Opinião

Da problemática das diferentes «gerações»

João Sevilhano, Estratégia & Inovação na Way Beyond
Foto: João Sevilhano

Há quem defenda que o conceito de «geração» é como aquelas pontes que vemos nos filmes de arquivo[1], que ondulam e torcem empurradas pelo vento, fazendo cimento e ferro mover-se como plasticina. Os filmes informavam sobre os factos e contribuíam para a evolução da engenharia, que não aprendera o suficiente sobre sustentação e vento.

Os críticos advertem que a ideia de «gerações» é um artifício de mercadologia, usado para segmentar de maneira intencional e artificial as pessoas, de modo a fazê-las consumir mais. Será, no fundo, um meio para empurrar determinados bens e serviços a determinadas pessoas, influenciando, em consequência, os seus desejos e a sua sensação de necessidade consumista.

Outro ataque frequente ao conceito tem que ver com a aparente aleatoriedade e certa subjectividade da definição dos intervalos que servem para caracterizar cada geração: os baby boomers são quem nasceu entre 1946 e 1964; a Geração X diz respeito às pessoas que nasceram entre 1965 e 1980; os e as millennials, onde me inscrevo, são quem tem data de nascimento entre 1981 e 1996; a Geração Z é a das pessoas nascidas entre 1997 e 2012[2]. Depois de ler as palavras usadas para descrever cada geração, também nos poderemos perguntar qual será a lógica que leva à atribuição da etiqueta para cada uma. Qual será a próxima geração a ser rotulada, e qual será o método que levará à criação do respectivo rótulo?

Há também a palavra em si. Quem me lê recordará o meu gosto pelas palavras e suas origens. «Geração»[3] tem mais que ver com «nascer», «gerar». Não será difícil associar às pessoas que nascem em determinado período, mas, ao usar a palavra com esse sentido, está-se a retirar a perspectiva generativa, criadora, e passa a ter função de categorização. Há, contudo, registos antigos que indicam que a palavra também tem sido usada para designar «linhagem», «descendência», ou o conjunto de pessoas da mesma época.

É nesse sentido, o da arrumação em prateleiras, que a vejo usada nas organizações. Aconteceu-me duas vezes nas últimas semanas, em conversas sem relação entre si. Mais uma coincidência: em equipa temos discutido bastante o assunto, precisamente por repararmos que é cada vez mais tema de conversa junto dos nossos clientes.

Uma directora, próxima do topo da hierarquia da sua empresa, tinha um problema com uma das pessoas da sua equipa. Era das mais competentes: rasgo, inteligência, capacidade de trabalho. Tinha estado de baixa. A directora não usou a palavra burnout, mas a minha intuição deu-me a certeza de que era disso que estava a falar. Depois do período de baixa, a pessoa regressara com a mesma competência, inteligência e capacidade de trabalho, mas com algumas diferenças comportamentais. Começou a recusar projectos e reuniões com justificações que, pela primeira vez, vinham da vida privada: «não posso nessa sexta-feira à tarde, tenho cabeleireiro»; «em Março, ao fim da tarde, tenho um curso». Não se tratava de incumprimento; a qualidade mantivera-se. Mas os membros do conselho de administração tinham mudado de percepção, e os comentários não eram elogiosos.

O dilema da directora era saber como falar disto com a pessoa em questão. Não podia apontar-lhe uma falha, porque não havia, pelo menos no que concerne à técnica; podia avisá-la de que a nova postura a estava a afastar das possíveis promoções, o que é dizer a alguém que fez tudo bem que mesmo assim está a fazer mal. A conversa no conselho de administração derivou depois para a «falta de fibra» das novas gerações.

Entretanto, algumas das pessoas de quem a organização mais se orgulhava, as que estavam destinadas ao topo, estavam a sair. Tinham percebido o custo, a bem ou a mal, e iam para projectos mais pequenos, com menos exigência, menos estatuto e, provavelmente, menos dinheiro. A ambivalência que senti ao ouvi-los falar desses colegas não era, provavelmente, minha: era deles. Era como se estivessem a dizer, ao mesmo tempo, «ainda bem que foram capazes de tomar tal decisão, admiro-lhes a coragem» e «de facto, esta malta nova já não é feita da mesma fibra».

Noutra conversa, noutra empresa, um gestor da minha geração descrevia-me a equipa que lidera: um misto de pessoas com bastante antiguidade e de outras muito jovens, com muitos estagiários, de quem gosta e com quem diz ter uma relação óptima. O que o incomodava era o que verificava nos momentos críticos, quando chega o pedido de última hora que não se pode recusar[4]: é ele quem fica e assume o que tem de ser feito. As pessoas até ficam, se lhes pedir, mas «em brasa por dentro», e ele prefere não pedir a assistir ao revirar de olhos e aos suspiros.

