Dez mulheres, líderes de empresas nacionais como a Microsoft, Novartis, EDP, Montepio, Capgemini ou Cepsa, falam dos seus percursos profissionais e de como conseguiram vingar num mundo de homens. Os testemunhos estão no livro “Novas Lições de Liderança de CEO Portuguesas” e o Link To Leaders falou com as autoras.

Ruth Breitenfeld, Vera Pinto Pereira, Carla Rebelo, Paula Panarra, Carmo Sousa Machado, Marta Carvalho Araújo, Clara Raposo, Cristina Campos, Dulce Mota e Cristina Rodrigues são as 10 mulheres, executivas de topo, que revelam em livro o seu percurso profissional, os seus erros, as experiências e as aprendizagens alcançadas num universo empresarial ainda dominado por homens.

Entrevistámos as autoras do livro, Maria Serina e Isabel Canha, que partilharam com o Link To Leaders o que mais as surpreendeu nos testemunhos destas 10 líderes, bem como a lições que retiraram deste projeto.

Como surgiu o projeto “Novas Lições de Liderança de CEO Portuguesas” e que expetativas têm em relação a esta segunda edição do livro?
Isabel Canha (I.C.): O “Novas Lições de Liderança de CEO Portuguesas” enquadra-se na missão da Executiva de dar voz a mulheres inspiradoras que possam servir de role models a outras gestoras, para que atinjam os lugares que ambicionam e para os quais estão preparadas. É um livro na senda de Lições de Liderança de CEO Portuguesas, editado também pela Redcherry, de que também somos autoras e que se encontra esgotado. Em cada uma destas obras, damos voz a 10 mulheres CEO, administradoras, diretoras gerais ou deans de universidades, isto é, a mulheres que desempenham funções de liderança.

Porquê estas 10 mulheres e não outras?  O que distingue estas executivas?
Maria Serina (M.S.): Desde logo as funções que desempenham: são todas gestoras de topo. Procurámos também que tivessem experiências profissionais diversas e que trabalhassem em setores de atividade diferentes, pois consideramos que dessa diversidade resulta um conjunto mais rico e completo.

“O que mais as distingue de outras mulheres é que são todas pessoas com uma energia e uma força que impressionam ao primeiro contacto.”

Que características encontraram de comum entre as entrevistadas no seu percurso até atingirem o topo?
I.C.: O que mais as distingue de outras mulheres é que são todas pessoas com uma energia e uma força que impressionam ao primeiro contacto. São profissionais competentes com provas dadas. Mas a caraterística mais comummente encontrada nelas é a paixão por aquilo que fazem, pela liderança de equipas, por pessoas, pelos projectos em que estão envolvidas, pelo setor em que trabalham.

E que erros foram mas frequentes no percurso e carreiras destas mulheres?
M.S.: Em relação à temática do erro, são unânimes em afirmar que, qualquer que seja o erro e a tolerância ou intolerância que elas próprias sintam quanto aos seus falhanços ou enganos, o importante é refletir sobre eles e retirar aprendizagens para evitar cometer os mesmos erros no futuro. E que sem a tentativa, a experimentação de novas soluções, a que está associada a possibilidade de errar, não pode existir inovação.

Em que aspetos estas mulheres são role models?
I.C.: As mulheres representam menos de 1/3 dos cargos de gestão das empresas. Em funções de liderança (número 1 da organização) são ainda menos, pelo que elas são uma verdadeira elite de gestoras. Chegaram onde a maioria das mulheres profissionais ainda não chegou. Nesse sentido, são modelos que as outras mulheres querem escutar para saber que dificuldades encontraram, como as ultrapassaram, como lidam com a culpa ou a falta de confiança, como se fazem escutar em reuniões onde os homens ainda predominam ou quando são mais jovens que a equipa que lideram, etc.

“(…) as mulheres continuam sub-representadas quando analisamos as funções de gestão e liderança.”

Banca, tecnologia, consultoria, energia, academia, indústria, recursos humanos, advocacia… estas são algumas áreas de intervenção das líderes entrevistadas. Quais os setores mais difíceis para as mulheres?
M.S.: Há setores mais masculinos e setores em que a proporção de mulheres é maior, mas, em geral, em todos eles, as mulheres continuam sub-representadas quando analisamos as funções de gestão e liderança. A banca foi e continua a ser um setor muito dominado por homens. A escassez de mulheres na tecnologia é um problema de proporções mundiais, a que as empresas da área estão atentas e em que tentam mudar esse panorama, dado o défice de profissionais talentosos em relação às necessidades de crescimento do setor.

