Inteligência artificial impulsiona nova vaga de investimento em start-ups jurídicas

Foto: Mohamed_hassan por Pixabay

O financiamento mundial de empresas de tecnologia jurídica atingiu os 2,1 mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros) no primeiro semestre de 2026. Da automatização de contratos à preparação de processos judiciais, os investidores identificaram 13 start-ups com potencial para transformar o setor.

A inteligência artificial está a transformar a tecnologia jurídica, uma área que durante muito tempo foi considerada pouco atrativa pelos investidores devido à dimensão limitada do mercado, aos processos de venda demorados e à resistência à mudança por parte dos clientes.

O aparecimento do ChatGPT e o desenvolvimento de modelos avançados de IA alteraram este cenário. Processos comerciais que anteriormente podiam prolongar-se durante anos passaram, em alguns casos, a ser concluídos em semanas, enquanto novas empresas começaram a aplicar esta tecnologia a tarefas tradicionalmente realizadas por advogados.

De acordo com dados da Crunchbase citados pelo Business Insider, as start-ups jurídicas captaram 2,1 mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros) em todo o mundo durante o primeiro semestre de 2026. O crescente interesse dos investidores levou a publicação norte-americana a consultar vários responsáveis de fundos de capital de risco para identificar as empresas mais promissoras do setor avaliadas em menos de mil milhões de dólares.

Tecnologia quer tornar a justiça mais acessível

Entre as empresas destacadas encontra-se a Atticus, que ajuda pessoas com deficiência ou vítimas de acidentes nos Estados Unidos a perceber que tipo de apoio jurídico necessitam, colocando-as depois em contacto com advogados ou organizações sem fins lucrativos.

A empresa já captou mais de 100 milhões de dólares (cerca de 87 milhões de euros) e presta apoio a cerca de 115 mil pessoas por ano. Segundo a start-up, os seus clientes já conseguiram obter mais de 7 mil milhões de dólares (o equivalente a 6 mil milhões de euros) em apoios públicos, indemnizações e benefícios acumulados.

A Soxton, por sua vez, combina Inteligência Artificial com acompanhamento prestado por advogados para ajudar start-ups a resolver tarefas jurídicas associadas à criação e ao desenvolvimento inicial de uma empresa. Desde o lançamento, em dezembro, terá sido utilizada por mais de 800 empresas, contando já com milhares de potenciais clientes em lista de espera.

Também a Manifest OS pretende aumentar o acesso a serviços jurídicos. A empresa recruta advogados para trabalharem sob a sua estrutura, disponibilizando-lhes tecnologia e apoio administrativo para que possam acompanhar mais clientes. Inicialmente focada na imigração empresarial, a start-up afirma já ter processado mais de três mil pedidos de visto.

Júris simulados e assistentes para tribunais

Uma das propostas mais diferenciadoras é a da Courtroom, uma plataforma que permite às equipas de contencioso testar os seus argumentos perante júris e juízes simulados por Inteligência Artificial.

Os advogados podem carregar documentos relacionados com um processo e analisar a forma como diferentes argumentos, testemunhos e narrativas poderão ser recebidos. A empresa saiu do modo reservado em junho, contando com o apoio de investidores que incluem colaboradores da OpenAI e o braço de capital de risco da Relativity.

Já a Learned Hand funciona como uma espécie de oficial de justiça ou assistente jurídico digital. A tecnologia ajuda juízes e funcionários dos tribunais a analisar requerimentos, pesquisar legislação e preparar decisões judiciais.

A plataforma já é utilizada por sistemas judiciais de dez estados norte-americanos, incluindo o Supremo Tribunal do Michigan, e está a ser testada no condado de Los Angeles. A empresa captou 5 milhões de dólares (cerca de 4,34 milhões de euros).

Contratos e conhecimento interno no centro das atenções

Várias das start-ups selecionadas procuram reduzir o tempo dedicado à elaboração e análise de contratos.

A GC AI, que captou 73 milhões de dólares (63 milhões de euros), desenvolveu uma plataforma para departamentos jurídicos internos. A tecnologia ajuda a redigir contratos, rever cláusulas e encontrar respostas nos documentos das empresas. A startup afirma contar já com cerca de 1.900 clientes.