Uma pessoa que acabara de promover aceitou fazer uma apresentação durante as férias, com liberdade total para recusar, e cancelou no próprio dia, por mensagem: tinha as unhas marcadas para aquela hora. Foi o gestor quem fez a apresentação, com o custo e a ansiedade acrescidos de ter de preparar tudo sem o tempo necessário para o fazer bem. A pergunta que repetiu mais vezes na conversa foi «até que ponto tenho o direito de esperar mais deles?». É a mesma pessoa que neste Verão foi de férias sem computador pela primeira vez na carreira e que organiza horários e transportes para que a equipa não viva o que ele viveu. Quer poupá-los ao preço que pagou e, mesmo assim, custa-lhe que, nas alturas em que precisa, ninguém se ofereça. «É um choque muito mais meu, interno, do que com eles», disse-me. E foi ele, não eu, que descartou a explicação geracional: o problema é das pessoas, uma a uma, e da maturidade que ainda estão a fazer, não da data em que nasceram.

«O conflito também é nosso», ouvi noutra sala, de alguém com cargo sénior. A tensão entre a disponibilidade total e a vida que fica de fora não separa os velhos dos novos; passa por dentro de cada um, e os que estão em cima sabem o que lhes custou.

Parece faltar linguagem para isto. A das gerações é a que estamos a usar para pensar o fenómeno, e não parece a mais adequada: explica tudo pela data de nascimento e, com essa conclusão cronológica, fecha outras possibilidades. Reconheço o incómodo da posição: a empresa de que sou sócio prepara sessões sobre o tema, e eu estou aqui a desconfiar da etiqueta que nos traz os pedidos.

A pergunta que nos fazemos lá dentro é esta: como se fala disto sem usar a linguagem das gerações e sem perder o que a torna reconhecível? Na nossa equipa chegámos a outra palavra, que não é melhor por ser nossa, mas parece mais à medida do problema: gramática. Cada pessoa tem uma gramática própria, um conjunto de crenças sobre o que é o esforço, o reconhecimento, o compromisso, a emoção, a autoridade. Essa gramática não foi escolhida. Foi construída pelas condições formativas de cada época: o pós-guerra, a ditadura, a Troika, a pandemia, os algoritmos.

Como a língua materna, funciona abaixo da consciência: ninguém decide de manhã se hoje mostra ou esconde o cansaço, simplesmente fala. E, como a língua materna, tem a sua coerência. Um português e um alemão que não se entendem não estão errados. O problema, portanto, não está nas diferenças entre gramáticas; está numa interpretação abusiva: cada lado assume que a sua é a única e lê a do outro como falha de carácter, falta de profissionalismo ou imaturidade. Falta de fibra, de um lado; desumanidade, do outro.

Volto à palavra «geração». Gerar é criar as condições para que algo novo possa nascer. Os engenheiros daquela ponte não pararam o vento. Da mesma forma, não se resolverá esta questão a tentar «parar o vento com as mãos»: as diferenças entre pessoas existirão sempre. Não conheço a solução, mas acredito que se encontrará ao pensar-se com mais profundidade, ao conversar-se com mais calma sobre o assunto e, por consequência, ao não se atribuírem relações de causalidade quando esta é, no mínimo, duvidosa, ou simplesmente inexistente fora da imaginação e do preconceito generalizado que nos põe em confronto com quem tem o oposto e complementar.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=XggxeuFDaDU
[2] As datas são as do Pew Research Center. Em 2023, o próprio Pew, a instituição que mais fez por fixá-las, anunciou que deixaria de usar os rótulos geracionais por norma, depois de uma carta aberta de demógrafos e sociólogos, promovida por Philip Cohen, da Universidade de Maryland, a pedir-lhe que parasse.
[3] https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=geração
[4] Ideia questionável, esta de que não se pode recusar. Quem o diz? Que instâncias fazem com que tal crença se instale?

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João Sevilhano

João Sevilhano

É licenciado em Psicologia Aplicada, área de Psicologia Clínica. Exerceu funções em instituições de saúde na área da Psicologia Clínica. Trabalhou igualmente como técnico de recursos humanos passando por vários departamentos onde se destacam as atividades de criação e implementação de programas formativos, counseling de gestores e equipas e a gestão de R.H (SONAE Distribuição). Desenvolveu a sua atividade na Escola Europeia de Coaching (EEC), agora Way Beyond, onde foi sócio-gerente, director pedagógico, coach e facilitador. Na Way Beyond é... Ler Mais..

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