“Como história de vida, a de Ruth Breitenfeld, vice-presidente da Cepsa, é particularmente marcante”.

Qual a história de vida que mais as impressionou? Porquê?
I.C.: Como história de vida, a de Ruth Breitenfeld, vice-presidente da Cepsa, é particularmente marcante. Nasceu em Angola, e aos 13 anos foi para o colégio e nunca mais regressou a casa, por causa da guerra. Viveu no Brasil e hoje vive entre Lisboa e Madrid. A sua vida é fortemente marcada por três recomeços, mas prefere contar a sua história com alegria e nela não se encontra ponta de amargura. É uma mulher que canta, que tem uma gargalhada franca e fácil, e que tem uma filosofia de vida que procura melhorar o mundo um pouco cada dia.

Que lições podem os leitores retirar destes testemunhos e da vivência destas mulheres?
M.S.:Que a regra básica para ter sucesso profissional é ter um bom desempenho, ser-se competente, entregar valor e resultados à empresa. Isto envolve uma sólida formação superior, cursos de atualização e reciclagem, e preparar-se muito bem para as reuniões e apresentações. Definir objetivos e nunca desperdiçar oportunidades ou recusar convites, por muito receio que se tenha de sair da sua zona de conforto.

Escolher uma atividade ou área de que se goste muito é a única forma de conseguir persistir perante as dificuldades e obstáculos que certamente aparecerão. Aceitar que é possível conciliar a vida profissional com a pessoal, desde que não se culpabilize por não conseguir estar nos dois lados com a mesma intensidade ao mesmo tempo.

“(…) a liderança feminina é mais próxima e atenta às pessoas, mais emotiva e intuitiva. Mas cada caso é um caso”.

Depois de anos de atividade como jornalistas e de contacto com o universo empresarial, na vossa análise o que distingue a liderança feminina da masculina?
I.C.: Da nossa observação e das conversas que mantivemos com muitas empresárias e gestoras e gestores, diríamos que, tendencialmente, a liderança feminina é mais próxima e atenta às pessoas, mais emotiva e intuitiva. Mas cada caso é um caso. Para que não se perpetuem estereótipos que não aproveitam a ninguém, o melhor é que se analise cada indivíduo por si mesmo.

Quais as principais barreiras que as mulheres CEO ainda têm de enfrentar?
M.S.: Há barreiras internas: medo de aceitar desafios, falta de confiança e síndrome do impostor, falta de definição de objetivos, culpa por sentir que a família pode estar a ser prejudicada pela aposta na carreira, etc. E barreiras externas: discriminação, ainda que não consciente, na seleção e promoção; padrões masculinos do que é ser-se líder, duplo padrão de avaliação (por exemplo, para os homens um murro na mesa é ser-se afirmativo; para as mulheres é ser-se agressiva). São apenas exemplos: cada pessoa tem a sua história e sentirá as suas próprias barreiras.

Como é que os homens (de negócios) estão a lidar com esta cada vez maior ascensão das mulheres no mercado de trabalho de topo?  Desvalorizam ou respeitam?
I.C.: Pensamos que lidam com esse facto como uma realidade inescapável. Com o tempo, a atenção que é dada aos temas da diversidade e inclusão, a lei das quotas e os programas que as empresas promovem, cada vez mais mulheres irão atingir lugares de topo. Há homens mais sensíveis a este tema, mas cremos que todos respeitam o trabalho árduo, o talento e o mérito das mulheres profissionais.

“Uma sociedade em que metade da população é discriminada, não estando igualitariamente representada nos órgãos políticos e nos órgãos decisórios das empresas e outras organizações é, desde logo, uma sociedade injusta (…)”.

O facto de as mulheres ainda estarem sub-representadas em cargos de chefia muda o quê na sociedade que temos atualmente? O que poderia ser diferente se a diversidade fosse maior?
M.S.: Uma sociedade em que metade da população é discriminada, não estando igualitariamente representada nos órgãos políticos e nos órgãos decisórios das empresas e outras organizações é, desde logo, uma sociedade injusta – e isto é o mais importante que pode ser posto em evidência. É também uma sociedade que perde parte do seu talento, da sua força de trabalho, da sua iniciativa e da sua visão do mundo. Nas empresas, diversos estudos demonstram que isto conduz a menores resultados a vários níveis, desde os lucros à cotação da empresa em bolsa.

*autoras do livro “Novas Lições de Liderança de CEO Portuguesas”

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