Opinião
Quando os dados melhoram a gestão do clube de futebol
A análise de performance no futebol continua a ser vista sobretudo como uma função técnica, da qual faz parte a preparação frente aos adversários, a revisão dos jogos e o planeamento dos treinos. Porém, o potencial dessa análise é maior, uma vez que contém informação útil para as decisões que os clubes tomam diariamente sobre contratações, formação, orçamento, valorização de ativos e risco.
Ter dados não é o mesmo que usá-los. Métricas de GPS, vídeo, informação médica e relatórios de observação são matéria-prima que, quando organizada e interpretada em contexto e valor, torna-se informação e conhecimento, capaz de suportar uma decisão, que pode dar descanso a um jogador, aprovar uma transferência ou redirecionar um orçamento.
Um estudo recente, publicado no Science and Medicine in Football, que envolveu 32 clubes profissionais e 29 federações, mostrou que os dados já apoiam decisões nas áreas técnica, de recrutamento, performance e medicina, mas também revelou a falta de especialistas e a fraca governança entre departamentos. O problema, por esse motivo, está em fazer com que os dados cheguem à mesa de quem decide. A vantagem competitiva depende, assim, menos do tamanho do departamento de dados e muito mais na sua capacidade de transformar o trabalho dos analistas em decisões institucionais.
Outro estudo divulgado no mesmo jornal académico reforça a ideia de que o sucesso sustentado resulta de uma sequência de boas decisões no recrutamento, na construção do plantel, na tática, na gestão de carga e na prevenção de lesões. Ou seja, os dados ajudam a reduzir os efeitos da pressão, do excesso de informação e dos enviesamentos, mas não substituem a experiência. Modelos simples e interpretáveis, combinados com conhecimento de futebol, podem ser mais úteis do que sistemas opacos.
No recrutamento, os dados permitem observar mais jogadores, identificar opções fora dos mercados óbvios, quantificar pontos fortes e fracos, e apoiar a due diligence. Conseguem filtrar o mercado a uma escala que uma rede humana dificilmente iguala, mas a decisão final continua a exigir julgamento humano.
A transferência passa, assim, a ser também uma decisão financeira. Modelos de avaliação e otimização podem combinar a performance esperada, o orçamento e o risco. Por conseguinte, passamos agora a questionar que contratações maximizam a performance dentro de orçamento X e nível de risco Y. Estudos publicados no Technological Forecasting and Social Change, sobre as principais ligas europeias, mostram precisamente essa ligação entre o investimento, a composição do plantel, a estratégia de jogo e os resultados.
Na formação, o tempo, a atenção técnica, o apoio especializado e as oportunidades são recursos limitados. Uma investigação partilhada no Journal of Sports Sciences mostra que a identificação e o desenvolvimento de talento mudam com a idade e dependem das dimensões física, técnica, tática e psicológica. Por esse motivo, uma única métrica ou uma impressão pontual são bases frágeis para decidir quem progride. A análise de performance é mais valiosa quando acompanha a evolução ao longo do tempo.
Um plantel é uma carteira de ativos cujo valor depende da disponibilidade para competir. Estudos em competições europeias de elite encontraram associações consistentes entre uma menor carga de lesões, uma maior disponibilidade e melhores resultados desportivos. Bem integrados, os dados médicos e de performance protegem o jogador e ajudam também a proteger o investimento feito no plantel.
A evidência sugere que a vantagem não está necessariamente em ter mais dados, mas em integrar o recrutamento, a formação, a área médica, a performance e a direção no mesmo processo de decisão. A verdadeira evolução da análise de performance é, portanto, deixar de servir apenas o treino e tornar-se numa capacidade de gestão, através da melhoria da alocação de recursos, a redução do risco e o apoio nas decisões estratégicas do clube inteiro.
*Start-up incubada na Startup Leiria








