Não são muitas as vezes ao longo da nossa carreira em que nos confrontamos com a liberdade de passar o testemunho; isto é, de pôr um ponto final a uma função que estamos a exercer simplesmente porque sentimos que chegou a hora. É no momento em que estou quando escrevo este texto.

Ao fim de 15 anos à frente da Mercer Portugal, primeiro como Market Leader e nos últimos anos como CEO e depois de um longo período de discernimento pessoal, decidi que tinha chegado o momento de passar o testemunho; isto é, de deixar que a liderança da empresa “mudasse de mãos”. Não foi uma decisão fácil do ponto de vista profissional e pessoal. Existiam múltiplas razões para me manter em funções mais tempo. Desde logo, o facto de me sentir confortável com as perspetivas da empresa. Por outro lado, a existência de uma enorme cumplicidade e união com a equipa de liderança local e internacional. Se tal não bastasse, e ainda no que às pessoas que comigo trabalharam durante estes 15 anos diz respeito, os sinais de enorme empatia e os sinais encorajadores que fui recebendo ao longo dos anos de todos e todas com quem tive o privilégio de trabalhar.

A nível dos clientes e do mercado também não recebia sinais de estar a ficar “velho ou ultrapassado” que me levassem a pensar que tinha chegado a hora de partir. Antes pelo contrário, 2020 foi um ano em que estive, mais do que nunca, próximo dos clientes e os senti próximos de mim. Apesar da situação económica decorrente da pandemia, mantiveram-se muitos dos projetos planeados e tivemos mesmo áreas em franca expansão na Mercer Portugal. A publicação do livro IMAGINE, em co-autoria com muitos desses clientes, veio solidificar relações de confiança e proximidade que são dois ingredientes fundamentais para o sucesso de um CEO.

Então, porquê “passar o testemunho” e deixar a Mercer Portugal?

Porque há momentos em que temos que parar e ouvir os sinais interiores que nos chegam. Podem ser físicos, felizmente não foi o meu caso, ou intelectivos. E que sinais são estes? No meu caso, foram de várias naturezas pelo que procurarei sistematizar em dois grandes grupos: os relacionados como o “Eu” e os ligados ao “Outro”.

Desde logo, foi crescendo dentro de mim a convicção de que estava na altura de encerrar um ciclo (o “Meu” enquanto CEO da Mercer) para dar lugar a um novo (o “Deles”). Esses sinais interiores revelaram-se de diversas formas. Desde logo, ter-me começado a confrontar com algum ceticismo perante ideias que me eram apresentadas com entusiasmo e paixão. Pela primeira vez, dei comigo a dar respostas que tanto me irritaram no passado:

– “Não, não vale a pena porque já experimentámos”;
– “Isso não vai resultar porque há 10 anos não funcionou”;
– “Não acredito”;
– “Porquê insistir nessa ideia?”

Um CEO não pode (não deve) deixar que as suas experiências passadas se cristalizem em convicções ou preconceitos que o fecham à inovação e entusiasmo dos mais novos.

Outro sinal interior forte que me impulsionou para a decisão de “passar o testemunho” está relacionado com a tranquilidade e orgulho da missão cumprida. Sei que deixo uma Mercer forte, com um futuro promissor e alicerçada em valores e numa cultura que, atrevo-me a dizer, é única em Portugal. O feedback que recebo de colegas e clientes sobre “o que somos” e “o que fazemos” na Mercer Portugal deixa-me profundamente orgulhoso do trabalho em equipa que fizemos nestes últimos anos e deu-me o impulso para dizer: está na altura de sair!

Por último, foi crescendo em mim a certeza de que não podia (não devia) permanecer mais tempo nesta função pois estaria a ser incoerente com as minhas convicções e com o que tenho defendido ao longo dos anos: a limitação de mandatos das Comissões Executivas. São muitos os exemplos que temos dos efeitos nefastos que a permanência na mesma função tem quer para o titular da mesma quer para a organização. Creio que muito do sofrimento e destruição de valor provocado a muitas organizações teriam sido evitados se os respetivos CEO tivessem tido a iniciativa de sair no momento certo. Importa sublinhar que não estou a pensar apenas em Portugal. Infelizmente, são muitos os casos em todo o Mundo.

Foram todos estes sinais e a coerência comigo próprio que me levaram a esta decisão. A lição que retiro e que gostaria de deixar aqui como testemunho é a capacidade de nos ouvirmos a nós próprios. É a capacidade de fazer uma pausa para olhar para o que fizemos. É a capacidade de perspetivar o que queremos fazer no futuro. É a capacidade de reconhecermos as nossas balizas em cada momento da nossa vida. É a capacidade de perspetivar o “Eu” no sucesso do “Outro”.

É a alegria da “Liberdade de passar o testemunho”.

É com essa alegria e com um sentimento de dever cumprido que me despeço das minhas funções de CEO da Mercer.

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Sobre o autor

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Diogo Alarcão tem feito a sua carreira essencialmente na área da Gestão e Consultoria. Foi Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Foi Diretor da Direção de Investimento Internacional do ICEP, de 1996 a 2003.... Ler Mais