Entrevista/ “A gestão energética é, sem dúvida, uma vantagem competitiva”

Susana Pires, Head of Energy Management da Youdera
Foto: Susana Pires, Youdera

“Quando é bem gerida, a energia permite reduzir simultaneamente custos e incerteza, o que tem um impacto direto na capacidade de uma empresa competir”, assegura Susana Pires, Head of Energy Management da Youdera. E explica porquê.

A Head of Energy Management da Youdera – empresa especializada em soluções de energia descentralizada e modelos Energy-as-a-Service, presente em Portugal há cinco anos -, reflete sobre a importância da gestão especializada da energia e sobre a forma como o acesso a dados e métricas em tempo real é cada vez mais prioritário e está a transformar a competitividade das empresas.

Em entrevista ao Link to Leaders, Susana Pires explora as razões que continuam a levar os líderes a tomar decisões energéticas sem informação suficiente sobre os consumos, e explica de que forma a monitorização permanente, a análise de dados e a contratação de equipas especializadas permitem identificar desperdícios invisíveis.

A Youdera é uma empresa especializada em soluções de energia descentralizada e modelos Energy-as-a-Service. Qual a vossa proposta diferenciadora para o mercado?

A nossa proposta parte de uma mudança de paradigma. Em vez de pedirmos às empresas que comprem o “carro” – os ativos energéticos – e aprendam a ser mecânicos para o manter na estrada, assumimos nós o volante: financiamos, instalamos e conduzimos toda a operação, ao mesmo tempo que entregamos apenas aquilo que realmente querem, que é chegar ao destino com energia mais competitiva, previsível e sustentável.

Na prática, na Youdera, financiamos e instalamos produção solar, armazenamento, baterias ou diferentes combinações destes ativos, assegurando, também, a sua manutenção e monitorização. Isto significa que o cliente não tem de fazer um investimento inicial significativo, nem tem de criar uma estrutura interna para gerir essa infraestrutura.

A diferenciação também está na forma como dimensionamos a solução. O nosso trabalho não começa no equipamento que queremos vender, mas sim na análise do consumo real da empresa, em intervalos de 15 minutos. A partir daí, percebemos onde faz sentido produzir, armazenar, deslocar consumos ou recorrer a energia adicional. E é esta combinação de financiamento com tecnologia e gestão que nos permite funcionar como um único parceiro para a infraestrutura energética das empresas, em vez de sermos apenas mais um instalador ou comercializador.

“(…) é gratificante assistir a esta evolução: deixar de reagir à fatura para passar a antecipar e gerir o consumo de forma estratégica”.

Quais os produtos/serviços mais procurados e com mais impacto no vosso negócio?

O solar continua a ser a porta de entrada, já que é o produto mais visível e o mais fácil de explicar: instalam-se painéis e compra-se menos à rede. Mas onde vejo mais impacto é na combinação com o armazenamento. Uma bateria permite armazenar energia quando é mais barata para a utilizar quando é mais cara, evitando recorrer à rede nos períodos em que a eletricidade custa mais.
A isto, junta-se, com peso crescente, a gestão da flexibilidade, ou seja, ajustar quando se consome e não só quanto, bem como a monitorização contínua através da nossa plataforma, que dá às empresas visibilidade sobre onde e como gastam. Depois de quase três décadas a acompanhar empresas que gerem a energia “a olho”, com base na fatura do mês anterior, é gratificante assistir a esta evolução: deixar de reagir à fatura para passar a antecipar e gerir o consumo de forma estratégica.

Como olha para a evolução do mercado português, nos últimos anos, no seu setor de atividade?

Estou neste setor desde os anos 90, quando ainda trabalhávamos com centrais de cogeração e a ideia de escolher um fornecedor de energia parecia tão insólita como escolher um fornecedor de água da torneira. Ninguém escolhia: a energia simplesmente chegava. Ter acompanhado esta transformação de perto, ano após ano, é o tipo de privilégio que só se percebe a olhar para trás. E ainda sinto o mesmo entusiasmo do primeiro dia.

A liberalização do mercado, no início dos anos 2000, foi a primeira grande viragem: de repente, havia opções, o que trouxe concorrência e até alguma confusão. Depois, vieram as renováveis “a sério” e a queda acentuada do custo do solar e, mais recentemente, a crise energética de 2022, que fez em 18 meses o trabalho de pedagogia que o nosso setor não tinha conseguido fazer em 20 anos: convenceu qualquer administrador financeiro de que a energia merece uma linha de gestão própria e não uma nota de rodapé na contabilidade.

