Opinião

As célebres omeletes sem ovos!

Pedro Alvito, professor de Política de Empresa da AESE Business School
Foto: Pedro Alvito

“O mais importante da mudança é sabermos o que não devemos mudar”, dizia sempre o saudoso Prof. Luis Calleja. Parece-me uma coisa muito estranha, mas atualmente tudo é possível.

Já vi receitas de arroz-doce sem arroz e sem açúcar, receitas de fatias douradas (vulgo rabanadas) sem pão e sem leite, almondegas sem carne, até pão de queijo sem queijo, hambúrguer recheado com queijo e cogumelos que não leva nem carne nem queijo e uns brigadeiros de chocolate que não levam leite condensado nem chocolate e que se comem, imagine-se, numa taça à colher. Com tudo isto, fazer omeletes sem ovos parece-me uma brincadeira de crianças!

Parece-me que os autores destas receitas estão todos a dar voltas nos túmulos. O que mais me impressiona não é a criatividade destes novos autores, mas sim a apropriação do nome para algo que não tem nada a ver. Claramente parece-me um abuso dos direitos de autor e até demonstra pouca capacidade de inventar novos nomes para novas receitas. Mas, no fundo, o aproveitamento é este: servir algo com um nome que lembra a saudade, mas que não tem nada que ver com o original. É um pouco como comprar uns ténis de marca na feira que, obviamente, não são de marca, não vão ter a qualidade, conforto e durabilidade dos originais, mas permitem mostrar que se usam ténis que se parecem com os de uma marca, da mesma forma que se come algo que parece mas não é. É conhecida a guerra ganha pelo leite que permitiu proibir o uso da referência a leite a algo que, obviamente, não era leite.

São assim as bandas de tributo: parecem, mas não são, porém, pelo menos, anunciam-se como tal, existindo até E aquelas que, segundo dizem alguns entendidos, são tão boas ou melhores que os originais – como se isso fosse possível.

Nas nossas empresas este fenómeno também existe, mas ao contrário. Para não se chamar o nome que é inventam-se designações. Conheço uma empresa em que todos são diretores ou técnicos. É a senhora da limpeza que agora se chama técnica do bom ambiente, até ao condutor de empilhadores que se chama técnico de máquinas em movimento. Uma grande multinacional, com a qual trabalhei em Inglaterra, era assim. Todos apareciam a dar-nos cartões de visita (ainda se usavam) e eram sempre diretores, tanto que nunca sabia se se estava a falar com o CEO da empresa ou apenas com o responsável das compras. Inclusive um dia apareceu-me um elemento dessa empresa com o cartão a dizer Diretor de Cronograma. Sem me rir (mas com muita vontade), perguntei-lhe qual era a função dele. Explicou-me que ele fazia o controlo de todo o processo de instalação da fábrica e, ao mínimo desvio, cumpria-lhe dar imediatamente sinal e encontrar com os responsáveis a solução. Evidentemente ficou conhecido entre nós pelo homem do apito.

Cada vez mais me preocupa esta gestão do faz de conta que se preocupa com o irrelevante, deixando o relevante por decidir. E assim temos gestores a intervir constantemente no trabalho dos outros, em vez de fazer o que lhe compete que é gerir. Se alguém quiser experimentar não tem nada a enganar, qualquer um sabe fazer omeletes sem ovos.


Pedro Alvito é, desde 2017, professor na AESE, onde leciona na área de Política de Empresa, tendo dado aulas também na ASM – Angola School of Management. Autor de duas dezenas de case studies publicados pela AESE e de dois livros publicados pela Editora Almedina – “Manual de como construir o futuro nas empresas familiares” e “Um mundo à nossa espera, manual de globalização”. Escreve regularmente em vários órgãos de comunicação social especializada. Desde 2023 é presidente do Conselho de Família e da Assembleia Familiar do grupo Portugália e membro do Conselho Consultivo da GWIKER.

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