do mercado europeu de capital de risco. Segundo o relatório “State of European Angels 2025”, entre 2024 e 2025 assistiu-se a uma redução no número de negócios reportados, refletindo maior seletividade e foco em portfólios existentes.
Existem 358 redes de Business Angels ativas em 37 países europeus, que se estão a tornar maiores e mais capitalizadas – menos grupos reúnem mais membros e capital. Estimam-se mais de 40.000 business angels na Europa, um número que tem crescido consistentemente, e sabemos que o “mercado angel” é significativamente maior que os dados indicam, dada a elevada proporção de investimento “invisível”.
O mercado caracteriza-se pela consolidação e profissionalização (menos redes, mas maiores); maior seletividade (menos negócios, mas tickets médios mais altos); foco em portefólios existentes face à incerteza; resiliência relativa (Europa ganha quota face à América do Norte e Ásia); e maior diversidade (mais mulheres investidoras). Em suma, vive-se um otimismo cauteloso, até porque “períodos de incerteza” têm sido historicamente bem-sucedidos em termos de investimento early-stage.
“E assistimos a um elevado crescimento em termos de Defence Tech que, impulsionado pelo contexto geopolítico, apresenta a maior taxa de crescimento (…)”
Que setores ou tipos de start-ups estão a atrair mais atenção e investimento neste momento?
Atualmente na Europa, o Deep Tech atrai quase um terço do financiamento de capital de risco, refletindo a aposta europeia em inovação tecnológica de ponta com uma taxa média de crescimento anual de 30% entre 2014 e 2024. Assiste-se a uma “explosão” da Inteligência Artificial – segundo a PitchBook, seis dos 10 principais negócios na Europa em 2024 foram de empresas de IA, sendo que apenas no primeiro trimestre de 2025 as start-ups de IA captaram 58% do total do financiamento de capital de risco global.
De acordo com o relatório “State of European Angels 2025” e dados da EBAN, os cinco setores preferenciais para Business Angels são: Deep Tech, tecnologias avançadas baseadas em investigação científica de ponta; Inteligência Artificial, com aplicações práticas de AI em diversas indústrias; CleanTech, soluções para sustentabilidade e transição energética; HealthTech, saúde digital, dispositivos médicos e análise de dados de saúde; e Fintech, soluções financeiras digitais. E assistimos a um elevado crescimento em termos de Defence Tech que, impulsionado pelo contexto geopolítico, apresenta a maior taxa de crescimento, e o Industrial Tech, com investimento em tecnologias para modernização industrial.
Um fenómeno, algo preocupante, é de o capital de risco estar a fluir massivamente para algumas poucas empresas de AI em fase mais tardia, “afastando-o” de outros setores e gerando um fosso de investimento em start-ups em fase inicial noutras áreas.
Segundo as estatísticas da EBAN, os business angels têm acompanhado as tendências do mercado, e nos últimos dois anos a IA e Defence Tech tornaram-se tópicos quentes, refletindo tanto oportunidades tecnológicas como prioridades estratégicas europeias.
Quais são os maiores obstáculos que as start-ups e scale-ups enfrentam em termos de financiamento?
Os principais obstáculos refletem um ambiente de financiamento mais rigoroso e seletivo, onde os investidores privilegiam empresas com tração comprovada, modelos de negócio sustentáveis e equipas experientes. Na Europa, estes desafios são amplificados pela fragmentação regulatória, valuations mais baixas e menor disponibilidade de capital, especialmente para rondas de crescimento (Série A+).
Os investidores já não olham apenas para a aquisição de utilizadores; escrutinam rentabilidade, sustentabilidade e transparência. E a incerteza crescente em que se vive leva a preços mais baixos e maior exigência. Nota-se também um gap de financiamento no “Valley of Death”, i.é., muitas empresas financiadas em seed em 2021-2022 enfrentam agora uma barreira mais alta para garantir uma Série A, forçando muitas a procurar rondas “bridge” para sobreviver. Comparações com os EUA destacam a falta de fundos de VC de grande escala na Europa.
Ao contrário dos EUA, que operam como mercado único, o ambiente regulatório europeu varia significativamente entre países. Tal, segundo estudos realizados, leva a uma redução nos lucros de pequenas empresas tecnológicas em mais de 10%.
E se estas questões impactam todas as empresas, afetam muito mais as que têm falta de track record, pois a ausência de histórico é uma barreira significativa num ambiente onde o capital flui para quem já provou capacidade de execução.
Como é que as políticas europeias e nacionais impactam o desenvolvimento do ecossistema?