Hoje, o mercado português é o mais maduro, o mais tecnológico e o que tem mais atores especializados, como a Youdera. Mas continua a existir uma distância grande entre quem já percebeu isto e quem ainda decide a estratégia energética ao sabor do catavento comercial, em vez de olhar para os dados. O problema é que, aqui, a tempestade chega todos os meses, com um nome e uma morada: a fatura.

“(…) gerir energia não significa apenas “caçar” o preço mais baixo, como quem compara etiquetas no supermercado sem olhar para o prazo de validade”.

De que forma uma gestão holística da energia pode ser a solução para reforçar a competitividade das empresas?

Quando é bem gerida, a energia permite reduzir simultaneamente custos e incerteza, o que tem um impacto direto na capacidade de uma empresa competir. O primeiro passo é perceber que gerir energia não significa apenas “caçar” o preço mais baixo, como quem compara etiquetas no supermercado sem olhar para o prazo de validade. É necessária uma análise da estrutura do contrato, do perfil de consumo, da forma como o preço é indexado, ou fixado, e da flexibilidade que existe para adaptar os volumes contratados à realidade operacional.

Depois, há outras dimensões que podem ser trabalhadas. Uma empresa com consumos elevados pode, por exemplo, beneficiar do Estatuto do Cliente Eletrointensivo, desde que acompanhe continuamente os critérios necessários para manter essa condição. Pode, também, avaliar produção própria, armazenamento, comunidades de energia ou diferentes modelos de aquisição. Quando todas estas variáveis são analisadas em conjunto, a energia deixa de ser uma despesa que se tenta minimizar e passa a ser uma variável de gestão. E é aí que começa a reforçar a competitividade das empresas.

“Grande parte das empresas ainda gere a energia de forma reativa. Recebe a fatura, paga-a sem auditar o valor e, anualmente, procura uma eventual alternativa no mercado”.

Qual a importância, e impacto, da gestão especializada da energia nas empresas? Pode ser encarada como uma vantagem competitiva?

Grande parte das empresas ainda gere a energia de forma reativa. Recebe a fatura, paga-a sem auditar o valor e, anualmente, procura uma eventual alternativa no mercado. O problema é que o mercado energético não funciona só de 12 em 12 meses. Há, por isso, decisões que devem ser tomadas continuamente e que exigem conhecimento especializado, para escolher o indexante mais adequado, perceber se as cláusulas fazem sentido, ajustar volumes contratados à sazonalidade do negócio ou avaliar alternativas.

Uma equipa especializada consegue, também, acompanhar oportunidades que, normalmente, não são do conhecimento das empresas cuja atividade principal não é a energia. Falo de ter acesso a ofertas verdadeiramente personalizadas (e não apenas de preço), mas também de conseguir montar estratégias mistas de mitigação de risco, compostas, por exemplo, por geração local, um contrato de compra de energia financeira ou físico e compra faseada de coberturas de preço. É a velha regra de não pôr todos os ovos no mesmo cesto, só que, aqui, o “cesto” também tem de saber ler o contexto geopolítico e antecipar situações de mercado de alta volatilidade ou falta de liquidez. O objetivo não é tornar o cliente dependente de um especialista, mas dar-lhe informação e capacidade de decisão, para que tenha a possibilidade de deixar de aceitar sem questionar as condições que lhe são apresentadas.

Por isso, defendo que a gestão energética é, sem dúvida, uma vantagem competitiva. Duas empresas podem consumir quantidades semelhantes de energia e ter custos muito diferentes, simplesmente porque uma delas toma decisões com base em dados e conhecimento de mercado e a outra funciona em “piloto automático”.

De que forma a monitorização permanente, a análise de dados e a contratação de equipas especializadas permite identificar desperdícios invisíveis?

Há uma diferença significativa entre saber quanto uma empresa consumiu e perceber porque é que consumiu dessa forma. E é nesta distinção que, muitas vezes, estão os desperdícios que não aparecem de forma evidente na fatura. Com dados de consumo em intervalos curtos, conseguimos perceber padrões, identificar desvios e relacioná-los com o custo de energia em cada momento. Um equipamento que consome mais do que o habitual pode estar a sinalizar uma anomalia que anteceda a avaria. Do mesmo modo, um processo industrial intensivo pode, eventualmente, ser deslocado para um período em que o custo da energia é mais baixo.

