Abordo hoje um tema que me acompanha desde muito novo e que ao longo da vida muitos foram os factos que corroboram a tese de que viver com desvantagem, ser visto como um “Underdog” ou “Misfit” (Desajustado) e, principalmente, não possuir todos os recursos é, na grande maioria das vezes, uma vantagem.

Quando não possuímos todos os recursos necessários, e de forma abundante, somos obrigados a ser mais criativos e mais inovadores na busca de soluções, quando a necessidade de sucesso é absolutamente fulcral na perseguição do objetivo empenhamo-nos mais e dedicamos mais energia na execução de qualquer tarefa, principalmente quando o não atingimento do objetivo produz impactos nefastos no que planeamos para nós.

É por isso que muitas pessoas chegam mais longe partindo de situações sociais e financeiramente mais complexas, porque a necessidade de sucesso é imprescindível, porque faz realmente diferença e porque o impacto do insucesso é maior e mais impactante.

São muitos os casos na história de pessoas que foram absolutamente geniais em áreas normalmente lideradas e controladas por elites dominantes, e que contra todas as perspetivas triunfaram nas mais variadas áreas, que cruzam a estratégia militar, a inovação médica em campos de batalha, no desporto, na gestão, mas sobretudo em áreas de inovação tecnológica.

Os casos de celebridades nas mais diversas áreas que reportam hoje abertamente situações de bulling na sua infância, muitas delas relacionadas com dislexias, introversão ou só porque eram considerados misfits.

Na página “Creative Thinking Hub”, de Jim Connolly, onde aborda o tema de Misfits, diz “Eu estava olhando para fatores comuns por trás das pessoas que alcançam grande sucesso em seu campo escolhido, e em 100% dos casos que estudei, eram Misfits. De Shakespeare, Dieter Rams e Steve Jobs, a Grandmaster Flash, Richard Feynman, Picasso e Robin Williams.

Isso também parece ser verdade, se a pessoa é um músico, político, ativista, industrial, designer, escritor, ator… o que quer que seja. A única exceção que encontrei foram estrelas desportivas, onde a genética teve um papel importante. Mas mesmo assim, os melhores no desporto são muitas vezes misfits; pessoas que demonstraram um raro nível de comprometimento, foco, coragem e determinação”.

Desenvolvi muita da minha atividade profissional em áreas tenológicas, e há alguns anos era raro ver mulheres na tecnologia. Felizmente hoje já não é tanto assim, mas a grande maioria das mulheres com quem me cruzei possuíam uma energia, capacidade e empenho acima do normal, eram mais criativas na abordagem aos problemas e questionavam mais. Pessoalmente acho que muito se devia ao facto de terem decidido trabalhar numa área que estava “reservada aos homens”.

Mas o contrário também aconteceu, veja-se o crescimento de homens que hoje têm sucesso em áreas que há alguns anos eram maioritariamente femininas, sejam Chefs ou costureiros, por exemplo.

Mas ainda há muito por fazer neste capítulo, as oportunidades não estão disponíveis para todos, e dificilmente estarão, mesmo que pensemos apenas nos países e culturas mais desenvolvidas, não só porque existe preconceito, mas também porque sempre existirá privilégio.

Deixo-vos um livro que aborda este tema de forma sublime. Nele Malcolm Gladwell explora a relação entre poder e prestígio, por um lado, e fraqueza e luta, por outro.

Duas teses passam pelos ensaios em Davi e Golias: Underdogs, Misfits e the Art of Battling Giants.

A primeira tese é que em uma competição onde um lado é obviamente superior ao outro pelos padrões convencionais, o lado mais fraco muitas vezes tem uma ou mais vantagens subestimadas. A segunda tese é que demasiados recursos ou força podem não ser uma vantagem.

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Sobre o autor

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Alberto Jorge Ferreira é um gestor executivo de renome internacional, que já liderou a transformação e renovação de empresas em 14 países e nos quatro continentes, sendo especialista na restruturação e transformação digital de organizações com as mais diferentes culturas... Ler Mais