Opinião

Panini: o preço de completar a caderneta sozinho

Tomás Loureiro, Senior Director of Global Strategic Intelligence na EDP
Foto: Tomás Loureiro

Para completar os 980 cromos da caderneta do Mundial sem fazer uma única troca, seria necessário comprar, em média, cerca de 7.296. O excedente não é uma falha do sistema – é o preço de tentar fazê-lo sozinho. E talvez tenha mais a ensinar sobre pessoas, equipas e organizações do que imaginamos.

“Tenho, tenho, não tenho. Só me falta este”. Para quem passou nos últimos meses por parques, centros comerciais ou até escritórios, estas frases tornaram-se música de fundo, tal foi a febre dos cromos da Panini. Ao início resisti. Depois, meio por brincadeira e muito por nostalgia, comecei a alinhar e, vários anos depois da minha última caderneta, acabei por levar o objetivo bastante a sério. Ainda bem que o fiz. Foi divertido, mas também me recordou algumas ideias importantes sobre liderança e organizações.

Começo pelo número com que me deparei logo nas primeiras semanas: 7.296. A caderneta deste Mundial foi a maior de sempre – 48 seleções, 112 páginas, 980 cromos. Comprando apenas os que fazem falta, um a um, custaria pouco mais de 200 euros. Mas os cromos saem ao acaso, naquela emoção de abrir a saqueta, e existe uma fórmula, criada por um matemático da Universidade de Cardiff, que calcula quantos seria preciso comprar para acabar a coleção sem trocar com ninguém: 7.296. Mais de sete vezes o número de cromos que lá cabem. Cerca de 1.350 euros.

Esse número não é o preço da caderneta. É o preço de a fazer sozinho. Porque a Panini não construiu apenas um jogo de acumular cromos. Construiu um jogo de os trocar.

Todos procurávamos completar exatamente a mesma caderneta. Mas ninguém tinha exatamente os mesmos cromos. Talvez seja essa uma das melhores metáforas para uma organização: o objetivo pode ser comum, mas aquilo que cada pessoa encontra, sabe e traz consigo nunca é igual. Nas empresas, como na vida profissional, podemos tentar fazer quase tudo sozinhos. É possível. Mas avançamos mais devagar, pagamos mais caro e desperdiçamos aquilo que os outros já aprenderam. Tal como nas trocas de cromos, nenhum de nós progride apenas com aquilo que encontra nas suas próprias saquetas. É preciso procurar, negociar, ouvir, perceber o que os outros têm e de que precisam.

O que me leva ao essencial: os repetidos. Quando abrimos uma saqueta, a reação é sempre a mesma. Alegria pelos cromos que ainda não temos. Algum desapontamento pelos que já lá estão. É normal, é a natureza humana. Mas o repetido não é o azar da saqueta. É a moeda. É aquilo que nos permite avançar. E trocar exige ter alguma coisa para oferecer. Quem não tem repetidos tem pouco para oferecer. E quem tem pouco para oferecer participa muito menos na troca.

Na vida profissional acontece exatamente o mesmo. Todos temos repetidos. Os nossos repetidos são as experiências acumuladas, o conhecimento, as competências que desenvolvemos e que podem ser úteis a alguém. O relatório que já fizemos e que outra equipa está prestes a refazer. O fornecedor que já testámos. O erro que alguém, noutra área ou noutra geografia, ainda vai a tempo de evitar. O curioso é que raramente escondemos aquilo que consideramos extraordinário. Guardamos precisamente o que nos parece demasiado simples, demasiado específico ou demasiado banal para interessar aos outros. E é muitas vezes aí que está o maior desperdício.

Também à escala dos países, nem tudo o que parece repetido é desperdício. Durante décadas, tratámos qualquer redundância como ineficiência. Hoje, num mundo mais fragmentado, percebemos que alguma capacidade adicional – industrial, tecnológica ou energética – pode ser o preço da autonomia e da resiliência.

Ter repetidos, porém, não chega. É preciso colocá-los a circular.

