Reforma preocupa portugueses: 54% antecipam dificuldades financeiras

Barómetro Doutor Finanças – Preparação da Reforma traçou um retrato de baixa preparação financeira, desconfiança no sistema público de pensões e ausência de planeamento.

Mais de metade dos portugueses antecipa dificuldades financeiras na reforma e muitos admitem prolongar a vida ativa para complementar rendimentos. De acordo com o Barómetro Doutor Finanças – Preparação da Reforma, 54% dos inquiridos acreditam que terão dificuldades financeiras nesta fase da vida e 52% admitem continuar a trabalhar depois da idade da reforma, seja a tempo inteiro ou parcial.

Lançado no Dia Mundial da Família, que se celebra esta sexta-feira, o estudo traça um retrato de baixa preparação financeira, desconfiança no sistema público de pensões e ausência de planeamento. Apesar de 59% dos portugueses continuarem a encarar a reforma como um direito adquirido, a perceção de segurança é limitada: a incerteza, o medo e a ansiedade surgem com mais peso do que sentimentos positivos como descanso ou liberdade.

O barómetro foi realizado pelo Centro de Estudos Aplicados da Católica-Lisbon, em colaboração com o Doutor Finanças, e mostra que existe maior consciência sobre a importância do tema, mas essa preocupação ainda não se traduz em decisões concretas.

“Este barómetro mostra-nos que os portugueses estão mais conscientes, mas que isso ainda não se traduz em ação: não só continuam pouco preparados, como, em muitos casos, sem qualquer planeamento estruturado para a reforma”, afirma Sérgio Cardoso, Chief Education Officer do Doutor Finanças.

73% não sabem quanto precisam para manter o nível de vida

A falta de planeamento é um dos sinais mais expressivos do estudo. Cerca de 73% dos portugueses não sabem quanto precisam poupar para manter o nível de vida depois da reforma e 65% nunca fizeram qualquer simulação da pensão.

Além disso, 33% admitem não saber quanto irão receber quando se reformarem. Esta ausência de informação agrava a perceção de risco e dificulta a definição de uma estratégia de poupança a longo prazo.

O estudo revela ainda que 31% dos inquiridos admitem adiar o planeamento da reforma, apesar de mais de metade antecipar dificuldades financeiras no futuro. Entre estes, 32% acreditam que terão dificuldade em manter o nível de vida e 22% receiam não conseguir cobrir despesas essenciais.

Quase metade não confia na Segurança Social

A desconfiança no sistema público de pensões é outro fator central. Cerca de 47% dos portugueses não acreditam que a Segurança Social consiga garantir o pagamento de pensões no futuro.

Ao mesmo tempo, 55% consideram que a pensão pública não será suficiente para manter o nível de vida na reforma.

Esta perceção ajuda a explicar por que motivo mais de metade dos inquiridos admite continuar a trabalhar depois da idade legal da reforma. Para muitos, a continuação da atividade profissional surge menos como escolha e mais como necessidade de reforço do rendimento.

Embora 68% dos inquiridos afirmem poupar para a reforma, apenas 34% dizem fazê-lo de forma regular. Outros 25% poupam de forma irregular e 31% não poupam de todo.

A principal barreira apontada é a falta de rendimento, referida por mais de metade dos inquiridos. Este fator surge muito acima de outros motivos, como falta de prioridade, disciplina ou conhecimento financeiro.

Entre os instrumentos mais utilizados estão os PPR, fundos e depósitos a prazo, o que revela uma preferência por soluções mais conservadoras. Ainda assim, 26% dos portugueses não recorrem a qualquer instrumento de poupança para preparar a reforma.

O barómetro identifica também diferenças relevantes entre grupos da população. As mulheres surgem como um dos grupos mais vulneráveis neste retrato, apresentando níveis mais elevados de medo e ansiedade face à reforma.

Revelam também maior incerteza quanto ao futuro, sinalizando desigualdades na forma como esta fase da vida é antecipada e preparada.

Contrariando uma perceção mais comum, são os mais jovens que demonstram maior consciência e preocupação com a reforma. As faixas etárias entre os 25 e os 45 anos revelam maior sensibilização para o tema e maior predisposição para poupar, indicando uma possível mudança geracional na forma de encarar o futuro financeiro.

Saúde é a maior preocupação na reforma

A saúde surge como a principal preocupação associada à reforma, referida por 81% dos inquiridos. Seguem-se a dependência de familiares, com 30%, e a perda de rendimento, com 29%.

Os custos da habitação também pesam nas preocupações, sendo mencionados por 23% dos participantes. O dado mostra que as despesas fixas continuam a ser uma fonte de pressão mesmo numa fase da vida tradicionalmente associada à redução da atividade profissional.

Apesar das apreensões, a reforma continua a ser idealizada como um período positivo. Viajar é o principal desejo, referido por 58% dos inquiridos, seguido da vontade de passar mais tempo com família e amigos.

O estudo revela também uma forte abertura dos portugueses ao aconselhamento financeiro. Cerca de 81% dos inquiridos admitem que utilizariam este tipo de apoio para planear a reforma.

Há também um consenso alargado sobre a necessidade de reforçar a educação financeira nas escolas. Segundo o barómetro, 92% defendem uma maior preparação das novas gerações para decisões financeiras de longo prazo.

 

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