Entrevista/ “A inteligência artificial está no centro da estratégia de prevenção de fraude da Visa”

Rita Mendes Coelho, Country Manager da Visa em Portugal

“Portugal combina inovação, colaboração e abertura ao mercado. Apresenta níveis elevados de adoção de pagamentos digitais e contactless, sendo um mercado ideal para testar novas soluções”, afirma Rita Mendes Coelho, Country Manager da Visa em Portugal.

Há mais de 30 anos que a Visa utiliza Inteligência Artificial (IA) no ecossistema de pagamentos como forma de prevenir fraudes e tornar os pagamentos mais seguros, rápidos e simples. Aliás, como sublinha Rita Mendes Coelho em entrevista ao Link to Leaders, “a inteligência artificial está no centro da estratégia de prevenção de fraude da Visa. Permite analisar transações em tempo real, identificar padrões suspeitos e bloquear atividades fraudulentas antes que tenham impacto em consumidores ou comerciantes”.

A Country Manager da Visa em Portugal frisa que “o uso contínuo de IA, aliado a investimento em tecnologia e talento especializado, é essencial para manter a confiança dos consumidores num ecossistema de pagamentos cada vez mais digital”. Mas do que um tema tecnológico, a IA tornou-se um pilar estratégico no setor dos pagamentos. Leia a entrevista.

A Visa utiliza inteligência artificial há mais de 30 anos. Qual tem sido o maior desafio em gerir uma tecnologia que toma decisões em milissegundos e à escala de triliões de transações, mantendo segurança, compliance e rapidez?

O maior desafio tem sido manter o equilíbrio entre rapidez, segurança e confiança — tudo a uma escala global extraordinária. Em cada transação, os modelos de IA da Visa analisam mais de 500 atributos de risco em menos de um milissegundo. A complexidade está em tomar decisões altamente precisas em tempo real, e garantir uma taxa de aprovação de transações legítimas na ordem dos 99,999%, enquanto se mantêm níveis de fraude historicamente baixos.

Fazer isto de forma consistente, num contexto de ameaças em constante evolução, exige uma enorme capacidade de adaptação. Este equilíbrio entre fluidez na experiência do consumidor e proteção robusta de todo o ecossistema é o nosso maior desafio, e aquilo que também nos define.

Que lições sobre resiliência tecnológica e gestão estratégica a Visa pode transmitir a fundadores e CEO que querem integrar IA na estratégia de longo prazo das suas organizações?

Há três lições essenciais. Primeiro, a IA não é um objetivo, é uma ferramenta. O ponto de partida deve ser sempre o problema de negócio. No caso da Visa, o foco foi resolver a fraude nos pagamentos — e a IA surge como o meio para o fazer de forma eficaz e à escala.
Segundo, a IA depende da qualidade e escala dos dados. A robustez dos nossos modelos resulta da diversidade e volume de dados — milhares de milhões de transações em mais de 200 países — o que permite identificar padrões invisíveis em contextos mais limitados.
Terceiro, a inovação é colaborativa. Iniciativas como o “Visa Agentic Ready”, com parceiros como o Millennium bcp e o Santander, ou o programa VIPE em Portugal, demonstram que as melhores soluções nascem da colaboração.

Mais do que tecnologia, trata-se de combinar casos de uso claros, dados sólidos e as parcerias certas. No fundo, é também esse equilíbrio entre visão estratégica, aplicação prática e conhecimento tecnológico que torna tão atuais percursos de formação nesta área, como a pós-graduação em Inteligência Artificial do Iscte Executive Education.

O que distingue a abordagem da Visa em IA aplicada a pagamentos das soluções de outros players no mercado?

O principal fator distintivo é a escala e profundidade dos dados. Ao processar milhares de milhões de transações globalmente, a Visa treina os seus modelos com um volume de informação incomparável. Isto permite não só detetar fraude com maior precisão, mas também reconhecer transações legítimas e aprová-las, evitando que pagamentos válidos sejam rejeitados por engano — o que chamamos de “falsos positivos” e que podem frustrar consumidores e causar vendas perdidas aos comerciantes.
A nossa abordagem não é apenas preventiva, é também orientada para o crescimento, e garantir que o comércio flui.

O Visa Intelligent Commerce permite que agentes de IA façam compras em nome do consumidor. Que impacto tem esta solução no dia a dia do consumidor português e qual tem sido o balanço até agora?

O Visa Intelligent Commerce permite que assistentes de IA ajudem os consumidores a procurar, escolher e pagar, sempre com controlo e consentimento do utilizador. Nesta fase, ainda estamos num momento de preparação e teste, nomeadamente através do programa “Visa Agentic Ready”, mas o impacto futuro será claro: experiências de compra mais simples, rápidas e personalizadas, sobretudo em ambientes online e em serviços recorrentes.
O balanço até agora é positivo, com foco em garantir confiança, segurança e conveniência, mantendo os níveis de segurança já associadas às transações Visa.

 Como funcionam as Flex Credentials e em que se diferenciam dos cartões tradicionais?

O Visa Flex Credentials permite que uma única credencial esteja associada a vários métodos de pagamento, como débito, crédito ou pagamentos fracionados. Ao contrário dos cartões tradicionais, que estão normalmente ligados a uma única função, o utilizador pode escolher como quer pagar em cada transação, seja através da app do banco ou de uma wallet, sem necessidade de ter vários cartões físicos.
Esta flexibilidade dá mais controlo ao consumidor e deverá tornar-se um novo padrão nos pagamentos.