Na Youdera, acrescentamos a esta análise a simulação e a posterior validação das próprias faturas. A nossa plataforma cruza os dados de consumo com as condições contratadas e os preços de mercado, permitindo identificar erros ou custos que poderiam passar despercebidos. A verdadeira vantagem não está, portanto, em ter mais dados, mas sim em transformá-los em decisões, mesmo antes do desperdício se transformar num custo.

Quais os casos mais emblemáticos de uma gestão energética eficaz que passaram pela vossa empresa?

Há um caso de que gosto particularmente de falar, mesmo sem poder identificar o cliente, porque resume bem aquilo que fazemos. Era uma empresa industrial convencida de que o seu consumo estava otimizado: “já negociámos o melhor preço do mercado” – diziam. E tinham razão: o preço por quilowatt-hora (kWh) era, de facto, competitivo. O problema é que estavam a olhar para o preço do combustível e a ignorar que gastavam mais do que precisavam, por andarem sempre em primeira mudança.

Ao cruzarmos os dados de consumo, em intervalos de 15 minutos, com o perfil tarifário, percebemos que parte significativa da produção estava concentrada, precisamente, nas horas mais caras. E não por necessidade operacional, mas por hábito, porque “sempre se fez assim”. Só com o reordenamento de alguns processos, sem qualquer investimento, conseguimos uma redução de custo relevante. Ao juntar-lhe, depois, armazenamento, para captar os períodos mais baratos, o impacto tornou-se ainda mais expressivo.

O que estes casos têm em comum não é a tecnologia, é o momento em que a equipa de gestão deixa de olhar para a fatura como um extrato bancário – algo que só se lê para confirmar que o saldo bate certo – e passa a olhar para ela como um mapa, com informação que se pode usar para decidir melhor no mês seguinte.

O acesso a dados e métricas em tempo real está a transformar a competitividade das empresas? De que forma?

Sim, e a principal transformação é o facto destes dados permitirem que as empresas atuem antes do problema, e não depois. Se uma empresa só analisar o seu consumo no final do mês, consegue perceber o que falhou, mas já não consegue mudar nada. Com informação instantânea, é possível identificar desvios, relacioná-los com a operação e compreender, por exemplo, se determinado processo está a decorrer numa altura em que a energia é cara.

Procuramos aproveitar esta oportunidade para cruzar os dados operacionais com informação dos mercados energéticos e com as condições contratuais de cada empresa. Os indicadores são configuráveis à realidade de cada cliente, porque não faz sentido olhar apenas para “euros por kWh”, quando o que interessa ao gestor é relacionar o custo energético com o seu produto ou serviço, seja o custo por tonelada produzida, por quarto ocupado ou por encomenda expedida.

Com a aquisição de dados de 15 em 15 minutos, conseguimos, ainda, programar alarmes que avisam, por exemplo, de excessos de potência tomada – um pouco como estourar o limite de dados móveis do telemóvel a meio do mês, só que, aqui, quem paga a conta extra é a empresa – ou da presença de energia reativa, que é energia “desperdiçada” – como um carro parado com o motor ligado: gasta, mas não avança. E, sobretudo, passamos a conhecer não apenas os consumos, mas também os custos em tempo quase real, o que permite atuar diretamente nos processos, sem a decalagem de só descobrir o problema quando a fatura chega.

“Uma boa decisão energética pode começar numa questão simples, como rever um contrato de fornecimento (…)”

Tomar uma boa decisão energética pode abrir caminho para o sucesso de uma empresa?

Pode, sim, e acredito que esta relação é cada vez mais evidente. Durante muitos anos, as empresas encaravam a energia como o tempo lá fora: uma força maior, à qual só resta reagir com um casaco ou um guarda-chuva. Mas essa realidade está a mudar. Uma boa decisão energética pode começar numa questão simples, como rever um contrato de fornecimento, mas pode também evoluir para uma estratégia muito mais abrangente, como ajustar volumes contratados, escolher uma estrutura de preço adequada, produzir localmente, armazenar energia ou recorrer a diferentes fontes de aprovisionamento.

O principal conselho é não assumir que a única alternativa existente é a escolha entre os tarifários que estão disponíveis no mercado. Existem acordos, comunidades de energia, contratos com diferentes estruturas e até a possibilidade de adquirir certificados de “energia verde” junto dos produtores. A empresa que conhece estas opções e consegue compará-las com o seu perfil de consumo tem uma capacidade de decisão que outra empresa com o mesmo consumo, mas sem essa informação, não tem. E esta diferença acaba por se refletir nos custos e na competitividade.

