Nem um azarado, nem demasiado emotivo. A virtude está no meio. Parecer muito satisfeito e gabar-se sobre si no trabalho pode acarretar dificuldades com os seus colegas ou com o seu chefe.

Você é livre de adotar a pose que quiser no trabalho. Pode mostrar as suas emoções ou mesmo decidir ser autêntico… inclusivamente demasiado autêntico.

Alguns acreditam que o mais conveniente é mostrar-se muito feliz… demasiado satisfeito. No entanto, esse excesso de felicidade, que em certas ocasiões é chocante, pode acarretar dificuldades com o chefe ou os colegas de trabalho.

Não se trata de alardear desgraças, pois isso faz parte da fauna tóxica do escritório que nos amargura a vida. Além de que não compensa ser o tipo de profissional que cria mais conflitos do que os que pode resolver; que mostra uma sinceridade excessiva acerca dos seus problemas pessoais; ou que torna pública a sua negatividade para com os companheiros, o trabalho, o chefe ou até a sua vida privada; nem compensa ser um viciado em vibrações positivas.

O site espanhol Expansión partilhou algumas sugestões para que possa perceber o grau de felicidade que deve mostrar no seu trabalho.

Bondade falsa

Regino Quirós, sócio diretor da empresa espanhola Be Up, acredita que “o excesso na hora de mostrar a nossa satisfação laboral é identificado com bondade com falsidade. A dúvida está em qual é a intenção e que emoção se decide expressar. Está relacionado com a autenticidade de cada um. Além disso, a capacidade dos outros para detetar a coerência é muito grande. Uma coisa é gerar vibrações positivas e outra é aquele que se excede na aparência de felicidade ou tem a mania de que vive bem. É um tóxico fácil de detetar. Ou é real ou só um grande ator pode fazer isso”.

Já Ovidio Peñalver, sócio diretor da consultora espanhola Isavia, concorda com a necessidade de ser assertivo na expressão emocional: “Trata-se de expressar e dizer o que verdadeiramente pensamos e sentimos, procurando a forma e o momento de o fazer. O risco de não se pôr uma máscara e mostrar emoção é que a pessoa pode mostrar-se muito agressiva. Mas o perigo do oposto é mostrar-se falso e mostrar cara de papel moldado. Se não houver coerência entre o que se diz e o que se sente, isso resulta numa falta de credibilidade. A felicidade é uma emoção e os sentimentos não se podem ocultar. Vai sempre notar-se quando alguém está a fingir. Sem esquecer que, além disso, as emoções positivas são contagiantes, tal como a infelicidade”.

Peñalver acrescenta que, efetivamente, é possível tomar a decisão de mostrar um excesso de satisfação laboral, mas isso pode tornar-se perigoso e prejudicial: “Para começar, há invejosos, e há quem se incomode de que você seja feliz, e verão em si um lambe-botas. Depende basicamente da cultura da sua empresa, do seu chefe e dos seus colegas. Há culturas nas quais isso é bem visto, e até há responsáveis pela felicidade na empresa. Algum chefe pode pensar que está a trabalhar bem, se você mostrar satisfação, mas há-os que podem pensar que não trabalha o suficiente. E o mesmo se passa com os colegas”.

Peñalver insiste no risco que implica expor este excesso de felicidade. Se alguém não está bem, é porque não foi suficientemente trabalhado. E ainda há mais inconvenientes, como o facto de não poder pedir mais (ordenado, projetos) já que, se o faz, parece que não tem trabalho suficiente.

Juan San Andrés, consultor de organização, também concorda que “alguns chefes associam automaticamente um empregado feliz com o facto de que está satisfeito com as suas condições atuais. Se um chefe o vê sempre feliz, pode concluir que está bem emocionalmente e dedicará os recursos habitualmente escassos a fazer feliz outro que se mostre queixoso”.

Mostrar geralmente demasiada disposição no posto de trabalho pode ser um problema, se tivermos um chefe que toma decisões baseando-se em indícios superficiais. San Andrés acredita que “uma demostração explícita de bem-estar emocional pode induzir uma direção a concentrar os seus esforços em apagar outros fogos: os de outros colegas que se mostram descontentes e queixosos”.

É verdade que há decisões importantes que se tomam, baseando-se nas primeiras impressões e que estas, com frequência, se baseiam em indícios gestuais e em expressões emocionais. Os chefes pouco analíticos podem cair nestes erros e os “profissionais da queixa” sabem-no muito bem.

Suspeitas injustas

A isto San Andrés acrescenta que “há chefes partidários de controlar as pessoas, das quais suspeitam que estão contentes”. Se quem manda em si é do tipo perigoso que, ao vê-lo alegre, o penaliza num aumento de ordenado ou numa promoção, terá que aprender a moderar as suas expressões de entusiasmo e a dosear alguma queixa com talento. San Andrés conclui que “está claro que nestes casos o problema é sentido pelas pessoas que estão quase sempre de bom humor, já que serão os primeiros prejudicados. Conhecer o próprio chefe é vital para o controlar. Necessitamos de saber quais são os mecanismos de decisão e avaliação dos nossos diretores e atuar de modo inteligente. Ninguém age racionalmente em 100% do tempo. Os chefes igualmente, e há que o saber”.

O especialista conclui que “o facto de isto ocorrer numa empresa está relacionado, além de com o tipo e a qualidade do chefe que cada um tenha, com a cultura da empresa e com a sua sofisticação organizativa. Naquelas onde costuma haver uma atmosfera de sucesso e positivismo, ocorrem poucos riscos por mostrar entusiasmo. Quando existem bons processos de revisão salarial e avaliação, e os empregados são conhecidos fora dos seus departamentos e por vários chefes, as decisões tendem a ser bem fundamentadas”.

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