Há uns dias almoçava sozinho numa esplanada. A cidade do Porto estava fria e solarenga. Reparei num grupo de adolescentes, todos rapazes. Eram seis, parece-me. Sentaram-se aconchegados – estava frio, de facto – à volta de uma mesa para quatro, mesmo à minha frente.

Cada um com o seu telemóvel, discutiam, ofendiam-se, praguejavam e congratulavam-se enquanto os seus polegares e os seus olhos permaneciam presos aos vidros luminosos. Deduzi que “estariam” num mesmo jogo em simultâneo, pois havia referências a pontuações e a classificações.

Embora tivessem chegado e permanecido fisicamente enquanto grupo, fiquei com a impressão que cada um estava só. O grupo era profundamente silencioso durante largos minutos. O silêncio era pontualmente interrompido por intervenções rápidas, curtas, precisas, intensas e barulhentas. Não havia respostas e por isso não era possível perceber se existia escuta.

Fiquei a pensar quão diferente era aquele tipo de interação das que eu me lembro de ter enquanto adolescente, à volta de um único ecrã que projetava um qualquer jogo que se controlava com comandos ainda ligados por fios a uma consola. Era um único aparelho que nos juntava e nos ligava, literalmente. Agora cada um tem o seu dispositivo e o exercício para detetar os fios é puramente metafísico. Reparei também quão diferente de uma conversa era a interação entre os seis adolescentes.

É frequente ouvir-se que estamos a deixar de saber conversar. A responsabilidade e a culpa são commumente atribuídas às redes sociais ou à nossa crescente dependência dos telemóveis e de ecrãs de outros tamanhos. Na verdade, os aparelhos que nos prendem cada vez mais a atenção não são aditivos por si. O que vicia é a informação que transmitem. As respostas às nossas dúvidas, inquietações e lapsos de memória surgem rápida e precisamente. O que vicia é também a sensação de ligação com outros, distantes ou próximos, que nos premeiam com ícones de polegares ou de corações. Será que estamos verdadeiramente ligados, sem fios que se vejam? Será que as ondas de rádio têm a propriedade de nos ligar?

Diz-se também que vivemos na era do indivíduo. Eu acrescentaria que vivemos na era do individualismo: a era do indivíduo individualista. Os dispositivos que nos acompanham e as redes que os alimentam levam-nos a interagir, sim, mas não a conversar. Conversa vem do latim conversatio, que significa “viver com; encontrar-se com frequência”. A palavra em latim é formada pela união de “com” (junto) e “vertere”, (virar, voltar-se para). Portanto, uma conversa implica que os que nela participam se voltem uns para os outros, em conjunto. Tal exercício exige uma atenção que não seja roubada por qualquer dispositivo e uma dedicação, um esforço, para se encontrar um outro, diferente. Eis uma definição possível de um exercício de alteridade: encontrar-se com o outro, necessariamente diferente de nós próprios.

O tipo de interação que as redes sociais estimulam e, talvez mais importante, o uso que delas fazemos, revela uma forma de troca de mensagens que não se coaduna com a definição de conversa. O pior é que mesmo fora das redes, em presença física, a mesma dinâmica parece estar a instalar-se. Um espaço onde cada interveniente aguarda a sua vez para falar não é uma real conversação. Um espaço onde o silêncio é individualmente ocupado pela preparação do que se quer dizer e não pela busca de se entender e de se responder claramente ao que nos estão a dizer não é uma conversação.

Contudo, somos treinados para dar a entender que estamos a escutar quando, na realidade, apenas estamos à espera de falar. Somos preparados para mostrar que estamos a incluir os outros quando, na verdade, estamos sós com a pretensão de entreter e de convencer com as nossas ideias. Esta postura não demonstra um interesse pela alteridade, mas revela uma incapacidade de afastamento da individualidade.

Uma conversa, para ser boa e rica, não é apenas entretenimento. Envolve esforço, dedicação e uma boa dose de abnegação. Montaigne nos seus “Ensaios” dizia que a principal razão que leva a que uma conversa seja insatisfatória é que muitas pessoas se tornam defensivas quando os seus pontos de vista são questionados. Para conversarmos, realmente, temos de nos descentrar de nós mesmos.

Estaremos nós a ser capazes de conversar nas nossas equipas, nas nossas famílias, nas nossas escolas, nas nossas relações? Tanto na vida privada como na das organizações deveríamos inventar mais momentos onde fossem proibidos os instrumentos tecnológicos (telemóveis espertos, computadores de colo, apresentações e projeções, etc.) e só fosse permitida a palavra, a boa conversa, a partilha pela palavra. Já existem até empresas, como a Amazon, que aboliram as apresentações das suas reuniões. Se fosse eu decretava esses momentos como obrigatórios. Tipo receita médica. Pois muito do que de interessante se passa, passa-se numa conversa.

Comentários

Sobre o autor

Avatar

É licenciado em Psicologia Aplicada, área de Psicologia Clínica. Exerceu funções em instituições de saúde na área da Psicologia Clínica. Trabalhou igualmente como técnico de recursos humanos passando por vários departamentos onde se destacam as atividades de criação e implementação... Ler Mais