“Neste momento o mercado “grita” talento, sobretudo a nível tecnológico, e é necessário preparar os futuros profissionais tornando-os mais capazes e aptos a enfrentar os desafios do mercado real”. A declaração é de Maria João Carvalho, presidente da JUNITEC, que não hesita em afirmar que as universidades são um local de onde saem ideias com grande potencial e onde se encontram pessoas com garra, audácia e vigor, caraterísticas imprescindíveis para lançar uma start-up.

Criada em 1990 por um grupo de jovens empreendedores do Instituto Superior Técnico de Lisboa, a JUNITEC – Júnior Empresas do Instituto Superior Técnico de Lisboa, tem mostrado ao longo dos anos o impacto positivo na sociedade ao aproximar os mundos académico e empresarial.

Através do projeto JUNITEC INNOVATION HUB, criado há quatro anos, já lançou sete start-ups, uma das quais já conquistou um investimento pree-seed de 150 mil euros, e este ano ano prepara o lançamento de mais três.

Em entrevista ao Link To Leaders, Maria João Carvalho, presidente da JUNITEC, lembrou que o contacto com o mundo empresarial é um elemento fulcral para garantir que os alunos têm contacto com o panorama atual e conseguem explorar as suas competências num cenário real, e que a criação de start-ups promissoras é extremamente atrativa para os investidores. Para isso é preciso que as ideias ganhem e sejam conhecidas.

No dia 20 de junho, a JUNITEC abre as portas ao público em geral, convidando incubadoras, ventures capitalists e investidores a participarem no evento Unicorn Day.

Qual a importância, e o impacto, que estruturas, como a JUNITEC podem ter na ligação entre o mundo académico e empresarial?
As estruturas como a JUNITEC são essenciais porque dão oportunidade aos estudantes de se envolverem e alinharem com realidades corporativas reais. Contactam com problemas e trabalham projetos reais, ficam a conhecer metodologias e processos de empresas reais e tudo isto enquanto ainda estão a estudar.

De facto, em Portugal, a formação superior tem uma componente teórica muito significativa e é muito centrada num contexto académico muito específico, por isso, o trabalho e a experiência que os estudantes adquirem ao integrarem estruturas como a nossa permite-lhes complementar, de uma forma mais abrangente, a sua formação.

Para além de tudo isto, neste momento o mercado “grita” talento, sobretudo a nível tecnológico, e é necessário preparar os futuros profissionais tornando-os mais capazes e aptos a enfrentar os desafios do mercado real.  E são estruturas como a nossa que o permitem fazer e de forma mais acelerada.

“(…) há aqueles que nos veem como uma oportunidade de crescer e desenvolver competências (técnicas e sociais) que os tornam mais atrativos no mercado profissional (…)”.

Como é que os alunos do IST olham para a JUNITEC? Uma porta para o mundo profissional?
Na minha opinião existem duas formas distintas de os alunos do IST olharem para a JUNITEC. Se por um lado há aqueles que nos veem como uma oportunidade de crescer e desenvolver competências (técnicas e sociais) que os tornam mais atrativos no mercado profissional, por outro lado há os alunos que encaram a JUNITEC como uma “porta de entrada” no mundo real (uma vez que damos oportunidade aos membros de contactar diretamente com empresas e profissionais que já atuam no mercado real).

Depois, e isso penso que é transversal a todos os que ambicionam entrar na JUNITEC, somos vistos como uma “ferramenta” que ajuda a conhecer melhor o perfil de cada um e, muitas vezes, potencia a identificação do percurso que faz mais sentido seguirem.

Criaram o JUNITEC INNOVATION HUB há quatro anos. Quantas start-ups já nasceram na sequência deste projeto?
Desde o seu lançamento, em 2018, o Innovation Hub já lançou sete start-ups, tendo inclusivamente uma delas já conquistado um investimento pree-seed de 150 mil euros. Este ano estamos a preparar o lançamento de mais três start-ups: uma na área de blockchain aplicada à indústria dos videojogos, outra na área de inteligência artificial aplicada à medicina veterinária e uma terceira na área de manutenção preditiva de moldes.

