Opinião
Slop: sobre a viscosidade do presente
A versão original deste ensaio, em inglês, foi escrita a 4 de Janeiro de 2026, poucas horas depois de surgirem relatos de que os Estados Unidos tinham capturado o presidente venezuelano Nicolás Maduro numa operação militar.
A presente adaptação para português foi escrita em março de 2026. Entretanto, a 28 de Fevereiro, os Estados Unidos e Israel iniciaram uma campanha militar contra o Irão que, à data em que escrevo, já dura há mais de três semanas. O padrão descrito neste texto repetiu-se — de forma mais violenta e com consequências mais vastas. Mantive a secção sobre a Venezuela e acrescentei o que entretanto aconteceu, porque a sequência dos eventos é, ela própria, parte do argumento.
O dicionário Merriam-Webster escolheu “slop” como palavra do ano de 2025[1]. A definição: “conteúdo digital de baixa qualidade, geralmente produzido em quantidade por meios de inteligência artificial.” Os editores notaram que a palavra partilha “o som molhado de algo em que não queremos tocar” com as suas primas linguísticas — slime, sludge, muck. Escorre.
Não tinha pensado muito sobre slop. Mas os acontecimentos recentes despertaram-me uma curiosidade. Investiguei, para perceber se a curiosidade gerava alguma associação. Gerou.
(Breve) arqueologia de uma palavra
Quem me lê com regularidade já terá percebido o meu gosto pelas palavras e pelas suas histórias. Slop descende do proto-indo-europeu \sleubh-* — escorregar, deslizar. A mesma raiz deu-nos sleeve (por onde o braço desliza) e lubricate[2]. Desde o início, slop significou instabilidade. Perda de chão firme.
No inglês médio, sloppe era um buraco de lama. O inglês antigo cusloppe — literalmente “excremento de vaca” — diz-nos onde a palavra vivia: no curral, entre dejectos. A flor cowslip deve o nome ao sítio onde crescia[3].
No século XVII, a palavra mudou-se para dentro de casa. Passou a designar comida semi-líquida de má qualidade — a papa indiferenciada de restos de cozinha, cascas de legumes, soro de leite e água de lavagem que os agricultores recolhiam para alimentar os porcos. O comedouro tornou-se um lugar de consumo sem discriminação. Entrava tudo. