Entrevista/ “Estados Unidos e Brasil são dois mercados onde queremos investir”

Inês Amaral, marketing manager da Uniplaces em Portugal

A Uniplaces já recebeu mais de 30 milhões de euros em investimento. Apesar de não ter atingido o ponto de equilíbrio económico, uma das start-ups mais conhecidas do ecossistema nacional está atualmente a consolidar os mercados onde está presente.

Nesta entrevista ao Link to Leaders, Inês Amaral, marketing manager da empresa em Portugal, dá-nos um insight sobre a atuação da start-up de alojamento universitário, as maiores dificuldades e os planos para o futuro.

Visto que a Uniplaces foi das primeiras start-ups a entrar nesta nova onde de empreendedorismo em Portugal, como é que veem o ecossistema atualmente?
Hoje o ecossistema é bastante diferente de como se encontrava há cinco anos, que foi quando a Uniplaces começou. Prova disso é, por exemplo, as taxas de desemprego do país terem passado de 16% para 8%, no mês de março [de 2018]. Isto não só por causa da crescente visibilidade que o empreendedorismo tem tido em Portugal. Antigamente, se calhar, era um termo que muita pouca gente conhecia. O termo start-up nem sequer era muito falado, mas hoje em dia já há cadeiras da faculdade que se focam no empreendedorismo, os média estão todos “em cima” das principais start-ups do país, há muitos apoios dos governos a este tipo de projetos, eventos internacionais que trazem muita visibilidade para Portugal a nível de possíveis investidores que possam estar interessados no país. O caso da Web Summit, por exemplo, que se estima que tenha trazido para Portugal cerca de 175 milhões de euros. Tudo isso faz com que se comecem a criar estas redes que favorecem e possibilitam, cada vez mais, a criação de start-ups em Portugal e que trazem cada vez mais investidores estrangeiros para o país.

Quais são as maiores dificuldades da Uniplaces atualmente?
A Uniplaces é um marketplace e para entrar num mercado novo é sempre muito complicado. Isto porque no marketplace é preciso ganhar uma massa crítica de ambos os lados, não se está a trabalhar só a procura ou só a oferta. Quanto mais oferta houver, mais procura vai haver e vice-versa. Entrar num novo mercado é sempre um desafio muito grande para nós. Portanto, a nossa prioridade, neste momento, passa por melhorar o nosso produto, criarmos o melhor produto possível para os nossos utilizadores e consolidar os mercados onde estamos atualmente, consolidando essa massa crítica do lado da oferta e da procura, de forma a ganharmos dinâmica de marketplace.

Quem é o vosso maior público-alvo? São os portugueses que vão para fora, os estrangeiros que vêm para Portugal…
Nós já estamos numa série de países. Estamos em Portugal, Espanha e Itália, que são os nossos focos. Depois estamos também em França e no Reino Unido. Portanto, o nosso target são, sem dúvida, estudantes internacionais que venham estudar para qualquer um destes países, que estejam à procura de casa.

Dizem ter mais de 35 mil quartos verificados. Como é que fazem a verificação destes alojamentos?
Temos fotógrafos que trabalham connosco e que têm uma série de guidelines que têm de verificar quando chegam aos quartos. Para além de tirarem estas fotografias, fazem a verificação a nível da humidade, por exemplo, se tem atoalhados disponíveis, se tem talheres, etc. Qualquer tipo de informação extra é verificada pelos nossos fotógrafos.

