Opinião

Que saudades de um trabalho com erros ortográficos e do “Mas porquê?”

Rui Ribeiro, professor da Universidade Lusófona e consultor de Transformação Digital
Foto: Rui Ribeiro, professor da Universidade Lusófona e consultor de Transformação Digital

Há algo de estranho nas salas de aula atuais. Trabalhos impecavelmente escritos, frases estruturalmente perfeitas, textos organizados, sem erros ortográficos, sem hesitações e, muitas vezes, sem alma.

Pela primeira vez na história da educação, começamos a desconfiar de um trabalho demasiado bem escrito. E isso diz muito sobre o momento que vivemos.
A inteligência artificial entrou no ensino de forma silenciosa, rápida e profundamente transformadora. Hoje, qualquer aluno consegue produzir relatórios, resumos, apresentações ou análises em poucos minutos, com uma qualidade formal que, há poucos anos, exigiria horas de dedicação. O problema é que saber entregar um resultado final não significa saber construir esse resultado. E esta diferença é crítica.

Durante décadas, o processo de aprendizagem foi construído precisamente no esforço do “fazer”: pesquisar, errar, reescrever, interpretar, testar hipóteses, falhar e voltar a tentar. E, mesmo com horas de esforço, que exigiam planeamento antecipado, havia sempre alguma vírgula ou letra trocada numa palavra. Era nesse percurso imperfeito que surgia a verdadeira aprendizagem. Um trabalho com erros ortográficos, frases mal construídas ou ideias ainda pouco maduras era, muitas vezes, o reflexo genuíno de alguém em processo de evolução intelectual.

Hoje, porém, corremos o risco de avaliar apenas o produto final e não o caminho percorrido para lá chegar. E isso é perigoso. Porque o mercado não precisa apenas de pessoas capazes de gerar resultados bonitos; precisa de pessoas capazes de pensar criticamente, resolver problemas inesperados, lidar com ambiguidades e adaptar-se a dificuldades reais. Precisa de alguém que saiba enfrentar e reagir rapidamente a uma dificuldade, em vez de “gelar” para ter a oportunidade de perguntar a uma máquina o que tem de fazer.

A capacidade de análise crítica tornou-se, paradoxalmente, um dos maiores desafios da era da inteligência artificial. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas raramente parámos para refletir sobre ela. Os alunos conseguem obter respostas rapidamente, mas muitas vezes têm dificuldade em questionar a validade dessas respostas, compreender os seus limites ou perceber os enviesamentos existentes. O risco é criarmos profissionais altamente eficientes na execução automática, mas frágeis na interpretação e no pensamento estratégico. Já são claros alguns casos de consultores que entregam relatórios perfeitos com fontes inexistentes e dados espetacularmente falsos.

Isto obriga o Ensino Superior (e, provavelmente, todo o modelo educativo), bem como os modelos de onboarding e de controlo de qualidade das empresas, a mudar profundamente. Hoje, um professor já não pode limitar-se a explicar conteúdos. O conhecimento está disponível em qualquer motor de pesquisa ou plataforma de IA. O verdadeiro valor do docente passa, cada vez mais, por criar experiências de aprendizagem que obriguem os alunos a pensar, decidir, errar e corrigir. Em termos práticos, importa incentivar os alunos a tirarem prazer de novo em perguntar: “Mas porquê?”, “Como é que isso acontece?”, “Quando é que ocorre?” ou “Quem é que vai fazer?”.

Torna-se cada vez mais importante criar o “caminho das curvas e contracurvas”. Não basta pedir um projeto final. É necessário obrigar os alunos a passar por dificuldades, ambiguidades, mudanças de contexto e momentos de falha. Porque é precisamente aí que surge a verdadeira aprendizagem. Um aluno que nunca errou dificilmente saberá reagir quando o mercado lhe apresentar problemas sem respostas automáticas.

A tecnologia não deve ser combatida. Pelo contrário. Deve ser aproveitada para elevar o potencial humano. Mas isso exige a mudança dos processos de ensino de base, de integração e de acompanhamento empresarial e de avaliação da execução. O foco não pode estar apenas no resultado entregue, mas também no percurso realizado para chegar até lá. Importa perceber quem pensou, quem questionou, quem iterou, quem aprendeu com o erro e quem simplesmente pediu a uma máquina que gerasse uma resposta elegante.

Talvez por isso comece a surgir uma certa nostalgia de um trabalho com erros ortográficos. Não pelo erro em si, mas porque representava algo genuinamente humano: alguém a aprender e a fazer crescer o conhecimento retido e crítico das empresas. Arriscamo-nos a criar empresas inteligentemente ocas de conhecimento.

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Rui Ribeiro

Rui Ribeiro

Atualmente é professor da Universidade Lusófona e consultor de Transformação Digital, tendo tido várias atividades profissionais, entre as quais Head of Consulting & Technology na Auren Portugal, diretor-geral da IPTelecom, diretor comercial da Infraestruturas de Portugal S.A., diretor de Sistemas de Informação na EP - Estradas de Portugal S.A. e Professional Services Manager da Sybase Inc. em Portugal. Na academia é diretor executivo da LISS – Lusofona Information Systems School, e docente da ULHT. Rui Ribeiro é doutorado em Gestão... Ler Mais..

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