Esqueça o bambu. Esta start-up quer que o próximo papel higiénico seja feito de palha de arroz.
A Paddy Paper quer dar uma nova vida a um resíduo agrícola que é queimado em grandes quantidades todos os anos. A start-up norte-americana desenvolveu papel higiénico e de cozinha feito a partir de palha de arroz, numa alternativa à pasta de madeira e ao bambu.
Ao longo da última década, o papel higiénico de bambu começou a ganhar expressão como alternativa à utilização de árvores para fabricar um produto que acaba rapidamente na sanita. Agora, a start-up Paddy Paper quer recorrer a uma matéria-prima menos habitual: palha de arroz, um subproduto do cultivo deste cereal.
O projeto nasceu durante uma viagem a Banguecoque, em 2022, quando o cofundador Matt Dye ficou impressionado com os elevados níveis de poluição atmosférica. Percebeu então que o problema não resultava apenas das emissões do trânsito automóvel ou das fábricas, mas também das explorações agrícolas nos arredores da cidade, onde eram queimadas milhões de toneladas de palha deixadas nos campos depois da colheita do arroz.
“Todo o fumo proveniente dos campos acabava simplesmente por se deslocar até Banguecoque”, explica.
Por vezes, a cidade fica tão afetada pelo fumo proveniente das explorações agrícolas que as escolas chegam a encerrar e as pessoas são aconselhadas a trabalhar a partir de casa. E o problema não se limita à Tailândia: em todo o mundo, são queimadas anualmente cerca de 450 milhões de toneladas métricas de palha de arroz, contribuindo tanto para a poluição atmosférica como para as emissões responsáveis pelas alterações climáticas.
Os agricultores queimam a palha porque esta praticamente não tem valor económico. Mas Dye, que na altura trabalhava numa start-up dedicada a biomateriais, começou a questionar-se sobre a possibilidade de lhe dar uma utilização.
O potencial da palha de arroz
A principal oportunidade que o empreendedor identificou foi transformá-la em papel higiénico, resolvendo assim dois problemas em simultâneo. Atualmente, a maior parte do papel higiénico é produzida a partir de pasta de madeira.
“Cultivamos árvores durante décadas e depois utilizamo-las durante segundos”, afirma Dye.
Segundo a Fast Comany, grandes fabricantes, como a Procter & Gamble, obtêm fibras das florestas boreais do Canadá, onde todos os anos são abatidos mais de um milhão de acres de árvores, segundo a organização ambiental NRDC. O papel de cozinha é produzido da mesma forma, constituindo outra oportunidade para a empresa. Nos últimos anos têm surgido outras alternativas. Marcas como Who Gives a Crap, Caboo e Reel Paper tiveram sucesso com produtos à base de bambu.
Ainda assim, existe o risco de que o aumento da produção de bambu acabe também por substituir áreas florestais ou terrenos agrícolas.
A palha de arroz poderá ainda apresentar algumas vantagens relativamente ao papel reciclado. Atualmente, como os talões de compra acabam misturados nos fluxos de reciclagem de papel — e estes podem conter os químicos BPA e BPS, associados a alterações hormonais —, essas substâncias podem acabar por estar presentes no papel higiénico reciclado.
O cultivo de arroz utiliza pesticidas, mas Dye defende que o processo de transformação em pasta de papel permite decompor eventuais resíduos dessas substâncias.
Como tudo começou
Os fundadores encontraram na Tailândia uma empresa que já produzia embalagens para comida takeaway a partir de palha de arroz. Nunca tinha fabricado papel higiénico ou papel de cozinha e ninguém sabia ao certo se isso seria sequer possível. Ainda assim, decidiu colaborar com a start-up no processo de investigação e desenvolvimento.
As fibras da palha de arroz são mais rígidas do que as fibras da pasta de madeira, o que torna o seu processamento mais difícil.
“Tivemos de desenvolver um processo de produção de pasta e de papel tissue que tornasse estas fibras suficientemente flexíveis para criar uma folha macia e, ao mesmo tempo, suficientemente resistentes para permanecerem unidas”, revela Dye.
Depois de o produtor da pasta ter conseguido atingir determinadas especificações técnicas, a start-up iniciou uma longa fase de testes com um fabricante de papel tissue, ajustando diferentes etapas do processo, desde a refinação e os tratamentos enzimáticos até à própria formação das folhas.
A Paddy Paper está a testar o mercado com um lançamento limitado. A empresa vende atualmente uma caixa de 12 rolos de papel higiénico de três folhas por 14,99 dólares (cerca de 12,93 euros), enquanto produtos semelhantes à base de bambu podem custar cerca do dobro. O papel de cozinha feito com palha de arroz começa nos 11,99 dólares (10,35 euros9. por um pack de seis rolos.
Nesta fase, a start-up pretende recolher feedback dos consumidores e continuar a aperfeiçoar a qualidade e o desempenho dos produtos.
A disponibilidade de matéria-prima, contudo, não deverá ser um problema. Segundo Matt Dye, existe palha de arroz suficiente para, em teoria, substituir integralmente a fibra de madeira utilizada na produção de papel higiénico.
Dye estima que sejam geradas anualmente entre 1,6 e 2 mil milhões de libras de palha de arroz em todo o mundo, um volume que, na sua perspetiva, poderá permitir substituir a pasta de madeira neste tipo de produtos.








