Opinião

Apoio à navegação para um gestor global

Carlos Sezões, Managing Partner da Darefy
Foto: Carlos Sezões

“O mundo está cada vez mais igual”, dizia-me alguém há uns dias, quando falávamos de viagens. Sim e não, disse na altura, e reitero aqui por escrito.

Se, visualmente, as grandes cidades globais (nomeadamente, os business districts) nos parecem relativamente similares – nos arranha-céus de escritórios, no dress code dos transeuntes ou até (passe a publicidade) nos McDonald’s, Starbucks ou Pizza Hut’s desta vida, que invariavelmente encontramos em qualquer esquina, o software social (sim, a cultura) continua diverso.

Nesta economia globalizada, quem trabalha neste meio interage cada vez mais com clientes ou parceiros das mais diversas origens culturais. Como exemplo pessoal, na última década e meia, já lidei, em contextos profissionais, com interlocutores de geografias tão diferentes como Brasil, Alemanha, EUA, Gana, África do Sul, Angola ou Coreia do Sul. Nuns casos, as interacções foram fáceis e fluídas, noutras lentas e com muitos “grãos na engrenagem” da compreensão. Sempre tive a convicção que uma gestão intercultural eficaz, com atenção às diversas variáveis “comportamentais”, é essencial para garantir uma colaboração profícua e evitar mal-entendidos que podem prejudicar o sucesso de um negócio ou de um recrutamento executivo.

Reli há umas semanas um fantástico livro que resume bem o que devemos ter em atenção nas relações que estabelecemos pelo mundo. O The Culture Map, de Erin Meyer (professora do INSEAD, que esteve há pouco tempo em Portugal), propôs-se decifrar como as pessoas pensam, lideram e fazem acontecer em diferentes culturas. Com uma abordagem mais pragmática que os tradicionais modelos de Trompenaars e Hofstede, propostos há umas décadas, Erin proporciona insights sobre as nuances culturais que afetam a comunicação e a colaboração, oferecendo estratégias práticas para preencher algumas lacunas. Propõe escalas que moldam o comportamento no local de trabalho de cada cultura – desde a comunicação, ao feedback, da persuasão, à tomada de decisão. Não querendo ser spoiler de eventuais leitores deste livro, foco-me apenas em três que acho particularmente relevantes.

Primeiro, a comunicação. Em muitas culturas, teremos de assumir uma comunicação precisa e direta ao assunto – dita de “baixo contexto”. As mensagens principais são repetidas várias vezes, e o objetivo da comunicação é expresso explicitamente – muito visível em culturas anglo-saxónicas como por exemplo, os EUA. Noutros casos, a comunicação é mais densa e por camadas – dita de “alto contexto”. As mensagens são sinalizadas, não ditas explicitamente ou ditas exigindo-nos “ler nas entrelinhas (visível em culturas orientais, como o Japão).

Em segundo, a liderança. Em muitas culturas, existe um percepção “igualitária”, em que o líder de equipas é considerado por estas como “um de nós”, sendo o seu papel mais facilitador do que controlador (por exemplo, no norte da Europa). Noutras, uma perceção mais hierárquica, em que a distância entre o gestor e o colaborador é elevada – o líder tem autoridade e uma posição forte que o distingue claramente dos seus pares (por exemplo, na Rússia ou na América Latina). Devemos ter esta variável em atenção quando, por exemplo, esperamos mais proactividade de uma equipa.

Em terceiro, a confiança. Em várias geografias, a confiança é construída através do mérito e dos compromissos cumpridos – se alguém é capaz de fazer um bom trabalho, merece confiança (modelo task-based, por exemplo, na Europa Central). Noutros casos, será baseada no relacionamento: é construída ao partilhar refeições ou no convívio familiar – na óptica “confio em si como pessoa” (modelo relationship-based por exemplo, no Médio-Oriente).

Nunca esquecer, por último, que cultura não é determinística, mas estabelece uma “amplitude de comportamentos”, e é dentro desse intervalo que cada indivíduo faz uma escolha.

Em suma, uma “navegação” global bem-sucedida requer auto-consciência cultural e adaptabilidade. Como refere Erin no seu livro, só quando começamos a identificar o que torna uma cultura diferente é que podemos começar um diálogo e uma efectiva compreensão.

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Carlos Sezões

Carlos Sezões

Carlos Sezões é atualmente Managing Partner da Darefy – Leadership & Change Builders, startup focada na transformação organizacional/ cultural e no desenvolvimento do capital de liderança das empresas. Foi durante 10 anos Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search. Começou a sua carreira no Banco BPI em 1999. Assumiu depois, em 2001, funções de Account Manager do portal de e-recruitment e gestão de carreiras www.expressoemprego.pt (Grupo Impresa). Entrou em 2004 na área da... Ler Mais..

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