Quando há uns anos assumi a liderança da empresa, numa altura muito crítica de falência, considerei que centralizar muitas das decisões era o caminho certo para controlar custos e inverter o sentido em que a empresa caminhava.

Dez anos depois, considero que essa centralização foi essencial para estarmos hoje numa situação claramente diferente, para melhor. Mas percebo também que dez anos num modelo de liderança centralizado, trouxeram alguns efeitos secundários:

  • Desresponsabilização: As equipas estão desresponsabilizadas, tendo-se habituado a não decidir e “remeter para cima” tudo o que exige uma decisão;
  • Lentidão na decisão: O timing para a decisão nem sempre é o mais adequado, havendo processos que poderiam andar muito mais depressa se não tivessem que “esperar” pela minha decisão;
  • Desagrado dos mais qualificados recém-chegados: Temos feito um esforço para aumentar a qualificação da empresa por via de algumas admissões de jovens bem formados, com experiências diversas, que ambicionam crescer com autonomia e se “desencantam” passado algum tempo connosco, ao se confrontarem com a centralização da decisão.

É agora tempo de mudar. O negócio tem um time to market muito exigente e as equipas têm de se tornar mais autónomas e colaborativas entre si, para sermos mais rápidos, mais eficientes, mais produtivos e, ao mesmo tempo, mais atrativos enquanto empresa para trabalhar.

Para alterar este meu estilo de liderança centralizador e conseguir que as equipas deixem de “escalar para cima”, há algumas estratégias que pretendo implementar:

  • Implementar o modelo de gestão por objetivos:
    – Definir bem os objetivos anuais ou semestrais para a empresa e depois assegurar-me que cada área tem os seus objetivos alinhados com os da empresa;
    – Ter momentos de seguimento mensais com cada área para irmos afinado algum aspeto, apoiando quando houver dificuldades em atingir algum objetivo, pondo áreas em contacto para avançarem juntas, no fundo, garantir que o todo funciona e que os objetivos estratégicos para a empresa se cumpram;
    – Dar feedback regular às equipas sobre como vejo o seu desempenho;
    – Reconhecer as equipas à medida que vão atingindo e cumprindo objetivos.
  • Redesenhar o processo de tomada de decisão, definindo uma delegação de poderes e atribuindo níveis de decisão a todos os diretores;
  • Alterar o governance da empresa, passando a ter comités com poderes de decisão e um sponsor de cada Comité. Nalguns destes Comités eu não tenho presença;
  • Alterar a minha agenda, para nela colocar temas menos operacionais do quotidiano, tais como:
    – Criar momentos para partilhar a visão, a missão, os valores e a cultura da empresa;
    – Conhecer bem os nossos principais clientes, visitando-os regularmente;
    – Fazer seguimento dos principais indicadores de acompanhamento do negócio;
    – Criar uma cultura de feedback regular, dando e pedindo feedback com frequência;
    – Estar com as equipas, indo mais às áreas, às unidades fabris e percebendo as alegrias e as “dores” de quem está no terreno;
    – Garantir e partilhar a informação de gestão de suporte às decisões;
    – Criar espaços para pensar para a frente, olhar a empresa daqui a dois, três ou quatro anos e ir tomando as decisões que hoje podem garantir o futuro.

E, sobretudo, estou consciente que vou ter de alterar o meu mindset relativamente ao líder que quero ser:

Conseguir ALINHAR e CONFIAR na equipa que tenho, CRIAR AS CONDIÇÕES para que possam trabalhar e alcançar os objetivos a que nos propomos e ESTAR AO SEU SERVIÇO, ou seja, estar sempre a perguntar-me “Em que é que eu posso ajudar?”

Tarefa fácil? Não. Mas estou certo de que é o meu maior objetivo para os próximos dois anos. “

 

Texto escrito por Isabel Viegas, em nome dos CEOs que tem conhecido nos últimos anos e que todos os dias querem ser melhores líderes.

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Sobre o autor

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Isabel Viegas é professora na Universidade Católica e Membro do Conselho Estratégico da Formação de Executivos da FCEE da mesma universidade. Foi Diretora-Coordenadora de Recursos Humanos do Grupo Santander em Portugal, de 2003 a 2016, bem como Diretora de Recursos... Ler Mais