A Portugal Ventures é um dos veículos mais importantes para fomentar a inovação no país. Com menos de seis anos de atuação, a sociedade pública de capital de risco que investe em projetos em fase seed já tem um portfólio com mais de 70 start-ups das áreas de tecnologia, ciências vivas e turismo.

Dedicamos este artigo exclusivamente a apresentar cinco projetos em que a Portugal Ventures investiu, de forma a percebermos quais são as mais-valias que este órgão público traz ao ecossistema nacional de start-ups.

Asinus Atlanticus
Diretamente dos Açores, a Asinus Atlanticus é uma start-up focada na exportação de leite de burra. O que pode ser visto como algo tradicional e pouco comum em Portugal tornou-se um projeto de sucesso, que geograficamente já abrange áreas que vão desde França a Hong-Kong.

Como nos conta o CEO Marcos Couto, a start-up surgiu no seguimento da “procura de uma boa ideia para investir”. Com isto em mente, duas atuais sócias do projeto viram uma reportagem sobre o leite de burra e rapidamente perceberam que podia ser um conceito interessante para ser implementado nos Açores, visto que tem uma alta rentabilidade e pouco impacto ambiental.

Embora pouco valorizado em Portugal, o leite de burra é bastante apreciado em mercados internacionais devido às suas possíveis aplicações nas áreas da cosmética e da alimentação. “Na cosmética são conhecidas, ao longo dos tempos, as suas capacidades rejuvenescedoras e estimulantes da produção de colagénio da pele. No que diz respeito à alimentação, o leite de burra é o mais semelhante ao leite materno que existe na natureza, sendo o seu sucedâneo ideal. É igualmente indicado para crianças com alergias à proteína do leite de vaca, cabra e outros. É um leite pouco conhecido no nosso país, mas amplamente utilizado na Europa”, conta-nos o CEO.

A Asinus Atlanticus atua tanto na variante B2B, como B2C.

A venda a outras empresas é feita através da exportação do leite que serve de matéria prima para produtos cosméticos. Neste campo, o maior mercado encontra-se em França.

Na componente de venda para o cliente final, é comercializado em leite em pó para várias zonas do globo, como a República Checa, Hong Kong e Itália.

Portugal Ventures: apoio que vai para além do dinheiro

A Asinus Atlanticus encontra mais oportunidades no mercado internacional.

Papel da Portugal Ventures no projeto: Em agosto de 2014, a Asinus Atlanticus recebeu um investimento de 85 mil euros da sociedade pública de capital de risco. Este dinheiro veio salvar o negócio fundado por Marcos Couto, visto que foi utilizado “na compra de um novo liofilizador [equipamento que desidrata água e solventes], uma vez que o tínhamos acabou por incendiar. Um momento muito difícil para o projeto e que quase determinou o seu fim. Não fosse a Portugal Ventures teríamos fechado nessa altura”, assegura aquele responsável.

Segundo o CEO, para além de ter salvo o projeto, a Portugal Ventures serviu como uma escola de gestão e exigência, “algo que faz muita falta nos Açores e nas empresas açorianas visto que a economia local é subsídio-dependente e sem critérios de exigência”.

Como objetivos futuros, a Asinus Atlanticus quer aumentar o número de animais, de forma a ter disponibilidade de fazer crescer o projeto, e também quer reforçar as exportações, mais precisamente no mercado asiático.


MICE
A MICE nasceu em 2013, no âmbito do doutoramento do CEO Nuno Gomes na Universidade do Porto. Como nos conta o empreendedor, “eu e um dos sócios, Ricardo Santos, deparamo-nos com um gap no mercado entre a prototipagem e a produção em massa de peças em plástico”.

Desta oportunidade nasceu a MICE, que incorpora uma tecnologia inovadora de injeção por moldação reativa. Quando comparada com outros métodos tradicionais, a tecnologia da start-up portuguesa funciona com pressões de trabalho bastante menores, sendo estas até 100 vezes mais eficazes.

Nuno Gomes explica-nos que este método “desenvolvido na Universidade do Porto, ao longo de 20 anos, com quatro PhDs e alguns mestrados”, se traduz “em custos de ferramentas ou moldes bastante reduzidos”, abrindo também possibilidade de “aplicações no campo dos materiais compósitos em larga escala, com qualidades e custos interessantes”.

Atualmente, a MICE está a contar com o cofinanciamento do Norte2020 para implementar uma unidade industrial capaz de produzir peças maiores.