A troca não acontece à secretária. Exige dinamismo, curiosidade e disponibilidade para olhar para fora da nossa função, da nossa equipa ou da nossa geografia. Hoje existem aplicações que ajudam a organizar coleções e a encontrar quem tem o cromo que procuramos. Mas continuam a não substituir a troca. É ainda necessário encontrar a outra pessoa, conversar, entregar um cromo e receber outro. A tecnologia ajuda-nos a descobrir quem tem o cromo. A confiança continua a ser aquilo que permite que a troca aconteça. Também nas empresas, algumas das interações mais importantes continuam a nascer num corredor, num café, numa pergunta feita à pessoa certa ou numa conversa que nunca esteve na agenda.

E depois há uma forma ainda mais poderosa de troca: aquela em que não exigimos receber imediatamente alguma coisa em retorno. Foi talvez a parte mais bonita desta experiência. Cromos oferecidos a quem precisava. Repetidos entregues a miúdos que mal se conheciam. E aquilo acabava quase sempre eventualmente por voltar, embora raramente da mesma pessoa ou no mesmo dia.

Nas organizações, acontece o mesmo. É o email enviado a uma equipa que está prestes a repetir um erro nosso. A informação partilhada sem qualquer benefício imediato. A preocupação genuína com o sucesso da equipa do lado. Pouco disso entra em objetivos formais. E, no entanto, é não só altamente gratificante como pode ser das coisas mais valiosas que fazemos numa semana, sobretudo quando todos sabem qual é a caderneta que estão a tentar completar. Partilhar proactivamente e trabalhar colaborativamente tem um impacto e um retorno muito maior do que aquilo que pensamos.

Há ainda outra lição importante. Nos miúdos, e também nos graúdos, há sempre uma emoção especial em encontrar o Messi ou o Ronaldo. Mas esses nem sempre são os cromos que ficam por encontrar até ao fim. A estrela do torneio ocupa exatamente o mesmo espaço que o segundo guarda-redes do Uzbequistão. Um pode ser mais desejado. Nenhum é menos necessário para completar a coleção. Nas organizações, temos tendência para celebrar os grandes negócios, os projetos transformacionais e as inovações que chegam às manchetes. Mas uma empresa avança através de uma sucessão de coisas que raramente têm palco: um processo melhorado, um cliente bem acompanhado, um risco identificado a tempo, um problema resolvido antes de se tornar uma crise.

Com as pessoas é igual. Umas têm mais exposição do que outras. Mas não há cromo demasiado pequeno quando ainda existe um espaço em branco.

Talvez por tudo isto, aquilo de que mais nos recordamos numa caderneta não seja o momento em que a completámos. Se esse fosse o único objetivo, bastaria pedir à Panini os cromos em falta. O que recordamos são as saquetas abertas, os cromos difíceis, as estratégias que resultaram e, acima de tudo, as pessoas com quem partilhámos a aventura. Quem completa a caderneta sabe o que procurou, o que ofereceu, em quem confiou e a quem poderá voltar a recorrer. Quem compra o resultado fica com o mesmo objeto, mas não construiu nada disso.

Vivemos numa época em que quase tudo parece ter uma versão equivalente à “caderneta já preenchida”: o plano que chega pronto, a apresentação impecável que não resiste à primeira pergunta difícil, a resposta imediata sem o percurso necessário para compreender verdadeiramente o problema. A tecnologia pode ajudar-nos a chegar mais depressa ao resultado. Não substitui aquilo que aprendemos, nem as relações que construímos para lá chegar.

No fim, ninguém completa uma caderneta sozinho. E quem tenta paga mais de sete vezes o preço.

Porque uma caderneta não se completa apenas com cromos. Completa-se com pessoas.

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Tomás Loureiro

Tomás Loureiro

Tomás Loureiro é Senior Director of Global Strategic Intelligence na EDP, responsável pela inteligência estratégica do Grupo e por apoiar o Board e o Leadership Team na definição da estratégia, através de pensamento crítico, foresight e conhecimento de mercado. Anteriormente, ocupou o cargo de Head of Innovation Intelligence & Strategy na EDP, liderando a definição da estratégia global de inovação e das apostas futuras do Grupo. Representa a EDP em fóruns executivos como a Eurelectric e o World Economic Forum.... Ler Mais..

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