Opinião

A civilização mais inteligente da história… e talvez a menos sábia

Nuno Madeira Rodrigues, da Fieldfisher Portugal*
Foto: Nuno Madeira Rodrigues

Habitamos uma estranha contradição histórica. Nunca a humanidade acumulou tanto conhecimento. Nunca dispusemos de tanta informação, de tantas universidades, de tantos investigadores, de tanta tecnologia e de tantos instrumentos para compreender o mundo. E, no entanto, raramente tivemos a sensação de viver numa época tão incapaz de resolver os seus próprios problemas.

A guerra regressou ao centro da Europa. O Médio Oriente continua aprisionado em ciclos sucessivos de violência. A imigração tornou-se um dos temas mais divisivos das democracias ocidentais. O extremismo político e religioso reaparece sob novas formas. As taxas de natalidade colapsam em inúmeros países desenvolvidos. A dívida pública cresce sem controlo aparente. E a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas atinge níveis preocupantes.

A explicação mais imediata consiste em culpar os líderes. Ouvimos frequentemente que faltam estadistas, que a política foi substituída pelo marketing, que os dirigentes atuais não possuem a estatura intelectual ou moral das gerações passadas. Talvez exista alguma verdade nesta crítica. Mas suspeito que ela seja demasiado simples para explicar um problema tão complexo.

Afinal, os líderes não surgem do vazio. São o produto das sociedades que os escolhem. Frequentaram as mesmas escolas, absorveram os mesmos valores, consumiram a mesma informação e foram moldados pelos mesmos incentivos culturais que moldam todos os restantes cidadãos. Esperar que a liderança de uma sociedade seja radicalmente melhor do que a própria sociedade é uma ilusão confortável, mas uma ilusão ainda assim.

Talvez a questão mais importante não seja a qualidade dos nossos líderes, mas a qualidade do ambiente intelectual que os produz. Nas últimas décadas, habituámo-nos a associar progresso tecnológico a progresso humano. Assumimos que mais informação significaria melhores decisões. Que mais acesso ao conhecimento produziria sociedades mais racionais. Que a digitalização tornaria os cidadãos mais preparados para enfrentar os desafios do futuro.

Hoje já não é possível olhar para esta relação com a mesma certeza. Diversos estudos têm levantado dúvidas sobre a evolução de alguns indicadores cognitivos em partes significativas do mundo desenvolvido. Independentemente das discussões metodológicas, existe uma perceção crescente de que estamos a formar gerações extraordinariamente competentes na utilização de ferramentas digitais, mas menos habituadas ao esforço da concentração prolongada, da leitura profunda, da reflexão crítica e da construção lógica de argumentos complexos.

O problema não reside na tecnologia. A tecnologia é uma ferramenta. O problema surge quando começamos a transferir para ela funções que antes desenvolviam as nossas capacidades humanas. Delegamos a memória aos motores de busca. Delegamos a orientação aos sistemas de navegação. Delegamos a comunicação aos algoritmos das redes sociais. E começamos agora a delegar partes do próprio raciocínio à inteligência artificial. Cada uma destas delegações parece racional quando observada isoladamente. O risco aparece quando analisamos o fenómeno em conjunto.

Paradoxalmente, quanto mais informação produzimos, menos tempo dedicamos a transformá-la em compreensão. Quanto mais conectados estamos, mais dificuldade temos em dialogar. Quanto mais opiniões consumimos, menos capacidade demonstramos para ouvir quem pensa de forma diferente. A polarização tornou-se um elemento estrutural da vida pública. Já não debatemos ideias. Escolhemos equipas. Já não procuramos a melhor solução. Procuramos a vitória da nossa tribo.

Este fenómeno tem consequências profundas. Mesmo líderes competentes encontram enorme dificuldade em governar sociedades fragmentadas em campos cada vez mais hostis entre si. Os problemas tornam-se mais sérios precisamente quando a capacidade de construir consensos diminui. Nenhuma política de imigração satisfaz ninguém. Nenhuma reforma económica reúne apoios suficientes. Nenhuma estratégia de longo prazo sobrevive ao próximo ciclo eleitoral. A democracia continua a ser o melhor sistema político que conhecemos, mas torna-se cada vez mais difícil exercer as virtudes que a tornam funcional.

O efeito inevitável desta incapacidade é a erosão da confiança. Quando os cidadãos verificam que os problemas permanecem por resolver durante anos ou décadas, começam a duvidar não apenas dos governantes, mas das próprias instituições. E quando a confiança desaparece, abrem-se espaços para soluções simplistas, para discursos radicais e para promessas autoritárias que a História nos ensinou repetidamente a temer.

Talvez seja por isso que o maior desafio do século XXI não seja tecnológico, económico ou mesmo geopolítico. Talvez seja civilizacional. A questão decisiva não é saber se conseguiremos desenvolver computadores mais rápidos, algoritmos mais sofisticados ou novas formas de inteligência artificial. A verdadeira questão é saber se continuaremos a formar cidadãos capazes de pensar criticamente, tolerar a discordância, assumir responsabilidades e tomar decisões difíceis em benefício do longo prazo.

Porque talvez a maior ironia do nosso tempo seja esta: criámos uma civilização capaz de produzir uma quantidade infinita de conhecimento, mas cada vez menos capacidade para o transformar em sabedoria.

E nenhuma sociedade sobrevive durante muito tempo sem essa transformação.

*Nuno Madeira Rodrigues, Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário da Fieldfisher Portugal

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Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Senior Associate da Fieldfisher Portugal e Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário. Anteriormente foi coordenador do Departamento de Direito Imobiliário na Pinto Ribeiro Advogados, Country Manager PT Arnold Investments, Chairman da BDJ S.A, Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É ainda Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários,... Ler Mais..

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