Neste momento posso dizer que todos estes projetos estão a ter um percurso notável: estão todos totalmente incubados por entidades externas e já conseguiram atingir investimentos superiores a 15 mil euros.

Em junho vão organizar o UNICORN DAY, um evento de empreendedorismo, aberto ao público, onde as start-ups da JUNITEC vão apresentar os seus projetos a incubadores, VC e investidores. Que expetativas têm para o evento?
O Unicorn Day é uma das grandes apostas da JUNITEC este ano. Estamos empenhados em apoiar projetos de empreendedorismo impactantes e queremos torná-los visíveis. O trabalho que é desenvolvido pelos membros da JUNITEC é de grande qualidade e tem de “sair” do núcleo restrito do IST, por isso, abrimos as portas do Unicorn Day ao público em geral e convidamos a participar no evento incubadores, ventures [capitalists]e investidores.

O evento, que terá lugar no próximo dia 20 de junho conta com o apoio da Lispolis, onde decorrerá, e tem já confirmada a representação da Indico Capital, uma das principais venture capitals portuguesas, e de Gonçalo Perdigão, membro da Board of Advisors do MIT Technology Review, como convidado.

Estamos certos que, com esta iniciativa, vamos conseguir não só impulsionar as start-ups JUNITEC, mas também, e sobretudo, promover a partilha de experiências com uma comunidade mais alargada e com experiência comprovada no mundo do empreendedorismo português.

“No mundo académico “nascem” ideias realmente inovadoras”.

É importante aproximar os investidores do mundo académico? Porquê?
No mundo académico “nascem” ideias realmente inovadoras. Seja em teses de doutoramento e mestrado, seja por iniciativa própria dos estudantes. Mas muitas dessas ideias acabam por nunca ganhar vida porque não existiu oportunidade de serem conhecidas. Se os investidores tiverem oportunidade de tomar contacto com esta realidade e conhecer os projetos que se vão gerando no núcleo académico serão, certamente, potenciadores de inúmeros projetos de empreendedorismo que passam para o mercado real.

Se pensarmos que hoje em dia há um crescente interesse pelo empreendedorismo e que é enorme o potencial e flexibilidade dos estudantes, facilmente compreendemos como a criação de start-ups promissoras é extremamente atrativa para os investidores.

“O nosso foco empreendedor é promover o desenvolvimento de projetos que usem a tecnologia para dar resposta aos problemas, falhas e oportunidades do mercado”.

Numa altura em que a transformação digital está na ordem do dia, em que a inovação tecnológica não pára, e tendo em conta o histórico de prestígio do Instituto Superior Técnico, qual o foco empreendedor da JUNITEC?
O nosso foco empreendedor é promover o desenvolvimento de projetos que usem a tecnologia para dar resposta aos problemas, falhas e oportunidades do mercado. Enquanto instituição procuramos atrair e direcionar estudantes com potencial fornecendo-lhes todas as ferramentas necessárias para que possam rentabilizar o seu talento. A framework que desenvolvemos está preparada para os guiar no projeto de criação de uma start-up e dar suporte nas áreas que são menos acessíveis e intuitivas para um estudante universitário do IST.

Podemos dizer que as melhores ideias tecnológicas saem das universidades?
Não sei se podemos dizer que as melhores ideias tecnológicas vêm das universidades, mas com certeza que podemos afirmar que é um local de onde saem ideias com grande potencial.

Nas universidades, para além de ideias inovadoras, encontramos pessoas com garra, audácia e vigor que são caraterísticas imprescindíveis para levar a cabo a missão hercúlea que é lançar uma start-up. Sendo um processo muito enriquecedor, a criação de uma start-up exige muita disponibilidade e algum risco.

“O nosso trabalho tem sido feito no sentido de criar oportunidades aos jovens estudantes que demonstrem que é possível empreender, de uma forma simples e natural”.

