Jovens portugueses preferem bem-estar e estabilidade em detrimento de cargos, revela estudo
Os jovens portugueses continuam a querer liderar, mas já não fazem da chefia a principal medida de sucesso. Equilíbrio, estabilidade e independência financeira pesam mais, segundo estudo da Deloitte.
Para a maioria dos jovens portugueses, subir na hierarquia deixou de ser sinónimo de sucesso profissional. A Geração Z e os Millennials continuam interessados em assumir cargos de liderança ao longo da carreira, mas poucos colocam essa ambição no topo dos seus objetivos. Em primeiro lugar estão o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, a independência financeira e a estabilidade no emprego.
Os dados são do estudo “Gen Z and Millennial Survey 2026”, da Deloitte, que inquiriu 22.595 pessoas em 44 países, incluindo 406 participantes em Portugal, divididos igualmente entre Geração Z e Millennials.
Apesar de 63% dos jovens da Geração Z e 61% dos Millennials portugueses admitirem que gostariam de assumir responsabilidades de liderança em algum momento das suas carreiras, apenas 6% e 4%, respetivamente, apontam a chegada a uma posição de liderança como o seu principal objetivo profissional.
A prioridade está antes num percurso mais estável. Ter um bom equilíbrio entre vida pessoal e profissional é o principal objetivo para 28% da Geração Z e 32% dos Millennials. Seguem-se a independência financeira, apontada por 23% e 30%, respetivamente, e a estabilidade e segurança no emprego, com 14% entre a Geração Z e 13% entre os Millennials.
A preferência por uma progressão mais gradual é igualmente evidente: 55% da Geração Z e 52% dos Millennials dizem preferir um progresso profissional estável e sustentado, enquanto apenas 16% e 18%, respetivamente, optam por uma subida rápida de posição ou salário.
“Continuam ambiciosos, mas estão a redefinir o conceito de sucesso profissional”, resume Margarida Sousa Uva, Associate Partner da Deloitte. Para estes jovens, acrescenta, as carreiras devem ser sustentáveis e estar alinhadas com os valores pessoais, o bem-estar e o equilíbrio de vida.
O custo de vida é a principal preocupação para 51% da Geração Z e 50% dos Millennials portugueses. E as dificuldades financeiras já estão a alterar planos de vida: 57% dos jovens da Geração Z e 65% dos Millennials dizem ter adiado decisões importantes — como constituir família, prosseguir estudos ou mudar de carreira — devido à sua situação financeira.
A habitação é outro dos fatores que mais condicionam as escolhas profissionais. Oito em cada dez jovens da Geração Z (81%) dizem que a acessibilidade da habitação influencia as suas decisões de carreira, uma percentagem que desce ligeiramente para 78% entre os Millennials.
Mais de metade da Geração Z (57%) considera que não consegue suportar a compra de uma casa. Entre os Millennials, são 41%. Nesta geração, 46% afirmam ainda ter dificuldade em suportar todas as despesas mensais, acima dos 34% registados na média dos países analisados.
Neste contexto, a estabilidade deixa de ser apenas uma preferência profissional e passa a estar ligada à capacidade de concretizar projetos pessoais.
Liderar, sim, mas não a qualquer custo
A liderança não perdeu completamente o interesse dos jovens. O que parece ter mudado são as condições exigidas para a aceitar.
Entre os portugueses que não estão interessados em cargos de liderança, um salário mais elevado seria o principal incentivo para reconsiderar a decisão: 49% tanto na Geração Z como entre os Millennials apontam esse fator.
Seguem-se a existência de formação em liderança, mencionada por 31% da Geração Z e 32% dos Millennials, e modelos de trabalho flexível, valorizados por 30% e 31%, respetivamente.
E uma parte significativa já desempenha funções de gestão. Em Portugal, 31% da Geração Z e 39% dos Millennials dizem gerir ou supervisionar equipas ou ocupar funções executivas.
O problema parece estar menos na responsabilidade e mais naquilo que vem associada a ela. Num contexto de pressão financeira e desgaste profissional, uma promoção que implique mais horas, mais stress e pouco reconhecimento pode não ser suficientemente atrativa.
O bem-estar surge, aliás, como uma das principais linhas de força do estudo. 46% tanto da Geração Z como dos Millennials portugueses afirmam sentir-se permanentemente ou durante grande parte do tempo stressados.
Os longos horários de trabalho são apontados como um dos principais fatores de stress, por 65% da Geração Z e 60% dos Millennials. Seguem-se a falta de reconhecimento ou de uma recompensa adequada pelo trabalho realizado, referida por 52% e 61%, respetivamente, e as culturas organizacionais tóxicas, mencionadas por 44% da Geração Z e 57% dos Millennials.
Há, ainda assim, sinais de evolução na forma como as empresas abordam a saúde mental. Em 2026, 58% da Geração Z e 56% dos Millennials consideram que os empregadores levam esta questão a sério, acima dos 54% e 44%, respetivamente, registados no ano anterior.
Entre os Millennials aumentou também a disponibilidade para falar sobre saúde mental com os superiores: 62% dizem sentir-se confortáveis para o fazer, contra 53% em 2025. Na Geração Z aconteceu o contrário, com a percentagem a cair de 66% para 60%.
IA ganha espaço no trabalho, mas falta formação
A outra grande transformação no local de trabalho é tecnológica. 68% dos jovens portugueses, tanto na Geração Z como entre os Millennials, dizem utilizar inteligência artificial no trabalho diário.
A tecnologia é encarada sobretudo como uma ferramenta de desenvolvimento. Na Geração Z, 73% usam IA para identificar oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento, 60% para procurar aconselhamento de carreira e 48% para lidar com o stress relacionado com o trabalho. Entre os Millennials, as percentagens são de 72%, 55% e 52%, respetivamente.
A utilização, contudo, não significa preparação. Apenas 20% da Geração Z e 19% dos Millennials portugueses concluíram formação em inteligência artificial, abaixo da média global. E só 19% da Geração Z e 29% dos Millennials dizem continuar a procurar ativamente formação nesta área.
A falta de confiança nos resultados produzidos pelas ferramentas é o principal obstáculo apontado pela Geração Z, enquanto a falta de conhecimento e experiência é uma dificuldade transversal às duas gerações.
O salário e a estabilidade não são, contudo, os únicos fatores que determinam a satisfação. Ter um sentido de propósito no trabalho é considerado importante para a realização profissional por 95% da Geração Z e 98% dos Millennials portugueses.
Existe, porém, um desfasamento entre essa expectativa e a realidade: apenas 46% da Geração Z e 43% dos Millennials sentem que o trabalho que desempenham atualmente está alinhado com os seus valores e crenças.
As relações no trabalho também contam. 60% dos jovens das duas gerações dizem ter colegas que consideram amigos pessoais. Entre os Millennials que têm amigos no trabalho, 60% planeiam permanecer mais de cinco anos na organização, contra 45% entre aqueles que não têm essas relações.








