Entrevista/ “Eventos como a JNation têm um papel importante ao mostrar o talento e o trabalho que se faz em Portugal”

Roberto Cortez, fundador da JNation
Foto: Roberto Cortez, fundador da JNation

“A JNation é, acima de tudo, uma conferência feita pela comunidade de developers para developers. É um espaço de reencontro, onde se cruzam caras conhecidas de edições anteriores e antigos colegas que, muitas vezes, não se veem há anos”, afirma Roberto Cortez, fundador da JNation.

A JNation voltou a colocar Coimbra no mapa internacional da comunidade tecnológica. Na sua 9.ª edição, a conferência reuniu cerca de 1200 profissionais de desenvolvimento de software e oradores de empresas como Microsoft, Google, Red Hat, IBM e JetBrains, consolidando-se como um dos principais encontros de developers em Portugal.

Fundada por Roberto Cortez, Java Developer, líder da comunidade Coimbra JUG para entusiastas de Java e tecnologias JVM e único Java Champion português, a JNation nasceu com foco em Java, mas cresceu para acompanhar os grandes desafios da engenharia de software, da cloud à segurança, passando inevitavelmente pela inteligência artificial.

Ao Link to Leaders, Roberto Cortez fala sobre a evolução do evento, o papel de Coimbra na descentralização tecnológica, o talento nacional e as competências que vão marcar o futuro dos developers.

A JNation chegou à sua 9.ª edição. Que balanço faz da evolução do evento desde a primeira edição até hoje?

Sem dúvida um balanço extremamente positivo. Começamos como um pequeno meetup em 2012 e fizemos a primeira edição em 2018 com a expetativa de ter 200 participantes, mas tivemos logo 450. Desde então, o evento tem vindo sempre a crescer e não cresce mais por limitações de espaço! Apesar de termos começado como uma conferência focada em Java, hoje em dia não é apenas Java. Temos seis salas com sessões paralelas que cobrem diversos tópicos na área de desenvolvimento de software, desde Java, Javascript, Segurança, Cloud, e claro, inteligência artificial.

“O nosso primeiro sponsor foi a Red Hat, uma das maiores empresas mundiais de soluções open-source, que na altura não tinha escritórios em Portugal (…)”.

 Em que momento percebeu que a JNation podia tornar-se num evento de referência internacional e não apenas nacional?

Quando preparámos a primeira edição. O nosso primeiro sponsor foi a Red Hat, uma das maiores empresas mundiais de soluções open-source, que na altura não tinha escritórios em Portugal (tem desde 2021) e que deu logo uma grande credibilidade ao evento. Também na primeira edição, tivemos muitos oradores internacionais a contatar-nos porque queriam vir falar na JNation.

 A conferência reúne hoje mais de 1200 participantes e grandes empresas tecnológicas. Qual foi a chave para este crescimento consistente?

A oferta de um programa de sessões que os participantes queiram ver. Tentamos sempre trazer oradores e profissionais das tecnologias que as empresas usam diariamente ou pretendem vir a utilizar, numa componente muito prática. Costumamos dizer, em tom de brincadeira, que se o orador não estiver a mostrar código é convidado a sair da sala. O nosso programa é a parte central da conferência e os participantes sabem que vamos ter sessões de qualidade que lhe vão ser úteis no seu trabalho diário.

“Para muitos portugueses a trabalhar fora do país, é também uma oportunidade para regressar e voltarem a ligar-se à comunidade nacional”.

O que diferencia a JNation de outras conferências internacionais na área de desenvolvimento de software?

A JNation é, acima de tudo, uma conferência feita pela comunidade de developers para developers. É um espaço de reencontro, onde se cruzam caras conhecidas de edições anteriores e antigos colegas que, muitas vezes, não se veem há anos. Para muitos portugueses a trabalhar fora do país, é também uma oportunidade para regressar e voltarem a ligar-se à comunidade nacional. No fim, cria-se um ambiente muito próximo e familiar, que os participantes aproveitam também para recarregar baterias.

Coimbra não é uma escolha óbvia para um evento global. Que papel tem a cidade neste posicionamento?

