Entrevista/ “A descarbonização da mobilidade urbana em 2050 é uma questão política, a tecnologia já existe”

Luís Amaral, especialista em transportes e mobilidade

Luís Amaral antecipa no seu mais recente livro as maiores transformações na forma como o ser humano se desloca, desde que o automóvel foi inventado. Em entrevista ao Link To Leaders, o autor fala sobre o impacto das novas tecnologias na deslocação das pessoas e bens, e sobre os grandes desafios para as próximas décadas, porque acredita que “estamos na iminência de uma revolução”.

“Os países poderiam estar mais avançados na penetração dos veículos elétricos, se tivessem adotado as políticas agressivas que a Noruega adotou. Mas essas políticas implicaram perda de receitas e tiveram um elevado custo de oportunidade”, afirmou Luís Amaral.

O especialista em transportes e mobilidade e também autor do livro “Mobilidade no Futuro” revela que “quando se fala de novas tecnologias na mobilidade, fala-se de descarbonização, digitalização e condução autónoma”. E defende que existe uma profunda interligação entre a mobilidade e a sociedade, uma relação “que muitas pessoas não têm consciência”.

Como avalia o impacto das novas tecnologias na forma como as pessoas se deslocam nos dias de hoje?
Quando se fala de novas tecnologias na mobilidade, fala-se de descarbonização, digitalização e condução autónoma. A descarbonização é um processo em curso, os veículos elétricos estão a fazer o seu caminho na mobilidade urbana, mas fundamentalmente não altera a forma como as pessoas se deslocam, é apenas uma alteração de fonte de energia que faz mover os veículos. Mas tem implicações indiretas favoráveis, na medida em que a ausência de emissões dos veículos torna os modos ativos, a bicicleta e o andar a pé, mais atrativos.

Já a digitalização, a Internet das Coisas, veio alterar a forma como as pessoas acedem à mobilidade. Não há grande distinção na forma como as pessoas se deslocam num serviço tipo Uber em relação a um táxi, o que muda é a forma como se acede ao serviço, o acesso é digitalizado, assim como o acompanhamento da deslocação e o pagamento. Veio também alterar a forma como as pessoas gerem as suas deslocações, possibilitou criar sistemas de inteligência coletiva, como, por exemplo, aquela que é baseada no movimento de viaturas nas estradas. Tal permite a aplicações como o Waze ou o Google Maps sugerir percursos para evitar congestionamentos e chegar mais depressa ao destino. O efeito da digitalização sente-se também no transporte público, veio possibilitar a coordenação entre diferentes modos e serviços e potenciar as deslocações multimodais, e levou ao surgimento de plataformas agregadoras que exploram o conceito de Mobility as a Service. Mas a digitalização veio também alterar a forma como muitas deslocações são efetuadas, com a disponibilização de serviços partilhados, promovendo uma maior utilização da bicicleta e de outros veículos.

O impacto da condução autónoma ainda é muito limitado. Alguns modelos de automóveis incorporam desde há alguns anos algumas funcionalidades importadas desta tecnologia, e incrementam o nível de conforto e segurança para os condutores para determinadas condições rodoviárias.

Que mensagens quer passar no livro Mobilidade no Futuro?
Uma mensagem importante tem a ver com a condução autónoma e o futuro, que ocupa uma grande parte do livro. Grandes transformações ocorrerão quando a mobilidade autónoma fizer parte do nosso dia a dia. O ecossistema da mobilidade, com os modelos de negócio que hoje existem, com fronteiras bem definidas, será profundamente afetado. Essas fronteiras tornar-se-ão difusas ou desaparecerão mesmo, e surgirão novos modelos de negócio. As alterações não se limitarão à mobilidade, incidirão na sociedade em geral. Como explico no livro, os veículos autónomos poderão representar para os artigos físicos aquilo que a fibra ótica representou para o conteúdo digital.

Mas, a principal mensagem que pretendi passar para o leitor é a profunda interligação que existe entre a mobilidade e a sociedade, muitas pessoas não têm consciência dessa relação. Foi isso que me motivou a aprofundar no livro o impacto na sociedade de tecnologias que também impactarão a mobilidade, como é o caso da inteligência artificial.

“É importante que os países assegurem que a eletricidade que vai alimentar a mobilidade urbana provém de fontes renováveis, caso contrário resolvemos apenas metade da questão”.

Um estudo do ITF – International Transport Forum afirma que a Europa não está no caminho certo para alcançar os objetivos do pacote Green Deal e que apenas com políticas mais ambiciosas será possível a descarbonização da mobilidade urbana em 2050. O que é preciso fazer?
Na realidade, o problema não reside tanto na mobilidade urbana, mas sim na mobilidade não urbana. Como refere o estudo, as deslocações não urbanas representarão entre 87% e 93%, conforme o cenário, do total das emissões de CO2 da mobilidade em geral em 2050, sendo que o transporte de passageiros não urbanos contribuirá com 64% a 69%, enquanto o transporte de mercadorias não urbano 23% a 24%. Isto reflete que existe dificuldade em encontrar soluções viáveis até 2050 para a descarbonização da aviação.

