Opinião
Diminuir a dependência do exterior
Em 2022, o défice da balança comercial atingiu os 30.783 milhões de euros. Trata-se do valor mais elevado desde que há registos e é explicado pelo facto de as importações de bens terem crescido 31,2%, enquanto as exportações subiram apenas 23,1%.
Houve, assim, um aumento de 11.256 milhões de euros de défice face a 2021 e um decréscimo de 4,7% na taxa de cobertura (percentagem das exportações que são cobertas por importações), que foi a mais baixa desde 2011: 71,8%. Estes dados reportados pelo INE resultam, em boa medida, da crise energética e inflacionista que estamos a viver, mas também decorrem dos desequilíbrios estruturais da nossa economia.
Perante este cenário, é crucial para o país aumentar as suas exportações e, ao mesmo tempo, diminuir as compras ao exterior. E é verdade que a economia portuguesa tem vindo a tornar-se mais orientada para o exterior, mais competitiva internacionalmente e mais capaz de conquistar quotas de mercado. Tanto assim que o peso das exportações no PIB está já próximo dos 50%.
Acontece que muitos dos bens que vendemos ao exterior têm uma forte componente de importação, em particular matérias-primas, tecnologias e energia. Acresce que a produção nacional em diferentes setores é claramente insuficiente para as necessidades do país, o que obriga a importar muitos dos bens que são essenciais às famílias e às empresas.
Mas Portugal reúne, a meu ver, condições para se tornar autosuficiente em determinados bens ou, pelo menos, para reduzir a necessidade de recorrer a importações, atenuando assim a dependência face ao exterior. Esta premissa é válida, por exemplo, para três setores estratégicos: o energético, o agroalimentar e o florestal.
Relativamente ao setor energético, Portugal tem a possibilidade de aumentar o recurso às energias renováveis, tirando partido das excelentes condições naturais para o desenvolvimento da energia solar, eólica, geotérmica, de biomassa e biogás, maremotriz e hídrica. Simultaneamente, o país agrega hoje massa crítica e dispõe de incentivos públicos para acelerar a eficiência energética em empresas, edifícios de comércio e serviços e habitações.
Também há boas condições para reduzir as importações de produtos alimentares de base (algumas carnes, leite, cereais, frutas, azeite…). Acredito que se pode produzir a preços competitivos vários destes alimentos, desde que mais explorações agrícolas adquiram competências de gestão, avancem na transição digital e energética e ganhem dimensão. Neste último ponto, é fundamental promover um novo emparcelamento da estrutura fundiária do país, de forma a torná-la mais coerente, produtiva e rentável.
A mesma realidade verifica-se na fileira da floresta, também ela bastante dependente face ao exterior, mas com potencial de exportação. O cadastro florestal é em muitos casos incompleto, de tal forma que não se conseguem identificar os proprietários dos terrenos. Noutros casos, a propriedade está tão dividida que é impossível criar unidades de produção florestal economicamente viáveis e mais seguras contra incêndios. Ora, com outra organização da exploração da floresta seria possível modernizar as tradicionais atividades ligadas à madeira e ao mobiliário, dinamizar ainda mais a indústria da pasta e do papel e aumentar a produção de energia a partir da biomassa.
Estes três setores apresentam potencial para mitigar a nossa dependência externa de bens essenciais e para reduzir a incorporação de importações nas nossas vendas ao exterior. É preciso, pois, canalizar investimentos para estes setores, tirando partido dos fundos comunitários e atraindo capital externo.
*Associação Nacional de Jovens Empresários