Na primeira edição, o nosso objetivo era criar um evento verdadeiramente nacional. Coimbra surgiu naturalmente pela sua centralidade geográfica, sendo um ponto de encontro acessível tanto para participantes do Norte como do Sul do país. Esse objetivo mantém-se, embora hoje tenhamos também outras preocupações, nomeadamente com os participantes internacionais. O feedback que recebemos é muito positivo: as pessoas gostam da cidade e valorizam o facto de a conferência acontecer fora dos centros urbanos habituais, como Lisboa e Porto. Coimbra já conhece a JNation e tem todo o interesse em que o evento se mantenha, tal como nós. Durante décadas, temos discutido a necessidade de descentralizar o país; este é o nosso contributo para essa mudança.

“Muitas vezes, as empresas estão muito focadas na sua própria operação — e os profissionais também —, o que torna difícil perceber o que está a acontecer noutras equipas, projetos ou organizações”.

A JNation tem-se afirmado como ponto de encontro da comunidade tech. Que papel têm eventos como este na retenção e atração de talento para Portugal?

Eventos como a JNation têm um papel importante ao mostrar o talento e o trabalho que se faz em Portugal, tanto dentro como fora do país. Muitas vezes, as empresas estão muito focadas na sua própria operação — e os profissionais também —, o que torna difícil perceber o que está a acontecer noutras equipas, projetos ou organizações. Na JNation, há espaço para partilhar experiências, falar dos desafios sentidos na utilização de determinadas tecnologias e mostrar os benefícios que delas estão a ser retirados. Acaba por ser uma experiência profissional muito enriquecedora, difícil de replicar num contexto tradicional de trabalho.

Sente que Portugal está hoje mais competitivo na área do desenvolvimento de software? Onde ainda estamos a falhar?

Portugal tem muito talento nesta área, mas continua a ter dificuldade em valorizá-lo e em criar condições para o reter. Uma parte significativa desse talento acaba por sair do país à procura de melhores oportunidades. Temos evoluído, é certo, mas, para crescermos como país competitivo no setor tecnológico, precisamos de oferecer melhores condições em várias dimensões — desde a valorização profissional às oportunidades de carreira, passando pela capacidade de criar projetos mais ambiciosos e com impacto internacional.

“Na décadas de 80, 90 e 2000, a nossa área era vista como algo necessário, mas ao mesmo tempo como algo em que apenas os “geeks”, que gostavam de computadores, se aventuravam (…)”.

Que tipo de perfil de talento encontra hoje e o que mudou nos últimos anos?

Temos encontrado perfis cada vez mais variados. Na décadas de 80, 90 e 2000, a nossa área era vista como algo necessário, mas ao mesmo tempo como algo em que apenas os “geeks”, que gostavam de computadores, se aventuravam, dando origem a todo o tipo de estereótipos. Hoje em dia, é mais equilibrado. A área deixou tanto de ser vista dessa forma e atraiu outros perfis, mas ainda com muito trabalho pela frente.

A inteligência artificial está no centro de tudo. Como está a transformar, na prática, o trabalho dos developers?

A inteligência artificial é mais uma ferramenta na longa lista que os profissionais utilizam. A diferença é que é uma ferramenta transformadora, como foi o início da Internet. Ainda estamos todos a procurar o equilíbrio na sua utilização. No entanto, é claro que está a ter um grande impacto em tarefas mundanas o que liberta os developers para outro tipo de tarefas mais complexas.

Sendo o único Java Champion em Portugal, que responsabilidade sente enquanto referência da comunidade?

Não sinto que tenha uma responsabilidade adicional. A tecnologia Java acompanha-me há mais de 20 anos e naturalmente tenho um gosto muito especial pela tecnologia, pelo que tento passar aos outros esse gosto também.

“Experiência não significa necessariamente muitos anos na área, mas sim passar pelos problemas e desafios que nos aparecem e aprender a resolvê-los”.

O que distingue hoje um bom developer de um developer de excelência?

Experiência e pensamento. Experiência não significa necessariamente muitos anos na área, mas sim passar pelos problemas e desafios que nos aparecem e aprender a resolvê-los. Só assim conseguimos fazer essa transformação para um patamar mais elevado.

Que competências vão ser críticas para quem quer manter-se relevante nos próximos anos?

