Opinião

A IA vai matar líderes, desmascarando-os!

José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education
Foto: José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education

Steve Jobs percebeu, há anos, algo que muitos gestores ainda não perceberam e não querem perceber: contratar pessoas inteligentes para depois lhes dizer exatamente o que fazer é um desperdício monumental.

No início, Jobs era um micro-manager quase obsessivo. Mais tarde percebeu que o papel do líder não era controlar cada passo. Era definir o problema, estabelecer um nível de exigência brutal, escolher gente extraordinária e deixá-la trabalhar.

Com a Inteligência Artificial esta ideia já mudou muito.

Vê isto: se liderar é distribuir tarefas, controlar execução, pedir relatórios, resumir reuniões e verificar procedimentos, temos um problema gigante. A IA faz uma parte crescente disso mais depressa, mais barato e, em muitos casos, melhor.

O líder está desmascarado. Então, pergunto, para que serve um líder?

Talvez tenhamos passado demasiados anos a ensinar gestores a gerir e poucos anos, muito poucos, a ensinar líderes a pensar.

Com IA, o líder deixa de valer pelas respostas que tem para dar. As máquinas terão milhões de respostas e cambiantes para todas elas. O líder vale pelas perguntas que consegue fazer. E para fazer perguntas boas é preciso saber de negócio e de pessoas. Quem não sabe não pergunta. Porque não sabe o que perguntar.

Há uma questão talvez ainda mais incómoda do que “para que serve um líder?”: “se amanhã a IA fizer 50% do meu trabalho, quais são os 50% que justificam que eu continue por aqui?”

É isto que temos de começar a ensinar.

Menos liderança livresca, embora precisemos de pensamento e ideias seminais sobre liderança. Muito menos receitas universais. E vamos ter de matar, leste bem, matar os gestores profissionais de reuniões.

Mais julgamento. Mais coragem. Mais sentido crítico. Mais capacidade para dizer não. Mais decisão. Mais responsabilidade. Mais humildade. Mais humanidade. E mais autonomia.

Jobs queria pessoas capazes de lhe dizer o que devia ser feito. Sem que ele lhes dissesse como. Os líderes traziam problemas e apresentavam as soluções.

Com IA, há um salto quântico.

Quando pessoas e máquinas conseguem produzir respostas e soluções em segundos, o valor do líder deixa de estar no “como fazer”. Passa para o “o que fazer”, o “porquê” e, sobretudo, para decidir o que não deve ser feito.

Antes, um bom líder distinguia-se por não precisar de dizer às pessoas como fazer. Agora distinguir-se-á por saber escolher o que merece ser feito.

Parece uma diferença pequena. Mas não é. É a diferença entre gerir execução e exercer liderança. A IA, meus amigos, acaba de abrir um abismo entre as duas coisas.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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