Grandes empresas alertam que falta de “abertura à IA” pode afetar investimento na Europa

Foto: geralt por Pixabay

A forma como os países encaram a inteligência artificial está a ganhar peso nas decisões de investimento das multinacionais. Regulação, talento, capacidade computacional, infraestrutura e regras de utilização de dados estão entre os fatores avaliados pelas empresas antes de decidirem onde expandir operações, segundo o Financial Times.

A abordagem dos países à inteligência artificial está a tornar-se um fator cada vez mais relevante nas decisões de investimento das grandes empresas. Multinacionais dos setores financeiro, industrial e tecnológico estão a avaliar condições como talento especializado, capacidade de computação, enquadramento regulatório e regras de utilização de dados antes de decidirem onde instalar novos projetos ou reforçar operações.

Segundo o Financial Times, esta tendência pode colocar partes da Europa continental em desvantagem face aos Estados Unidos e, em alguns casos, ao Reino Unido. Executivos ouvidos pelo jornal alertam que a chamada “abertura à IA” está a passar a integrar os critérios de decisão sobre novos investimentos.

Maria Cristina Bifulco, chief strategy officer da Prysmian, explica que as empresas têm várias geografias à escolha para instalar futuros programas de investigação e desenvolvimento, capacidade industrial e investimentos operacionais. Se a Europa não conseguir criar as condições consideradas adequadas, esses projetos poderão ser direcionados para mercados com políticas mais favoráveis à IA, maior previsibilidade regulatória e uma visão mais clara sobre o valor estratégico da produção local.

A avaliação não se limita à indústria. Um grande banco norte-americano citado pelo Financial Times utiliza um sistema semelhante a um “semáforo” para classificar os países de acordo com o seu grau de preparação para a inteligência artificial. Entre os critérios analisados estão a prioridade atribuída à IA pelos governos e as regras de proteção de dados aplicáveis à utilização de informação empresarial e de clientes em soluções de inteligência artificial.

Um executivo do banco explica que a instituição está menos disponível para aumentar equipas em países classificados a “vermelho” na adoção de IA. O Reino Unido é descrito como estando numa zona “esverdeada”, enquanto alguns países da Europa continental surgem em posições menos favoráveis.

Regulação pesa nas decisões

A regulação é um dos fatores centrais nesta equação. Laura Houston, codiretora da área tecnológica da Slaughter and May, afirma que a União Europeia avançou mais do que outras grandes economias na regulação da inteligência artificial. Segundo a especialista, os custos e a complexidade associados a esse enquadramento são hoje considerados pelas empresas quando comparam Europa, Estados Unidos e Ásia como destinos de investimento.

A União Europeia procura, ao mesmo tempo, acelerar a adoção da inteligência artificial e reduzir a dependência dos grandes grupos tecnológicos norte-americanos. O AI Act tornou a UE a primeira grande jurisdição a criar um conjunto abrangente de regras legais para esta tecnologia.

O Reino Unido, por contraste, tem seguido uma abordagem regulatória mais flexível. Um dos exemplos apontados é a decisão da Novo Nordisk de escolher Londres para instalar um novo centro de coinovação em inteligência artificial, criado em parceria com a Amazon Web Services e dedicado a apoiar a descoberta de novos medicamentos. Anja Leth Zimmer, chief AI officer da farmacêutica, afirmou que a empresa procura geografias onde exista talento em IA e onde seja possível operar de forma responsável.

Infraestruturas, energia e financiamento também contam

Mas a regulação está longe de ser o único desafio. Zach Meyers, do Centre on Regulation in Europe, aponta dificuldades na rápida construção e implementação de centros de dados, preços elevados da energia, menor ritmo de adoção da inteligência artificial pelos clientes e mercados de financiamento mais reduzidos do que nos Estados Unidos.

A Comissão Europeia contrapõe que a Europa dispõe de indústrias de referência e de dados de elevada qualidade para o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial industrial. Bruxelas aposta também no projeto das chamadas “gigafábricas de IA”, destinado a aumentar a capacidade de computação disponível no continente.

Também a Aveva, unidade de software industrial da Schneider Electric, está a avaliar que critérios de inteligência artificial deverá incorporar nas suas decisões de investimento. Caspar Herzberg, presidente executivo da empresa, refere fatores como maturidade, preparação, abertura e capacidades de IA, aos quais se juntam talento, poder computacional, infraestrutura energética e investigação de fronteira.

A tendência mostra que a inteligência artificial está a deixar de ser apenas uma questão de transformação tecnológica interna das empresas para passar também a influenciar a competitividade dos países na atração de investimento.

Num contexto de crescente competição internacional por capital, talento e capacidade tecnológica, a forma como cada mercado cria condições para desenvolver e aplicar inteligência artificial pode tornar-se num dos fatores determinantes na escolha de onde colocar os próximos projetos empresariais.

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