Para mim a competência mais relevante será sempre a adaptabilidade. Não estamos a viver um momento novo. No passado, já passamos por transformações profundas e esta é mais uma. Temos que ter a capacidade de nos adaptar à nova realidade e, principalmente, de aprender a trabalhar com as novas ferramentas que estão disponíveis para nós.

“(…) sem o open source, a inteligência artificial atual dificilmente teria tido meios para se desenvolver e treinar à escala a que chegou”.

Sempre esteve muito ligado ao open source. Continua a ser um motor de inovação ou está a mudar de natureza?

Acredito que o open source continuará a ser um motor de inovação. Não podemos esquecer que, sem o open source, a inteligência artificial atual dificilmente teria tido meios para se desenvolver e treinar à escala a que chegou. Ainda assim, há riscos pela frente. Pode existir uma tentação natural de desinvestir, mas é importante lembrar que o trabalho colaborativo desenvolvido no open source beneficia todo o ecossistema, incluindo quem não contribui diretamente para ele.

As grandes empresas tecnológicas estão cada vez mais presentes nestas comunidades. Isso fortalece ou condiciona o ecossistema?

Fortalece. Estas comunidades têm recursos muito limitados, pelo que a presença de empresas ajuda a manter as comunidades vivas.

Eventos como a JNation podem ter um papel na afirmação de Portugal como hub tecnológico? O que falta para o país dar um salto mais consistente neste posicionamento internacional?

Sim. Atualmente, entre 10% e 15% dos participantes vêm de fora de Portugal, o que já representa uma presença internacional relevante. Essas pessoas levam consigo a experiência da JNation e ficam com uma perceção clara do potencial que existe no país. Também temos patrocinadores internacionais que se associaram à conferência precisamente porque tiveram colaboradores presentes em edições anteriores. Portugal tem condições únicas ao nível dos recursos humanos e do talento tecnológico, mas continua a falhar noutras dimensões essenciais para se afirmar de forma mais consistente como hub internacional.

Quais são hoje os principais desafios na organização de uma conferência internacional desta escala?

O principal desafio é ter uma equipa coesa, responsável e muito alinhada. Num evento desta dimensão, há apenas uma oportunidade para causar uma boa impressão e, se algo correr mal, existe pouca margem para recuperar. Uma conferência envolve muitas frentes: desde o sponsorship ao ticketing, passando pela seleção dos oradores e pela construção do programa. Depois, nos dias do evento, entram em cena áreas como os audiovisuais, o catering, o mobiliário e a decoração. São muitos fornecedores, muitas equipas e muitas pessoas envolvidas, e todas têm de estar alinhadas para que tudo decorra como esperado.

“Em todas as edições, temos sempre um novo desafio para manter a qualidade e as expetativas, pelo que não podemos viver dos sucessos anteriores”.

Como imagina a JNation daqui a cinco anos?

Espero que mantenha o mesmo espírito de comunidade que nos trouxe até aqui. Não temos uma ambição desmedida de continuar a crescer. Apesar das limitações, estamos muito satisfeitos com a dimensão atual e esperamos manter o que temos. Em todas as edições, temos sempre um novo desafio para manter a qualidade e as expetativas, pelo que não podemos viver dos sucessos anteriores.

Há ambição de levar o conceito para outras geografias?

Já existiu essa oportunidade, no entanto é algo que não está nas nossas prioridades imediatas. A JNation é organizada totalmente com trabalho voluntário. Para nós já é um grande desafio conseguir organizar um evento anual. Passar a ter vários eventos, distribuídos por outras localidade requer outro tipo de estrutura que não possuímos.

Continua a subir a palcos internacionais. O que ainda o desafia?

O que continua a desafiar-me é a partilha de conhecimento. Preparar uma sessão é, acima de tudo, um processo de aprendizagem. Para falar sobre um determinado tema, é preciso primeiro estudá-lo, compreendê-lo e dominá-lo. Muitas vezes, quando queremos aprender algo novo, uma das melhores formas de o fazer é precisamente preparar uma apresentação sobre esse tema para outras pessoas.

Que conselho daria a quem está a começar na área do desenvolvimento de software hoje?

A nossa área é muito vasta, por isso é natural que quem esteja a começar se sinta um pouco perdido. O meu conselho é sempre procurar algo para focar e especializar.

Comentários

Artigos Relacionados

Anabela Possidónio, fundadora da Shape Your Future