As empresas portuguesas estão mais conscientes da transformação energética em curso? Já apostam o suficiente na energia verde, com sustentabilidade?

A consciência tem vindo a aumentar de forma consistente, mas é diferente haver um reconhecimento da importância da transição energética e haver a efetiva integração da gestão no negócio. Já reparo que há muitas empresas preocupadas em produzir energia de fonte 100% renovável ou reduzir a sua pegada ambiental, o que é positivo. Mas ainda é frequente começarem pela tecnologia sem fazer primeiro uma análise completa daquilo que acontece dentro da própria operação – é como comprar um casaco de inverno sem perceber primeiro se o frio, afinal, vem de uma janela aberta. Instalar sistemas solares pode ser uma excelente decisão, mas não é necessariamente a melhor para todas as empresas.

A transição energética tem de ser planeada a partir de consumos reais. É necessário saber onde se consome, quando se consome, quanto custa a energia e que parte do consumo pode ser alterada, produzida localmente ou armazenada. Por isso, diria que Portugal está no caminho certo, mas ainda existe uma margem enorme para transformar sustentabilidade em competitividade. O próximo nível será deixar de encarar a energia renovável apenas como uma forma de reduzir emissões e começar a compreendê-la como ferramenta para controlar custos e aumentar a resiliência do negócio.

Que diferenças encontra face ao que se passa nos outros mercados em que a Youdera está presente?

A primeira ideia que retenho é que não existe propriamente um único mercado ibérico. Portugal e Espanha partilham recursos, desafios e uma forte penetração de renováveis, mas o contexto empresarial e regulatório é bastante diferente. Em Portugal, encontramos um mercado mais pequeno e, em algumas situações, mais ágil – decide-se quase ao ritmo de uma equipa de futsal, não de uma seleção com 11 titulares e um banco de suplentes interminável. Espanha, por outro lado, joga a outra escala: oferece um mercado tecnicamente muito mais desenvolvido, mas implica também lidar com uma complexidade regulatória e administrativa proporcional ao tamanho do campo.

A experiência nos dois países é, por isso, particularmente interessante para nós. A Península Ibérica funciona quase como um laboratório para modelos que ganharão relevância crescente noutros mercados, como produção descentralizada, armazenamento, comunidades de energia, flexibilidade e gestão de uma rede com presença crescente de renováveis.

A Suíça acrescenta uma realidade diferente, com a precisão que se espera de quem inventou o relógio de cuco: maior estabilidade regulatória e uma visão de longo prazo sobre independência energética. E é desta combinação entre a experiência prática na Península Ibérica e a estabilidade que nos oferece o mercado suíço que retiramos uma parte importante da nossa aprendizagem.

(…) queremos consolidar a nossa presença em Portugal, continuando a desenvolver projetos que permitam às empresas produzir, armazenar e gerir melhor a sua própria energia(…)”

Quais as metas da empresa para o mercado português nos próximos anos?

A nossa ambição desde início foi construir uma solução descentralizada, assente sobretudo em solar e armazenamento. É uma visão que se mantém e que estamos agora a transformar em escala. Nos próximos anos, queremos consolidar a nossa presença em Portugal, continuando a desenvolver projetos que permitam às empresas produzir, armazenar e gerir melhor a sua própria energia, sem terem de aprender a cozinhar a própria energia – só sentar-se à mesa, quando a refeição já estiver pronta.

Contudo, a nossa ambição vai muito além do crescimento da carteira de projetos. Queremos ser, verdadeiramente, o gestor de energia dos nossos clientes, incluindo assumir instalações já existentes que não estão a operar bem e responsabilizarmo-nos pela sua gestão. Assim, cada indústria ou serviço comercial pode focar-se no seu próprio negócio e nós entregamos-lhes desempenho, números que deixam de os preocupar e a análise e os dados que sustentam as suas decisões energéticas.

Se conseguirmos combinar isto com modelos de financiamento que tornem a transição energética economicamente acessível, estaremos a aproximar o país de uma maior independência ao nível da energia. Portugal não precisa de esperar por uma revolução que vem de fora, porque tem sol, vento e tecnologia – só falta quem lhe segure na mão enquanto aprende a andar sozinho. É esse o lugar que queremos ocupar.

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