Opinião
As cidades do futuro começam muito antes do primeiro edifício
Quando pensamos no futuro das cidades, é natural que a nossa imaginação nos leve para edifícios inteligentes, carros autónomos, inteligência artificial, sensores espalhados pelo espaço público ou bairros energeticamente autossuficientes.
Mas a reflexão mais interessante que retirei da mesa-redonda promovida pela Galp no QSP Summit foi precisamente a de que o verdadeiro desafio não é tecnológico, é humano.
A transformação da antiga refinaria de Matosinhos no agora Innovation District representa muito mais do que um projeto de regeneração urbana. Representa uma mudança profunda na forma como entendemos a criação de valor de um território. Durante décadas, aquele espaço foi símbolo da economia industrial. Amanhã poderá tornar-se um dos maiores exemplos nacionais de uma economia baseada no conhecimento, na inovação, na sustentabilidade e na capacidade de atrair talento.
Esta transformação faz-nos olhar para o imobiliário de uma forma diferente.
Durante muito tempo, habituámo-nos a medir o valor de um imóvel através de fatores relativamente previsíveis: localização, acessibilidades, qualidade construtiva, arquitetura, vista ou potencial de valorização. Todos continuam a ser fundamentais. No entanto, começam a surgir novas variáveis que, daqui a alguns anos, poderão pesar tanto ou mais do que aquelas a que tradicionalmente damos importância.
A primeira dessas variáveis chama-se ecossistema.
Os territórios mais competitivos já não são necessariamente aqueles que possuem os edifícios mais emblemáticos, mas sim aqueles que conseguem concentrar empresas inovadoras, universidades, centros de investigação, espaços públicos qualificados, cultura, comércio, habitação diversificada e uma comunidade capaz de gerar conhecimento de forma contínua.
A inovação deixou de ser um fenómeno isolado dentro de um edifício de escritórios. Passou a depender da proximidade entre pessoas, organizações e ideias.
Foi precisamente essa ideia de densidade e de ligação entre diferentes atores que marcou grande parte da discussão. Porque um verdadeiro distrito de inovação não nasce apenas do investimento privado nem apenas do planeamento público. Nasce da capacidade de criar condições para que diferentes competências convivam, colaborem e evoluam em conjunto.
É aqui que o conceito da cidade dos quinze minutos ganha verdadeiro significado.
Muitas vezes resumido à mobilidade, este conceito é, na realidade, uma visão integrada da qualidade de vida. Uma cidade onde seja possível trabalhar, estudar, consumir, praticar desporto, usufruir de cultura, aceder aos serviços essenciais e viver sem depender permanentemente do automóvel não é apenas uma cidade mais eficiente. É uma cidade mais humana.
E quando uma cidade melhora a qualidade de vida das pessoas, torna-se naturalmente mais atrativa para residentes, empresas e investidores.
No fundo, o mercado imobiliário acaba sempre por refletir aquilo que uma cidade consegue oferecer.
Quanto melhor for a experiência urbana, maior será a capacidade de atrair talento.
Quanto maior for a capacidade de atrair talento, maior será a procura por habitação, escritórios, comércio e serviços.
É um ciclo virtuoso que começa muito antes da construção do primeiro edifício.
Outro aspeto particularmente relevante foi a preocupação manifestada pelos participantes relativamente à inclusão social. Um distrito de inovação só cumprirá verdadeiramente a sua missão se conseguir evitar tornar-se uma ilha exclusiva para alguns privilegiados.
A existência de diferentes tipologias de habitação, de preços acessíveis, de espaços públicos de qualidade, de escolas, de equipamentos coletivos e de transportes eficientes não deve ser vista como uma consequência do projeto. Deve ser parte integrante da sua conceção desde o primeiro dia.
Caso contrário, estaremos apenas a construir um excelente empreendimento num contexto urbano incompleto.
Esta reflexão parece-me particularmente importante para Portugal.
Vivemos um momento em que várias cidades estão a redefinir a sua identidade. Projetos como este mostram que a competitividade internacional já não depende apenas da capacidade de captar investimento. Depende da capacidade de criar lugares onde as pessoas queiram viver, trabalhar, criar empresas e construir o seu futuro.
Talvez por isso a pergunta mais importante já não seja quantos edifícios conseguiremos construir nas próximas décadas. A verdadeira questão será outra:
– Seremos capazes de construir cidades onde o conhecimento circula, a inovação acontece naturalmente, a mobilidade aproxima pessoas e a qualidade de vida deixa de ser uma promessa para passar a fazer parte do quotidiano?
Se a resposta for afirmativa, então o imobiliário continuará a valorizar-se. Mas fá-lo-á por uma razão muito diferente daquela que conhecemos durante tantos anos.
Porque o verdadeiro valor deixará de estar apenas no imóvel. Passará a estar na cidade que esse imóvel ajuda a construir.