As políticas europeias e nacionais impactam significativamente o desenvolvimento do ecossistema, seja limitando o seu crescimento, seja contribuindo para que este floresça. O mais importante é que contribuam para que o mercado funcione de forma livre e eficiente. Uma boa regulação na economia de mercado deve caracterizar-se por um equilíbrio entre a intervenção do Estado e a liberdade de mercado.
No que respeita ao desenvolvimento do ecossistema de investimento early-stage, a EBAN defende uma parceria entre instituições públicas e privadas que contribua para o reforço do investimento privado em start-ups e scaleups europeias. Um dos objetivos centrais consiste na criação de condições para a retenção na Europa de empresas à medida que se desenvolvem e necessitam de mais capital, o que, entre outros, implica a simplificação das burocracias e eliminação das barreiras que dificultam o crescimento no mercado europeu e global, a melhoria dos programas de co-investimento público-privado, o incentivo ao investimento institucional em empresas na sua fase inicial e a facilitação do investimento transfronteiriço e de exits para investidores.
Recentemente, a EBAN assinou a petição da EU Inc, defendendo um quadro jurídico unificado (28.º Regime) para reduzir complexidades regulamentares, bem como uma carta aberta à Comissão Europeia, coordenada pela France Digitale, destacando a necessidade de políticas unificadas da UE para apoiar start-ups.
De que forma a EBAN tem contribuído para fortalecer o investimento e a colaboração entre investidores e start-ups europeias?
A EBAN é o representante pan-europeu da comunidade de investidores early-stage, reunindo mais de 150 organizações membros em mais de 50 países. Estabelecida em 1999 por redes pioneiras de business angels com colaboração da Comissão Europeia e da EURADA, representa um setor que investe mais de €11 mil milhões por ano, desempenhando um papel vital no financiamento das PME europeias e na criação de riqueza e empregos.
A EBAN contribui através de advocacy ao representar business angels, e investidores early-stage em geral, perante entidades públicas e governamentais, trabalhando com decisores políticos na definição de regulamentos, instrumentos e programas que libertem o poder da comunidade europeia de investimento e empreendedorismo early-stage. Mas também com networking e conhecimento ao criar oportunidades de networking de qualidade para as membros, promoção e partilha de conhecimento e melhores práticas entre investidores early-stage. Realiza dois eventos anuais principais – o Congresso Europeu e o European Angel Investment Summit – com 23 edições já organizadas, e mais de 1.000 participantes por ano.
Contribui ainda com capacitação ao realizar mais de 20 webinars anuais para investidores, workshops presenciais, programa de mentoria individual “Ask an Angel” e mais de 20 webinars para founders sobre preparação para investimento e também com uma comunidade ativa que gere comunidades temáticas, como é o caso de, entre outras, a EBAN Space and Defense, EBAN Sports, EBAN Health e EBAN BAN Managers. Oferece ainda sessões de pitching online, e plataforma para partilha de deal flow entre membros. Junta-se também a investigação, ao publicar anualmente o Compêndio de Estatísticas, Compêndio de Coinvestimento e Compêndio de Incentivos Fiscais, além de relatórios sobre tendências de mercado.
Que conselhos daria a investidores e empreendedores que queiram atuar na Europa?
Aos empreendedores, antes de mais, que tenham ambição e acreditem que a Europa, e o Mundo, é o seu mercado natural. Que não se limitem ao seu país, mas sim construam desde o início um projeto com visão global, aproveitando o talento, a investigação de qualidade e as oportunidades que a Europa oferece. E mesmo antes de procurarem capital, que procurem clientes desde o primeiro dia, validando os seus projetos com receita real. A velocidade de execução é cada vez mais uma forte vantagem competitiva. O capital virá mais facilmente após provada a adequação produto-mercado, quando a receita, o crescimento e a equação económica já são uma realidade.
Aos investidores que se associem-se à EBAN, e participem ativamente nos seus principais eventos internacionais, em especial no Congresso Europeu (este ano em Vilnius, Lituânia) e no European Angel Investment Summit, realizado em parceria com a UE (em Bruxelas). Que sejam membros ativos das discussões que promovemos e das comunidades que dinamizamos, pois o networking, a partilha de conhecimento e de deal flow, e o acesso a melhores práticas internacionais, são fundamentais para o sucesso no investimento early-stage.
Quais são as tendências que está a observar para os próximos anos no financiamento de start-ups?
Se para projetos Deep Tech, como por exemplo IA, computação quântica, biotecnologia e robótica avançada, continua a fazer sentido angariar dezenas de milhões de euros, pois exigem enormes custos iniciais, computação massiva, longos ciclos de I&D e contratação de talentos raros, para a maioria das start-ups, porém, o paradigma está a mudar.