Portugal Ventures: apoio que vai para além do dinheiro

Atualmente, a MICE está a contar com o cofinanciamento do Norte2020 para implementar uma unidade industrial capaz de produzir peças maiores.

Papel da Portugal Ventures no projeto: O CEO menciona que a abordagem ao veículo público de investimento foi feita através “de um programa de captação de novos projetos, denominado de +Inovação +Indústria, vocacionado para sectores tradicionais e da indústria produtiva. Sentimos que fazia todo o sentido a candidatura, o que se veio a provar com o investimento efetuado”.

Em outubro de 2015, a Portugal Ventures entrou com 50 mil euros no projeto. Este dinheiro foi investido para concluir e executar um caso piloto. Para além disto, a start-up tem contado com um “apoio próximo à gestão nomeadamente na ajuda à decisão” e com os contactos disponibilizados pela sociedade pública de capital de risco.

A longo prazo, a MICE está a trabalhar para entrar no mercado dos setores automóvel, mobiliário e de carenagens para equipamentos elétricos, de forma a consolidar o projeto e crescer. Posteriormente, Nuno Gomes espera poder “abrir novas unidades de negócio, nomeadamente a produção de peças em materiais compósitos e a venda/licenciamento de equipamentos”.

Polyanswer
Nascida em Braga há quase três anos, a Polyanswer desenvolveu um material inovador na absorção de energia de impactos.

Miguel Pimentel, CEO da start-up bracarense, abreviou-nos a história do projeto: “um grupo de tecnólogos desenvolveu um fluido não newtoniano com características especiais na absorção de energia de impactos com a ideia inicial de atuar na área da balística. O projeto foi desenvolvido com duas vertentes: por um lado, a combinação do fluido com vários materiais, nomeadamente resinas, espumas e plásticos e, por outro, o desenvolvimento de produtos pensados para utilizadores específicos, em particular no desporto”.

Apesar de ter sido primeiramente pensado para a área balística, o fluído – que já se encontra patenteado – é capaz de ser combinado com vários materiais, o que resulta numa vasta gama de aplicações. O feito mais recente da equipa desta start-up é no mundo do desporto, onde conseguiram desenvolver caneleiras capazes de absorver 90% da energia do impacto.

“Temos desenvolvimentos na área militar, em elementos de proteção, no sector têxtil através da produção de fios com o nosso material, na indústria do calçado com acessórios de proteção, no desporto com caneleiras para futebol, gorros e outros produtos e na indústria automóvel com soluções combinadas com plásticos e com espumas”, acrescenta Miguel Pimentel.

A Polyanswer apresenta-se como uma empresa global, visto que grande parte das oportunidades surgem em mercados internacionais. Dentro da sua área de atuação, a start-up divide-se nas modalidades B2B e B2C, sendo que existem três tipos diferentes de clientes: os que utilizam o fluido como aditivo ou matéria prima, os que compram produtos já concebidos para serem incorporados nos seus e os consumidores finais, como no caso das caneleiras.

Portugal Ventures: apoio que vai para além do dinheiro

As caneleiras desenvolvidas pela Polyanswer são capazes de absorver 90% da energia do impacto.

Papel da Portugal Ventures no projeto: O investimento do fundo de investimento feito na start-up foi utilizado para comprar equipamento de laboratório e de produção e para colmatar as necessidades de “fundo de maneio decorrentes do pessoal envolvido e dos materiais necessários ao desenvolvimento de produtos”.

Para além da contribuição monetária, Miguel Pimentel acrescenta que a Portugal Ventures fomentou o crescimento do projeto através da atuação em várias áreas, como na formação, networking e no marketing.


proGrow
A proGrow foi criada sob o mote de fazer com que as empresas produzam mais, utilizando menos recursos. Este projeto assenta num SaaS (software as a service) que ajuda as empresas a melhorarem as suas ineficiências operacionais. Isto é conseguido através da centralização da informação e da sua análise, estando assim inserida no universo de big data.

Marco Tschan Carvalho, fundador e CEO da start-up, afirma que implementando as soluções desta start-up portuguesa, as empresas podem esperar consumir “menos energia, matérias-primas e mão de obra enquanto produzem os seus produtos. Irão assim tornar-se mais ‘magras’, eficientes e sustentáveis. Este impacto é medido diretamente no proGrow através da análise dos KPIs correspondentes ao consumo de energia, matérias-primas e mão de obra”.

