Opinião

O Business Plan que faz falta

Nuno Madeira Rodrigues, da Fieldfisher Portugal*
Foto: Nuno Madeira Rodrigues

Se lhe perguntarem qual é o plano estratégico da empresa onde trabalha, provavelmente conseguirá identificar as principais prioridades, objetivos e metas para os próximos anos. Mas se lhe perguntarem qual é o plano estratégico da sua própria vida profissional, qual seria a resposta?

Durante décadas, habituámo-nos a ouvir que nenhuma empresa deve operar sem um business plan. Antes de lançar um produto, entrar num novo mercado ou realizar um investimento significativo, é esperado que existam objetivos, previsões, métricas, riscos identificados e uma estratégia clara. No entanto, raramente aplicamos a mesma disciplina à gestão da nossa própria carreira.

A verdade é que a maioria dos profissionais consegue explicar o plano estratégico da sua empresa melhor do que consegue explicar o seu próprio plano pessoal. Sabem quais são as metas comerciais da organização, os objetivos da equipa ou os indicadores de desempenho exigidos para o ano em curso. Mas quando questionados sobre onde pretendem estar dentro de três ou cinco anos, quais as competências que procuram desenvolver ou qual o nível de responsabilidade que desejam alcançar, as respostas tornam-se frequentemente vagas.

Talvez isso aconteça porque fomos educados a acreditar que a carreira deve evoluir de forma natural. Trabalhamos, acumulamos experiência, demonstramos competência e, eventualmente, surgem oportunidades. Embora exista alguma verdade nesta visão, a realidade demonstra que as carreiras mais consistentes tendem a ser aquelas que resultam de escolhas deliberadas e não apenas de circunstâncias favoráveis.

Construir um business plan pessoal não significa transformar a vida numa folha de cálculo. Significa, isso sim, refletir sobre questões fundamentais. Que rendimentos pretendemos atingir? Que funções gostaríamos de desempenhar? Que competências serão necessárias para lá chegar? Que formação precisamos de realizar? Que experiências devemos procurar? E, não menos importante, que sacrifícios estamos dispostos a fazer para concretizar esses objetivos?

Tal como acontece numa empresa, também o plano pessoal deve incluir metas concretas e mensuráveis. É difícil alcançar um destino quando não sabemos para onde queremos ir. Ambições genéricas como “crescer profissionalmente” ou “ganhar mais dinheiro” são insuficientes. É a definição clara dos objetivos que permite transformar intenções em decisões.

Existe igualmente uma componente de análise de riscos. As organizações avaliam permanentemente dependências, ameaças e vulnerabilidades. Os profissionais deveriam fazer o mesmo. Até que ponto a nossa empregabilidade depende de uma única competência? Estamos preparados para mudanças tecnológicas, novas exigências do mercado ou alterações no setor em que trabalhamos? O desenvolvimento contínuo deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade.

Naturalmente, um business plan pessoal não deve ser visto como um exercício isolado. Pelo contrário, os melhores resultados surgem quando existe alinhamento entre as ambições individuais e os objetivos das equipas e organizações onde cada um se insere. Quando uma empresa ajuda os seus colaboradores a crescer e estes, por sua vez, contribuem para o crescimento da organização, cria-se uma relação de benefício mútuo extremamente poderosa.

Também por essa razão, as conversas sobre progressão profissional deveriam acontecer com maior frequência. Não apenas durante avaliações formais de desempenho, mas ao longo do ano. As organizações ganham quando conhecem as aspirações das suas pessoas. E os profissionais ganham quando conseguem enquadrar o seu desenvolvimento num contexto mais amplo.

Talvez esteja na altura de encararmos as nossas carreiras com a mesma seriedade com que encaramos as empresas para as quais trabalhamos. Afinal, cada um de nós é, em certa medida, o gestor do seu próprio projeto profissional. E tal como qualquer empresa que pretende crescer de forma sustentável, também nós beneficiamos de saber onde estamos, para onde queremos ir e qual o caminho que escolhemos para lá chegar.

A verdadeira questão é simples: se a sua carreira fosse uma empresa, um investidor colocaria hoje o seu dinheiro nela? E, mais importante ainda, conseguiria explicar-lhe qual é o plano para os próximos cinco anos? Se a resposta for não, talvez esteja na altura de escrever o business plan mais importante da sua vida.

*Nuno Madeira Rodrigues, Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário da Fieldfisher Portugal

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Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Senior Associate da Fieldfisher Portugal e Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário. Anteriormente foi coordenador do Departamento de Direito Imobiliário na Pinto Ribeiro Advogados, Country Manager PT Arnold Investments, Chairman da BDJ S.A, Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É ainda Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários,... Ler Mais..

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