As barreiras à entrada são cada vez mais baixas, os imitadores aparecem instantaneamente e os clientes mudam facilmente. Chegar com os produtos rapidamente ao mercado, cobrar desde o primeiro dia e validar o “sucesso” com receita real é cada vez mais importante. Mais do que um bom pitch deck é conseguir-se um bom grupo de clientes que pague os produtos e serviços. A velocidade sempre foi e é cada vez mais a vantagem competitiva.
Para um número crescente de empresas, levantar capital faz mais sentido após a adequação produto-mercado, quando a receita, o crescimento e a equação económica já estão comprovados. Ou seja, a angariação de fundos já não é o maior “marco de sucesso”, mas sim a capacidade de gerar receita a partir dos clientes. Julgo que esta tendência se irá consolidar nos próximos anos.
Em termos de investimento por parte dos business angels, bem como do capital de risco em geral, face à necessidade de re-industrialização da Europa, e aos desafios de segurança que a mesma enfrenta, creio que continuaremos a assistir à importância do investimento em Deep Tech, Inteligência Artificial, CleanTech, Industrial Tech e Defence Tech.
“Entendemos que a UE deve concentrar-se em promover e catalisar o investimento por parte de investidores privados (…)”.
Como imagina o futuro do ecossistema europeu de start-ups e o papel da EBAN nesse desenvolvimento?
Imagino-o com otimismo! A Europa tem vantagens competitivas fundamentais como sejam o talento qualificado, a investigação de excelência e uma crescente cultura empreendedora. Acredito que, precisamente porque vivemos tempos desafiantes, e mesmo perigosos, o sentido de urgência fará a Europa acordar a sua força “adormecida”. As ameaças geopolíticas, a competição global intensificada e a necessidade de autonomia estratégica estão a catalisar uma nova determinação europeia para fortalecer o seu ecossistema de inovação.
O papel da EBAN é crucial. Continuaremos a concretizar a nossa missão de “Driving successful and responsible Angel Investing in Europe”, atuando em três frentes principais: Advocacy, trabalhando junto das instituições europeias e nacionais para criar condições de investimento, regulamentares e fiscais que permitam ao ecossistema europeu competir globalmente; Capacitação, formando a próxima geração de investidores e empreendedores através da partilha de conhecimento, melhores práticas e networking de qualidade; e Conexão, ligando investidores, empreendedores, instituições públicas e privadas através das nossas comunidades temáticas, eventos e plataformas, porque a colaboração é fundamental para o sucesso.
É justo elogiar a Comissão Europeia pelo relatório “Start Up and Scale-up strategy”, de maio de 2025, onde é feito o reconhecimento explícito dos dois “Startup Valley of Death” . Os Business Angels são quem melhor pode investir na resolução do primeiro vale da morte (seed e early-stage), pré-requisito indispensável para que as empresas possam ambicionar ultrapassar o segundo (growth e scale-up).
É muito importante o papel da UE, mas esta não pode (nem deve) fornecer todo o capital de risco necessário para assegurar o crescimento da economia europeia. Os recursos públicos, por maiores que sejam, nunca serão suficientes para colmatar o gap de investimento face aos EUA e outros mercados globais. Entendemos que a UE deve concentrar-se em promover e catalisar o investimento por parte de investidores privados, desde os business angels na base da pirâmide, passando pelos fundos de venture capital e private equity, até aos fundos de pensões.
A promoção do investimento privado pode ser alcançada através de alavancas fundamentais como uma desregulamentação inteligente, eliminando a fragmentação regulatória que sufoca o crescimento transfronteiriço, reduzindo custos de compliance desproporcionais para start-ups e pequenos fundos, e criando o tão necessário 28.º Regime para harmonizar operações na UE. E criando-se instrumentos de investimento visionários, como é o caso do TIBI (Tax Incentive for Business Investment) e de programas de co-investimento público-privado que alavancam capital privado com garantias ou participações públicas minoritárias. Ao contrário de subsídios diretos que têm efeito limitado e não escalável, estes instrumentos multiplicam o efeito do investimento público ao trazer capital privado para a equação,
A Europa tem tudo para ser uma potência global em inovação e empreendedorismo. A EBAN estará, como sempre esteve, na linha da frente deste desenvolvimento, representando e fortalecendo a comunidade de investimento, essencial para transformar ideias em empresas de sucesso e contribuindo para a consistente consolidação e profissionalização das redes de business angels e outros investidores early-stage.