Também direcionada para equipas jurídicas empresariais, a Sandstone liga-se aos sistemas e bases de dados das organizações para responder a questões, encaminhar pedidos e apoiar a elaboração e análise de acordos.

A empresa captou 40 milhões de dólares (cerca de 34 milhões de euros) e registou um crescimento das receitas superior a 40 vezes num período de 90 dias. Entre os seus clientes encontram-se empresas como Wayfair, Mercury, MasterClass e ElevenLabs.

A Crosby segue um modelo diferente, ao apresentar-se como uma sociedade de advogados apoiada por tecnologia. Em vez de vender apenas uma ferramenta, presta diretamente serviços jurídicos a empresas, sobretudo startups em fases iniciais.

A empresa, que já captou 86 milhões de dólares (75 milhões de euros), combina o trabalho de advogados com software desenvolvido sobre modelos avançados de IA. Cada contrato analisado permite ainda alimentar uma base de dados própria, que poderá melhorar progressivamente a qualidade do serviço.

A DeepJudge, fundada por antigos investigadores da Google em Zurique, procura organizar e disponibilizar o conhecimento já existente dentro das sociedades de advogados. A plataforma pesquisa documentos, mensagens de correio eletrónico e trabalhos anteriores, ligando essa informação a agentes e processos automatizados.

A empresa angariou 53 milhões de dólares (46 milhões de euros) e trabalha com sociedades internacionais como Freshfields, Holland & Knight, Cozen O’Connor e Greenberg Traurig.

Patentes tornam-se num dos mercados mais disputados

A gestão de propriedade intelectual é outra das áreas que mais está a atrair start-ups e investidores.

A Patlytics desenvolve soluções para acompanhar todo o ciclo de vida das patentes, desde a comunicação inicial de uma invenção e o pedido de registo até à gestão de portefólios e aos processos judiciais.

A empresa captou 65 milhões de dólares (aproximadamente 57 milhões de euros) e trabalha com quase metade das 100 sociedades de advogados com maiores receitas nos Estados Unidos.

Também a Solve Intelligence aposta na área das patentes. A plataforma ajuda as equipas jurídicas a redigir pedidos, responder às questões colocadas pelas entidades reguladoras e analisar os respetivos portefólios.

A start-up, que angariou 55 milhões de dólares (cerca de 48 milhões de euros), pretende tornar-se numa plataforma central de colaboração entre sociedades de advogados e clientes durante todas as fases do trabalho relacionado com patentes.

Automatizar tarefas sem perder receitas

A Laurel procura resolver uma das tarefas mais demoradas para os advogados: o registo das horas de trabalho faturáveis.

A plataforma acompanha automaticamente a atividade dos profissionais e transforma-a em folhas de horas, evitando que os advogados tenham de reconstruir manualmente a sua semana de trabalho. A tecnologia é utilizada por mais de 150 empresas de serviços profissionais, entre as quais a EY, e a start-up já captou 153 milhões de dólares (cerca de 133 milhões de euros).

Além do registo de tempo, a Laurel pretende ajudar as sociedades a definir preços e a decidir quantos profissionais devem ser envolvidos em cada projeto.

Por fim, a Wexler desenvolveu uma ferramenta que permite aos advogados pesquisar informação nos documentos de um processo e verificar se as provas sustentam os argumentos apresentados.

A plataforma é utilizada por sociedades como Clifford Chance, Goodwin Procter e HSF Kramer e, segundo a empresa, permitiu reduzir em 75% o tempo dedicado a algumas tarefas manuais de análise. A sua solução mais recente consegue ainda identificar, em tempo real, declarações falsas ou contraditórias durante depoimentos e audiências.

Um mercado cada vez mais competitivo

As empresas selecionadas mostram que a aplicação da Inteligência Artificial ao setor jurídico está a avançar em várias direções. Algumas desenvolvem ferramentas para apoiar advogados, enquanto outras prestam diretamente serviços jurídicos apoiados por tecnologia.

Existem ainda soluções direcionadas para departamentos internos, sociedades de advogados, tribunais, startups e áreas altamente especializadas, como o direito de patentes.

O investimento crescente demonstra que a tecnologia jurídica deixou de ser vista como um nicho pouco atrativo. Para os investidores, o desafio passa agora por identificar quais destas empresas conseguirão tornar-se plataformas essenciais num setor em que a precisão, a confiança e o conhecimento especializado continuam a ser determinantes.

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