Pergunto isto porque algumas das críticas passam por não haver visitas à priori e o facto de as fotografias serem enganosas, de não representam a realidade. A Spotahome, a start-up homóloga da Uniplaces em Espanha, verifica as casas através de vídeo, de forma a aumentar a confiança junto dos seus utilizadores. Consideram implementar esta estratégia?
Claro que sim. Nós começámos recentemente, daí que nem todas as propriedades que estão verificadas e que têm as fotografias tenham vídeos. Mas hoje em dia, quando um fotógrafo vai a uma casa, para além das fotografias, faz alguns vídeos. Se for ao nosso site já encontra muitos com vídeos. Em relação ao facto de a oferta ser diferente, nem todas as propriedades estão verificadas e as que estão têm lá o stamp com essa indicação e, sem dúvida, que são a prioridade dos nossos estudantes, embora nem todos consigam ficar com uma dessas casas. Ainda assim, temos uma garantia de 24 horas depois do estudante chegar à casa. O objetivo é verificar – durante um dia – se está tudo de acordo com o anúncio ou se há alguma coisa que não corresponda àquilo que nós promovemos. Caso haja, fazemos o refund total do valor, prestamos um serviço personalizado na procura da próxima casa e oferecemos um promo code. Como é óbvio vamos ter muito mais cuidado para que a experiência dele, que já foi má inicialmente, possa vir a melhorar. [Em relação a não haver visitas à priori prende-se com o facto de] 80% dos estudantes que reservam connosco são estudantes de outros países. Portanto, o facto de não haver visitas acaba por ser uma mais-valia para eles porque não competem com as pessoas que já cá estão. Nós ficamos com as características do estudante e quando o senhorio recebe o pedido tem uma série de características que pode, ou não, aprovar, como a nacionalidade, a ocupação, a idade, etc. Portanto, até acabamos por considerar que o facto de não haver visitas é uma mais-valia para o senhorio porque lhe poupa muito tempo e para o estudante, que pode reservar a casa antes de chegar ao país.

Já receberam mais de 30 milhões de euros em investimentos. Onde é que utilizaram este dinheiro? Capital humano, custos de operação…?
Neste momento temos dois focos. O nosso grande foco é construir um produto que seja o mais intuitivo possível, tendo o mínimo de bugs. Apesar de tudo ainda somos uma start-up e o nosso produto está constantemente a ser melhorado. Temos cerca de 150 colaboradores e, destes, 40 fazem parte da equipa de engenharia. Sem dúvida, capital humano, sem dúvida desenvolvimento de produto. Temo-nos focado muito nesse aspeto. Estamos agora a trabalhar o lado mobile. Ainda não tínhamos uma aplicação, mas é algo que temos vindo a trabalhar bastante e esperamos que haja novidades em breve. Para além disso, consolidação dos mercados onde nos encontramos: na angariação de senhorios, na comunicação para os estudantes, a nível de parcerias, etc.

Já atingiram o ponto de equilíbrio económico?
Não.

Se pudessem recuar cinco anos e começar isto tudo de novo, o que é que teriam feito diferente?
Algumas coisas que nós experimentámos e que não funcionaram. Por exemplo, inicialmente, a Uniplaces começou por se expandir para uma série de mercados. Começámos em todo o lado, em todas as cidades e apercebemo-nos do problema que lhe falei inicialmente – desta questão de sermos um marketplace e de termos de trabalhar de ambos os lados -, que não é viável estarmos em muitos sítios ao mesmo tempo quando acabámos de entrar no mercado. Foi algo que começámos, percebemos que não era a melhor estratégia a seguir e voltámos atrás e focámo-nos nos mercados que achámos que seriam mais interessantes de trabalhar. Para nós, um mercado interessante é onde há uma grande população estudantil deslocada e também onde ainda não haja uma grande profissionalização do setor, ou seja, onde ainda haja falta de informação entre a procura e a oferta.

Quantas pessoas é que trabalham na Uniplaces, disse-me 150 certo?
Depende muito, atualmente são 150, mas no verão já ultrapassámos os 200 colaboradores.

Com isto, como é que mantêm a cultura da empresa?
Eu diria que, inicialmente, quando fazem o recrutamento, já há uma série de questões de culture fit [perguntas direccionadas aos candidatos com o objetivo de perceber se as pessoas se enquadram na cultura da empresa].  

Estão a pensar manter-se na Europa?
Por agora sim, o nosso foco este ano é consolidarmos os mercados onde estamos. A partir do momento em que considerarmos que temos estes mercados consolidados queremos expandir para o resto da Europa. Depois, como é óbvio, a longo prazo, acho que Estados Unidos e Brasil são, sem dúvida, dois grandes mercados onde gostaríamos de investir, mas começar pequeninos e crescer depois.

Pensam em receber mais investimentos?
Claro que sim. 

Uma aquisição ou tornarem-se numa empresa pública, passa pelos vossos planos?
Sim. Não para já, mas sim.

A aquisição ou o IPO?
IPO.

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