Indústria automóvel pode acelerar reciclagem de plástico na Europa
As novas metas europeias para a utilização de plástico reciclado nos automóveis poderão obrigar fabricantes, empresas químicas e operadores de resíduos a criar uma nova cadeia de reciclagem em larga escala. Atualmente, apenas 2,5% do plástico proveniente de veículos em fim de vida regressa à produção de novos automóveis.
A indústria automóvel poderá tornar-se numa das principais forças para acelerar a reciclagem de plástico na Europa. A pressão vem das novas regras europeias para os veículos em fim de vida, que deverão aumentar significativamente a quantidade de material reciclado incorporada nos novos automóveis.
Segundo a Reuters, mais de 800 mil toneladas de plástico provenientes de veículos em fim de vida são atualmente queimadas ou encaminhadas para aterro todos os anos na Europa. A revisão proposta do Regulamento Europeu relativo aos Veículos em Fim de Vida prevê que os novos automóveis passem a integrar pelo menos 15% de plástico reciclado num prazo de seis anos, percentagem que deverá subir para 25% numa década. Parte desse material terá ainda de resultar da reciclagem de veículos abatidos.
Tendo em conta os cerca de 10,8 milhões de automóveis ligeiros de passageiros matriculados na União Europeia em 2025 e uma utilização média entre 200 e 240 quilos de plástico por veículo, cumprir a primeira meta poderá exigir a produção anual de aproximadamente 350 mil toneladas de plástico reciclado destinado à indústria automóvel.
O desafio é significativo. Atualmente, apenas cerca de 2,5% do plástico recuperado de automóveis em fim de vida volta a ser utilizado na produção de novos veículos.
Projeto testa reciclagem de plástico de 100 automóveis
Para perceber se é possível reduzir esta diferença, a Global Impact Coalition (GIC), uma plataforma dedicada à redução das emissões e à promoção da economia circular na indústria química, lançou um projeto-piloto que reuniu oito empresas dos setores químico e de gestão de resíduos.
A iniciativa analisou 100 automóveis em fim de vida, submetendo-os a processos de desmontagem, trituração e separação de materiais. O objetivo foi perceber em que medida os componentes de plástico poderiam ser recuperados e transformados novamente em matéria-prima com qualidade suficiente para a indústria automóvel.
Os resultados mostraram que a reciclagem é tecnicamente possível, mas os custos continuam a ser um dos principais obstáculos à criação de um modelo economicamente viável.
Charlie Tan, CEO da GIC, considera que o problema já não passa tanto por demonstrar que a tecnologia funciona, mas por perceber como criar uma cadeia de abastecimento sustentável e definir o papel de cada interveniente. O responsável alerta ainda para a distância existente entre a ambição regulatória europeia e a atual capacidade do mercado para responder às novas metas.
Fabricantes terão de pensar na reciclagem desde o desenho do automóvel
Um dos maiores desafios está na própria conceção dos veículos. Muitos componentes combinam diferentes tipos de plástico e materiais unidos através de parafusos, soldaduras ou colas, dificultando a sua separação e reduzindo a qualidade do material recuperado.
Para Dirk Voeste, responsável de sustentabilidade da Volkswagen, a circularidade terá de começar ainda na fase de desenvolvimento do automóvel. Isso poderá significar utilizar menos polímeros, simplificar componentes e criar peças mais fáceis de desmontar no final da vida útil do veículo.
A Volkswagen está já a trabalhar com o Open Hybrid Lab-Factory, na Alemanha, no desenvolvimento de materiais mais leves, eficientes e circulares. A Audi, por sua vez, está a explorar através do projeto Material Loop formas de recuperar não apenas plástico, mas também aço, alumínio e vidro provenientes de veículos antigos.
Reciclagem química ainda tem pouca capacidade
Uma das alternativas apontadas passa pela reciclagem química, um processo que permite decompor os resíduos de plástico nos seus componentes químicos e reutilizá-los na produção de novos materiais.
No entanto, a capacidade europeia continua reduzida. Existem atualmente apenas cerca de 290 mil toneladas de capacidade operacional de reciclagem química na Europa, embora estejam previstos projetos que poderão acrescentar outros 2,8 milhões de toneladas. Para comparação, a União Europeia produziu cerca de 53 milhões de toneladas de resíduos de plástico em 2019, volume que poderá ultrapassar os 100 milhões anuais até 2060.
A indústria química considera que metas claras e uma procura estável por parte dos fabricantes de automóveis poderão ajudar a justificar novos investimentos em infraestruturas de reciclagem.
Dos automóveis descartáveis para um modelo circular
A transformação implica também uma mudança no modelo de negócio das próprias marcas. Em vez de venderem um automóvel e perderem o contacto com o veículo no final da sua utilização, os fabricantes poderão passar a ter interesse em recuperar peças, matérias-primas e baterias.
Entre as oportunidades identificadas estão a reutilização e remanufactura de componentes, a redução do consumo de matérias-primas e energia, a segunda vida das baterias e novos modelos de subscrição e serviços.
A rastreabilidade será igualmente determinante. A nova regulamentação europeia prevê a criação de um Passaporte de Circularidade do Veículo, um registo digital com informação sobre materiais, componentes e indicadores de circularidade, que deverá facilitar a desmontagem e comprovar o cumprimento das metas de reciclagem.
A experiência da indústria automóvel poderá depois ser replicada noutros setores, desde a moda aos bens de consumo. Mas, pela dimensão do mercado e pelo volume de matérias-primas disponíveis, o setor automóvel surge como um dos candidatos a liderar a passagem para uma economia do plástico mais circular.