A descarbonização da mobilidade urbana em 2050 é uma questão política – a tecnologia já existe. Este processo tem a ver com o grau de aceitabilidade das medidas que devem ser tomadas e que não podem ser tomadas de um dia para o outro. É importante o anúncio de medidas com antecedência, e vem nesse sentido a recente decisão dos ministros do ambiente dos países da UE em definir 2035 como o ano que marca o fim da comercialização de carros e carrinhas a gasolina e a gasóleo na EU. Entretanto, as cidades deverão reforçar as suas políticas de emissão zero, alargando progressivamente as respetivas zonas, e promover soluções de mobilidade partilhada.

A consciencialização da sociedade é uma parte muito importante deste processo, porque a mobilidade resulta em boa medida de decisões individuais. As gerações mais novas são mais sensíveis a este problema, e à medida que estas forem subindo na pirâmide etária, a consciência coletiva de que é preciso mudar certamente crescerá.

É importante que os países assegurem que a eletricidade que vai alimentar a mobilidade urbana provém de fontes renováveis, caso contrário resolvemos apenas metade da questão. É verdade que retiramos as emissões de CO2 das cidades, mas se essa energia for produzida a partir de combustíveis fósseis, no global as emissões mantêm-se.

As políticas de mobilidade urbana têm posto o automóvel como alvo a erradicar do centro das cidades, mas com o advento do carro elétrico e de outras formas de mobilidade suave, o transporte individual passa de novo a ser bem-vindo?
Não creio. As cidades aprenderam com os erros do passado e o conceito de walkability está na base da ação de muitas cidades hoje em dia. É verdade que a descarbonização resolve um grave problema de saúde pública nas cidades, mas um carro é uma carro, seja movido a combustível fóssil ou a eletricidade, ocupa o mesmo espaço urbano, cria a mesma barreira. Hoje em dia as grandes cidades têm a consciência que a sua competitividade, seja para atrair investimento, eventos ou turistas, é baseada nas experiências que oferece às pessoas na vivência e no usufruto do espaço urbano. O transporte individual que é bem-vindo é aquele que suporta modos ativos e ocupa pouco espaço, como a bicicleta.

Portugal está preparado, quer a nível de infraestruturas quer de políticas de planeamento urbano, para a massificação do carro elétrico?
Nenhum país está ainda preparado, excetuando talvez a Noruega, onde a massificação já está em curso. Os países poderiam estar mais avançados na penetração dos veículos elétricos, se tivessem adotado as políticas agressivas que a Noruega adotou. Mas essas políticas implicaram perda de receitas e tiveram um elevado custo de oportunidade. As políticas de planeamento urbano devem incidir fortemente na criação de condições para os carregamentos ocorrerem nos lares, quando tal seja possível, porque nos lares o carregamento tem um menor custo e, assim, aumenta a proposta de valor dos veículos elétricos para o consumidor.

Eu acredito que as tanto os investimentos em infraestruturas de carregamento como na rede de distribuição para suportar o aumento de potência local acompanharão a massificação dos veículos elétricos, havendo mercado, há investimento. Existirão sempre problemas, um processo disruptivo destes não ocorre sem problemas. Um deles é saber quem vai pagar o investimento necessário na rede de distribuição de energia. Será apenas o consumidor de energia para carregamento, ou também o consumidor nos lares? É também preciso que o mercado nas infraestruturas de carregamento público funcione corretamente, que o acesso ao mercado seja facilitado, para evitar apropriações indevidas de rendas em determinados pontos da cadeia de valor, e que prejudique o preço final a cobrar nos carregamentos.

“O que se tem verificado é que, se a pandemia num determinado momento levou as pessoas a afastarem-se no transporte público, com a crise energética, as pessoas estão a regressar ao transporte público”.

Depois da pandemia, uma crise energética. Quais os impactos principais que antevê na mobilidade urbana em Portugal?
O elevado preço dos combustíveis é potenciador de uma transferência modal do carro próprio para o transporte público e para modos ativos. O que se tem verificado é que, se a pandemia num determinado momento levou as pessoas a afastarem-se no transporte público, com a crise energética, as pessoas estão a regressar ao transporte público.

O desafio deve ser sempre tornar o transporte público mais atrativo, utilizando as tecnologias que temos ao nosso dispor. Há ainda muito caminho a percorrer na coordenação dos modos e serviços de transporte público. A crise energética poderá levar mais pessoas a assumirem a modalidade de teletrabalho, quando este for possível, uma tendência que foi acentuada com a pandemia, e assim evitar custos de mobilidade.