Globalmente, o que é que a JUNITEC tem feito pelo empreendedorismo nacional?
O nosso trabalho tem sido feito no sentido de criar oportunidades aos jovens estudantes que demonstrem que é possível empreender, de uma forma simples e natural. Nesse sentido, criámos estruturas como o Innovation Hub e eventos como o TecStorm (que permite que qualquer jovem a nível nacional desenvolva a sua ideia de projeto com apoio de mentores técnicos e estratégicos).

Na verdade, o maior contributo da JUNITEC é o da formação e da consciencialização dos estudantes que, mais tarde, se reflete nos papéis relevantes que desempenham nas suas profissões e nos negócios empreendedores que criam (nasçam eles durante ou após a sua estadia na JUNITEC).

Passados 32 anos desde a sua fundação, quais os projetos mais emblemáticos que saíram da JUNITEC?
Vou destacar apenas três que menciono sem qualquer ordem de importância. A MegaMedia foi um dos primeiros projetos na nossa história e mostra como, desde cedo, nos fizemos guiar pelos nossos valores atuais: Inovar, Aprender, Empreender. Esta foi uma empresa criada por um dos fundadores da JUNITEC, em 1992, que começou por desenvolver soluções de multimedia interativas, mas evoluiu para serviços de e-business acabando por ser vendida por 10 milhões de euros.

A Clynx – uma das start-ups lançadas pelo Innovation Hub da JUNITEC – que oferece uma solução inovadora para revolucionar a fisioterapia com videojogos interativos e que já arrecadou um investimento superior a 150 mil euros e muitos prémios.

Por último, refiro um dos projetos mais recentes (CeiiA 2.0) e que foi considerado projeto do ano e o finalista do prémio de projeto mais impactante da Europa (no contexto dos Excellence Awards). Trata-se de uma pulseira inteligente capaz de monitorizar os sinais vitais dos pacientes, em ambiente hospitalar e melhorar a gestão das salas de espera.

Há quem rotule a JUNITEC como uma “fábrica de líderes” pelo facto de ter propiciado o “nascimento” de muitos profissionais que hoje estão a dar cartas no empreendedorismo. Esse é o caminho que querem continuar a seguir?
Sem dúvida que sim e temos muito orgulho nas várias conquistas que temos conseguido nas mais diversas áreas ao longo da nossa história. Mas a missão da JUNITEC é, sempre foi e continua a ser, formar, empoderar e investir no desenvolvimento dos seus membros. Na ordem de trabalhos de cada mandato, o ponto número um é sempre criar novas e melhores condições e oportunidades para os estudantes que dão vida à nossa Júnior Empresa.

“A nossa missão mantém-se constante: potenciar os estudantes universitários através da tecnologia e empreendedorismo”.

O mercado mudou muito desde que a JUNITEC nasceu. Como se têm reinventado?
O mundo da tecnologia evolui a um ritmo extremamente acelerado e para acompanharmos este ritmo e nos mantermos na vanguarda tecnológica temos adaptado continuamente o nosso trabalho e estrutura para fomentar a inovação. Esta adaptação acaba por se traduzir na análise continua do mercado (que nos permite colmatar lacunas existentes) e na constante revisão dos serviços que disponibilizamos (que introduzem sempre que possível as tecnologias mais recentes).

O Innovation Hub é um excelente exemplo desta adaptação: foi com a criação desta nova estrutura que respondemos à necessidade dos alunos do IST de terem apoio para transformam as suas ideias em start-ups de sucesso. Contudo, a nossa missão mantém-se constante: potenciar os estudantes universitários através da tecnologia e empreendedorismo.

E quais são os objetivos estratégicos para os próximos anos?
Nos últimos anos tivemos um crescimento muito relevante a todos os níveis: membros, projetos e também investimento. Após este período de grande desenvolvimento, o nosso principal foco é garantir que a estrutura interna se mantem sólida para sustentar não só o crescimento que já aconteceu, mas também o crescimento futuro de forma a exponenciar (ainda mais) a qualidade da nossa atividade.

