Opinião

O candidato ideal escolhe-se (também) pelo carácter

Catarina Vicente, consultora de recrutamento e seleção do Clan
Foto: Catarina Vicente, Clan

A escassez de talento é uma realidade transversal a vários setores de atividade em Portugal. Para além da tecnologia, também a indústria, a energia, a construção e o setor automóvel sentem dificuldades crescentes na contratação de profissionais técnicos especializados.

O envelhecimento da força de trabalho, a diminuição do interesse das gerações mais jovens por carreiras técnicas e o aumento da competitividade entre empresas têm vindo a acentuar um desequilíbrio estrutural entre a oferta e a procura.

Neste contexto, é natural que as organizações priorizem as competências técnicas: certificações obrigatórias, experiência comprovada, domínio de equipamentos específicos ou conhecimento de normas técnicas. Estas hard skills são, sem dúvida, indispensáveis. Contudo, se o mercado oferece um número limitado de profissionais totalmente alinhados com todos os requisitos técnicos, importa questionar se uma avaliação exclusivamente focada na vertente técnica será suficiente para garantir desempenho consistente e estabilidade a médio e longo prazo.

Porque não  dar mais atenção às soft skills e ao muitas vezes discreto, mas determinante, papel que assumem? Valências como responsabilidade, compromisso, capacidade de trabalhar em equipa, comunicação clara, gestão de stress e proatividade têm impacto direto na eficiência, na segurança e na qualidade do trabalho realizado. Um profissional pode dominar tecnicamente a sua função, mas se não comunicar uma falha atempadamente, se não cumprir rigorosamente os procedimentos ou se não colaborar de forma eficaz com a equipa, pode implicar um aumento de riscos, tanto ao nível dos resultados, como da segurança operacional.

Em funções técnicas como as de um eletricista, técnico de manutenção ou de mecânica, a capacidade de atuar sob pressão, manter o controlo emocional e tomar decisões ponderadas em situações críticas é tão relevante quanto o conhecimento técnico. A realidade do terreno exige mais do que saber executar tarefas: exige maturidade, responsabilidade e capacidade de articulação com colegas, supervisores e outros departamentos, sempre com respeito pelas normas e prazos exigentes.

Por outro lado, num cenário de escassez, torna-se também cada vez mais estratégico contratar pelo potencial. Nem sempre será possível encontrar profissionais com experiência específica em todos os equipamentos ou sistemas utilizados pela organização. No entanto, candidatos com forte capacidade de aprendizagem, atitude construtiva e abertura ao desenvolvimento tendem a integrar-se mais rapidamente e a evoluir de forma sustentada. As competências comportamentais, neste sentido, funcionam como aceleradores de crescimento e facilitadores de integração.

Quando a oferta de perfis técnicos é reduzida, pode ser mais eficaz identificar profissionais com uma base sólida de responsabilidade e compromisso e investir na sua formação técnica. As competências práticas podem ser desenvolvidas internamente, ajustadas à realidade e aos processos específicos da empresa. Já a postura, a ética de trabalho e o alinhamento com a cultura organizacional são características mais profundas e de molde menos imediato.

Mais do que um fenómeno temporário, a escassez de perfis técnicos em Portugal é uma tendência estrutural. Ignorar esta realidade pode comprometer a capacidade das empresas para construir equipas estáveis e preparadas para os desafios futuros. É por isso que a resposta está nas soft skills, que não devem ser vistas como uma competência acessória, mas antes como uma necessidade crítica e um diferencial estratégico num mercado cada vez mais competitivo e exigente.

As hard skills continuam essenciais, sobretudo em contextos onde o rigor técnico é inegociável. No entanto, são as competências comportamentais que sustentam a consistência, a colaboração e a evolução das equipas ao longo do tempo. Num contexto de escassez estrutural de talento, a identificação de soft skills num candidato podem muito bem ser a chave para formar um colaborador com todas as hard skills do perfil técnico desejado.

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