Opinião
Transformar para crescer, ou apenas para sobreviver?
Cada vaga tecnológica prometeu reinventar a forma como as empresas competem. Dos Mainframes, passando pelos PCs, Internet, Cloud, Mobilidade, Big Data: todas trouxeram novas possibilidades, e todas criaram vencedores e vencidos.
Agora, com a Inteligência Artificial (IA), essa dinâmica ganha uma escala e velocidade sem precedentes. Modelos de negócio que pareciam sólidos há dois anos estão hoje a ser questionados. Funções inteiras estão a ser redesenhadas. Cadeias de valor que levaram décadas a construir podem ser reconfiguradas em meses.
Basta olhar para o ranking das maiores empresas cotadas do mundo: em todos os continentes, as líderes em capitalização bolsista são tecnológicas e ligadas à IA. Nos EUA, os “Magnificent 7” (Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla) representam mais de 30% do S&P 500, com uma capitalização combinada superior a 20 triliões de dólares. Na Europa a ASML é hoje a empresa com maior valor bolsista. Na Ásia a TSMC e a Tencent. A tecnologia deixou de ser um setor: tornou-se o motor central de criação de valor na economia global.
E, no entanto, a maioria das organizações continua a não conseguir traduzir investimento em IA em retorno real. Os pilotos multiplicam-se. Os orçamentos crescem. As provas de conceito acumulam-se. Mas o impacto no negócio permanece difuso. Estudos recentes mostram que menos de 20% dos projetos de IA em contexto empresarial ultrapassam a fase experimental, e menos de 5% escalam e criam valor. A pergunta que se impõe é: porquê?
Na minha perspectiva e experiência, o problema raramente é tecnológico. A tecnologia existe, é acessível, e evolui a um ritmo que torna qualquer avaliação desatualizada em semanas. O verdadeiro bloqueio é cultural, estratégico e de modelo de negócio. As organizações adotam IA como se fosse mais uma ferramenta, quando na realidade é uma força que obriga a repensar a forma como se cria, entrega e captura valor.
Há uma diferença fundamental entre organizações que experimentam e organizações que capturam valor. As primeiras tratam a IA como inovação periférica: um chatbot aqui, uma automatização ali. As segundas integram a IA no DNA da empresa, desde as competências até as operações e a oferta. Não a usam para fazer o mesmo mais rápido. Usam-na para fazer o que antes não era possível.
Os dados do Portugal Digital Awards 2025 confirmam esta aceleração no contexto português. A adoção de AI nos projetos candidatos saltou de 42% para 71% num único ano. As PMEs já representam 43% das candidaturas, provando que a inovação se democratizou. Mas a análise revela também fragilidades. As grandes empresas portuguesas estão a avançar com rapidez na transformação digital, com projetos sofisticados e em produção, mas falta-lhes ambição global: poucos projetos são pensados para escalar além das fronteiras nacionais. As PMEs, por seu lado, precisam de elevar a sofisticação tecnológica dos seus projetos e, tal como as grandes, ambicionar mercados internacionais.
A transformação digital com IA já não é um diferenciador. É uma condição mínima. O diferenciador é a capacidade de traduzir essa transformação em crescimento real, com inovação na experiência do cliente, nos produtos e nos serviços. Quem ficar preso na lógica de eficiência operacional vai descobrir que otimizou um modelo de negócio que já não é relevante.
Neste contexto, a pergunta que cada líder deve fazer hoje não é se deve abraçar a IA. É se está a transformar para crescer, ou apenas a transformar para sobreviver. A resposta define o próximo capítulo.