Tendo em conta que as ineficiências operacionais são um problema extremamente dispendioso para qualquer empresa, a proGrow entra no mercado como um investimento para potenciar uma melhoria contínua dentro das organizações. As soluções da start-up cobrem desde o setor alimentar ao ramo automóvel e desde médias empresas a multinacionais.

No que diz respeito à implementação do serviço, o fundador do projeto conta-nos que o sistema desenvolvido “adapta-se aos sistemas informáticos das empresas e não o contrário. O processo recai todo sobre a proGrow, deixando as empresas focadas no seu dia-a-dia”.

Portugal Ventures: apoio que vai para além do dinheiro

O objetivo da proGrow é desenvolver uma melhoria contínua dentro das empresas, de forma a conseguirem produzir mais, com menos recursos.

Papel da Portugal Ventures no projeto: A entrada do fundo de investimento público no proGrow, que se deu dois anos depois do projeto ter nascido, permitiu a solidificação da solução junto de institutos de investigação como o INESCTEC e centros de engenharia como o CEiiA.

Além do apoio monetário, Marco Tschan Carvalho acrescenta que a equipa da Portugal Ventures “tem tido uma participação ativa como nossos mentores, tanto diretamente pela participação no nosso conselho de administração como pela academia que temos ao nosso dispor. Assim como têm sido fundamentais no business development da proGrow. Têm-nos apoiado tanto a gerar e acompanhar sales leads em Portugal como recentemente também na Alemanha, através dos seus parceiros internacionais”.

Unua Global
De Portugal para o mundo, esta start-up junta-se ao grupo que exporta a maioria dos seus produtos. A Unua Global oferece aos clientes uma variedade de produtos de vestuário 100% customizados, que variam desde fatos a sapatos.

O projeto nasceu em setembro de 2015 a partir de uma experiência anterior da equipa fundadora. “Nas suas últimas funções, os três promotores da Unua Global trabalharam em conjunto numa indústria de fatos de homem, na qual apoiaram e desenvolveram a transformação da fábrica para se tornar numa linha de produção por medida, com encomendas e produção unitárias customizadas e produzidas com as medidas do consumidor final”, contou-nos o CEO Mário Gaspar.

Depois disto, a equipa rapidamente se apercebeu que o conceito de customização de produtos de vestuário feitos à medida poderia ser expandido. Juntando a experiência anterior ao facto “de Portugal possuir fábricas e artesãos com uma produção de excelência na confeção de fatos de homem, de camisas, de sapatos e outros acessórios de moda masculina”, foi criada a Unua Global.

O negócio é 100% orientado para a componente B2B. Questionado sobre a razão para tal, o CEO do projeto explicou-se que “este modelo é aquele que trará ao negócio uma expansão rápida e a necessária escalabilidade global, que dificilmente conseguiríamos desenvolver num modelo de venda direta B2C, tanto por via dos investimentos necessários tanto como pela necessidade de criar uma grande rede de pontos de venda”.

Prova de que o business plan da Unua Global deu frutos é o facto de apenas um ano e meio depois de ter iniciado atividade comercial já terem clientes em mais de 15 países, que vão desde a Austrália aos Estados Unidos.

Portugal Ventures: apoio que vai para além do dinheiro

: Mário gaspar: “Fazemos questão de promover o made in Portugal e a inovação de processos necessários à concretização deste negócio”.

Papel da Portugal Ventures no projeto: O investimento deu possibilidades à start-up portuguesa de criar infraestruturas e ferramentas de suporte ao complexo processo de encomendas. Com isto, foi também possível abrir um show room na Holanda, de forma a permitir que os clientes do centro e norte da Europa pudessem entrar em contacto com os produtos portugueses de forma mais próxima e conveniente.

Contudo, o valor da entrada da Portugal Ventures no projeto não se prendeu apenas com o investimento. Como refere Mário Gaspar, a participação da sociedade pública de capital de risco “é fundamental para nos trazer ideias, direções e estratégias que possivelmente não teríamos sem essa visão exterior ao negócio. Podemos considerar que a relação com a Portugal Ventures, para além do investimento financeiro, constituiu até hoje um aspeto fundamental para o nosso sucesso, trazendo à equipa um conjunto de ferramentas de gestão, objetivos e planos de ação que têm sido importantes para o crescimento e saúde da empresa”.

A visão a longo prazo da Unua Global passa por se tornarem no maior fornecedor mundial de produtos customizados na vertente B2B. Para tal, a próxima fase do projeto visa solidificar as estruturas da empresa de forma a conseguirem um rápido crescimento das vendas.

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