Quais os desafios que se colocam à mobilidade no futuro?
Diria que o principal desafio é mesmo a descarbonização da mobilidade. A mobilidade urbana está a fazer o seu caminho, é agora necessário encontrar soluções viáveis de descarbonização para a aviação, e também para o transporte de mercadorias de longa distância.

Igualmente importante é aumentar a eficiência do sistema de mobilidade no seu todo. A baixa taxa de ocupação média nos veículos privados é uma fonte de ineficiência, e é necessário estimular a partilha de deslocações, seja com uma oferta mais agressiva de serviços partilhados, seja com o estímulo do carpooling.

Dito isto, com a chegada dos veículos autónomos no futuro, é importante assegurar que estes não venham estimular uma maior utilização do automóvel em modo privado, mas sim a partilha de deslocações.

As soluções de mobilidade vertical (drones) oferecem aplicações com potencial para a distribuição urbana, bem como para o transporte de pessoas (menos explorada), mas a ligação destes modos aéreos de baixa altitude com a infraestrutura terrestre ainda não é eficaz. O que é preciso para explorar estas soluções?
Eu pessoalmente não acredito que os chamados VTOL [ Vertical Take-Off and Landing, que significa “Decolagem e Aterragem Vertical”] constituirão uma alternativa expressiva para o transporte de pessoas em contexto urbano. Tendo a comparar esta solução ao Segway, quando surgiu muitos acreditavam que poderia ser disruptivo em termos de mobilidade urbana. Mas, tal como o Segway, os VTOL poderão ter uma procura turística ou então poderão vingar em cidades com características muito específicas. Veja-se o caso dos helicópteros em São Paulo, no Brasil. Se viermos a precisar de veículos aéreos para a mobilidade urbana, isso representará o total falhanço das soluções terrestres. Acredito, no entanto, que os drones poderão ter um importante papel na entrega de bens em meio não urbano.

Qual o papel que as start-ups têm dado à área da mobilidade? As empresas estão a saber aproveitar o potencial de inovação deste tipo de empresas nesta área?
O ecossistema da mobilidade é demasiado regulado em Portugal, por um lado, e o mercado é muito pequeno, por outro, para que start-ups portuguesas nesta área com expressão internacional possam surgir. Mas existem sempre nichos onde start-ups podem inovar. Assistimos a algumas grandes empresas nacionais ligadas à mobilidade a atuarem como aceleradores de start-ups. Fora de Portugal, é o que sabemos, as start-ups que se tornam gigantes têm mudado o panorama da mobilidade. O caso mais paradigmático é o da Uber. Mas o ciclo económico em que estamos a entrar, caracterizado por elevada inflação e subida das taxas de juro não é uma boa notícia para as start-ups.

“A digitalização poderá dispensar a informação visual e tornará obsoletos os objetos que atualmente são parte integrante das cidades e que têm essa função. Estamos a falar de semáforos, outra sinalização rodoviária (…)”.

Como perspetiva as cidades do futuro?
Irão ocorrer muitas transformações, e eu tento dar um panorama algo detalhado de quais podem ser essas transformações no livro. As cidades do futuro serão muito mais digitalizadas do que acontece hoje. Com inteligência coletiva, as smart cities serão uma realidade em toda a sua extensão. A digitalização poderá dispensar a informação visual e tornará obsoletos os objetos que atualmente são parte integrante das cidades e que têm essa função. Estamos a falar de semáforos, outra sinalização rodoviária, informação de orientação, etc.

Tecnologias como a realidade virtual, a realidade aumentada e a condução autónoma levarão o comércio online a florescer, ao mesmo tempo que se verificará o declínio das lojas físicas. Poderemos chegar a um ponto no futuro em que os grandes centros comerciais que tiveram o seu apogeu nas últimas décadas já não têm razão para existir. Ao mesmo tempo, haverá uma grande procura por grandes armazéns à entrada das cidades e por pequenos armazéns no centro para apoiar a atividade do comércio online. Isto provocará alterações profundas no planeamento urbano das cidades, no uso dos solos, que terão de se adaptar a esta nova realidade.

E se conseguirmos que os veículos autónomos, quando surgirem em meio urbano, venham a potenciar a utilização de serviços partilhados em grande escala, em detrimento do carro próprio, as cidades poderão libertar uma área considerável de espaço rodoviário, tanto de circulação como de estacionamento, para outros modos ou outos usos.

Respostas rápidas:
O maior risco: Deixar que outros pensem por nós.
O maior erro: Exigir mais do que eu próprio e outras pessoas conseguem dar.
A maior lição: Para qualquer assunto, colocar sempre seis questões: o quê, quem, quando, onde, como, e sobretudo porquê.
A maior conquista: As minhas filhas.

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