Os objetivos para o futuro passam pela realização de projetos tecnológicos cada vez mais complexos, pelo aumento da proposta de valor do Innovation Hub e pela consolidação do TecStorm enquanto um dos principais eventos de empreendedorismo universitário.

“(…) grande parte dos nossos membros têm a sua primeira experiência num contexto real, apresentam-se como pessoas “não formatadas”, isentas de “vícios profissionais” (…)”.

Sendo que a JUNITEC é formada por jovens estudantes, muitas vezes ainda sem a perceção real do mundo laboral e empresarial, que desafios enfrentam para conseguir implementar os seus projetos?
A falta de experiência dos nossos membros, embora seja um desafio, transforma-se também num ponto forte. Sendo através da JUNITEC que grande parte dos nossos membros têm a sua primeira experiência num contexto real, apresentam-se como pessoas “não formatadas”, isentas de “vícios profissionais” e com uma enorme capacidade de adaptação e absorção de conhecimento.

Depois, e para garantirmos o sucesso do trabalho de cada membro, disponibilizamos todas as ferramentas necessárias para a concretização dos projetos (não só formação para aquisição de competências como também estruturas de apoio e supervisão de qualidade).

“Não me restam dúvidas nenhumas de que a JUNITEC é uma excelente preparação para o mundo do trabalho”.

Enquanto jovem estudante do 5.º ano do Curso de Engenharia e Gestão Industrial do IST, e presidente da JUNITEC, como consegue conciliar a vida académica com o início da atividade empreendedora? 
Devido à dimensão atual da JUNITEC e à complexidade dos projetos que desenvolvemos, há um grande compromisso e responsabilidade. Todos os membros assumem tarefas e responsabilidades que, sendo próprias de cada um, são também sempre partilhadas por todos.

Durante a minha permanência na JUNITEC tive oportunidades únicas: definir estratégias para uma organização com mais de 70 membros, contactar parceiros de renome, falar publicamente para centenas de pessoas… Vivências que são simultaneamente partilhadas por todos os membros, mas também muito próprias e personalizadas às ambições de cada um. Não existem muitos lugares onde seja possível ter uma experiência tão real, desafiante e, ao mesmo tempo, tão recompensadora.

Chegando ao fim do meu percurso universitário não me restam dúvidas nenhumas de que a JUNITEC é uma excelente preparação para o mundo do trabalho.

Que conselhos daria às instituições universitárias sobre a importância de fazer a ponte entre o mundo académico e empresarial, a bem do futuro profissional dos seus alunos?
Ao longo do seu percurso académico os estudantes aprendem os conceitos básicos nas áreas onde irão trabalhar no futuro, mas acima de tudo aprendem a aprender. O contacto com o mundo empresarial surge então como um elemento fulcral para garantir que os alunos têm contacto com o panorama atual e conseguem explorar as suas competências num cenário real. As instituições universitárias devem então fomentar este contacto e potenciar que ao longo do seu percurso académico os alunos tenham experiências junto de empresas.

Este ano, a JUNITEC foi a grande vencedora dos jeniAL Awards e ao longo dos anos tem somado inúmera distinções. O que significa este reconhecimento para o projeto e para quem o integra?
Os jeniAL awards significam muito para os membros da JUNITEC e do movimento Júnior em geral. Acima de tudo, eles representam a validação externa do trabalho que fazemos e o reconhecimento da sua qualidade e excelência.

Este ano, em particular, o facto de a JUNITEC receber todas as quatro distinções – Júnior Empresa Mais Inovadora , Júnior Empresa Mais Socialmente Responsável,  Projeto do Ano e Júnior Empresa do Ano – foi um feito inédito no contexto do movimento júnior empresário em Portugal. Um motivo de grande orgulho e a garantia que ao fim de três anos de crescimento exponencial continuamos no caminho certo.

*JUNITEC- Junior Empresas do Instituto Superior Técnico

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