“Estas soluções permitem que PME e microempresas aceitem pagamentos contactless se tivermos um smartphone, sem necessidade de terminais adicionais”.

 O Visa Pay e o Visa Accept permitem que pequenos comerciantes transformem o telemóvel em terminal de pagamento. De que forma estas soluções estão a apoiar PME e microempresas em Portugal?

Estas soluções permitem que PME e microempresas aceitem pagamentos contactless se tivermos um smartphone, sem necessidade de terminais adicionais. Ao eliminar custos de hardware e simplificar a aceitação de pagamentos digitais, tornam mais fácil a entrada de pequenos negócios na economia digital e ajudam-nos a responder melhor às preferências dos consumidores.
Num mercado como o português, onde as PME têm um peso muito significativo, este tipo de soluções é essencial para promover inclusão e competitividade.

A Europa está a avançar com o euro digital e com maior interoperabilidade entre sistemas de pagamentos. Como encara a Visa este movimento: como concorrência ou como oportunidade de inovação?

Este movimento reflete um ecossistema de pagamentos mais competitivo e inovador. Qualquer nova solução terá de garantir uma boa experiência para o utilizador, aceitação generalizada e elevados padrões de segurança. Com a arquitetura certa, pode contribuir para reforçar o sistema europeu de pagamentos e impulsionar a inovação.

Portugal tem sido destacado como mercado estratégico. Quais são as especificidades que tornam o nosso país relevante para a Visa?

Portugal combina inovação, colaboração e abertura ao mercado. Apresenta níveis elevados de adoção de pagamentos digitais e contactless, sendo um mercado ideal para testar novas soluções. Tem também um ecossistema fintech dinâmico e um forte peso do turismo internacional, o que oferece dados relevantes sobre pagamentos transfronteiriços. A isto soma-se uma cultura de colaboração entre setor financeiro, empresas e entidades públicas, o que facilita a implementação de inovação.

“Somos uma “rede de redes” que sustenta a inovação do ecossistema”.

Com o crescimento das fintech e das big tech, como é que a Visa consegue equilibrar a concorrência com a construção de parcerias estratégicas no ecossistema de pagamentos?

A Visa opera como uma plataforma aberta. O objetivo não é competir com clientes ou parceiros, mas capacitá-los, ao oferecer tecnologia, segurança e escala global para que possam desenvolver os seus próprios serviços. O programa VIPE em Portugal é um exemplo claro desse posicionamento, na qual se apoiam fintechs no seu processo de crescimento. Somos uma “rede de redes” que sustenta a inovação do ecossistema.

A tokenização é fundamental para reduzir a fraude nos pagamentos. Pode explicar como esta tecnologia protege os dados dos consumidores e o impacto que tem na segurança global da rede Visa?

A tokenização substitui o número real do cartão por um identificador digital único, o “token”, que não tem valor fora daquele contexto específico. Isto significa que, mesmo que os dados sejam comprometidos, não podem ser reutilizados por terceiros. É uma tecnologia fundamental para os pagamentos digitais, contribuindo para uma redução significativa da fraude e para o reforço da segurança global da rede Visa.

Nos últimos cinco anos, a Visa investiu 11 mil milhões de dólares em inovação e segurança. Que papel desempenha a IA na prevenção de fraudes e na confiança do consumidor?

A inteligência artificial está no centro da estratégia de prevenção de fraude da Visa. Permite analisar transações em tempo real, identificar padrões suspeitos e bloquear atividades fraudulentas antes que tenham impacto em consumidores ou comerciantes. Este uso contínuo de IA, aliado a investimento em tecnologia e talento especializado, é essencial para manter a confiança dos consumidores num ecossistema de pagamentos cada vez mais digital.

“As stablecoins representam uma oportunidade relevante para tornar os pagamentos mais rápidos, eficientes e globais (…)”.

A Visa está a expandir a integração de stablecoins e criptomoedas nos seus sistemas. Que oportunidades e desafios identifica neste novo ecossistema?

As stablecoins representam uma oportunidade relevante para tornar os pagamentos mais rápidos, eficientes e globais, especialmente em transferências internacionais e liquidações. Ao mesmo tempo, este é um espaço que exige evolução ao nível do enquadramento regulatório, interoperabilidade entre sistemas e garantia de proteção do consumidor. A inovação neste ecossistema só será sustentável se for acompanhada de confiança e segurança.

Como garante a Visa que estas soluções são seguras, reguladas e fáceis de utilizar pelos consumidores?

A Visa integra stablecoins e soluções cripto com base nos mesmos princípios que orientam toda a sua rede: segurança, conformidade regulatória, fiabilidade e simplicidade. Trabalha em estreita colaboração com reguladores, parceiros financeiros e tecnológicos para garantir que estas soluções cumprem os requisitos legais e oferecem uma experiência consistente. Para o utilizador final, o objetivo é simples: garantir que a experiência é intuitiva e segura, mantendo o nível de confiança já associado aos pagamentos Visa.

Que novidades podemos esperar da Visa ao longo deste ano?

O foco está na evolução do comércio digital e na melhoria da experiência de pagamento. Por um lado, estamos a preparar o futuro com iniciativas como o “Visa Agentic Ready”, enquanto exploramos novos modelos como o comércio com agentes de IA. Por outro, continuamos a otimizar a experiência atual, com soluções como o Click to Pay, que tornam os pagamentos online mais rápidos, simples e seguros. A prioridade mantém-se: combinar inovação com conveniência, confiança e proteção do consumidor.

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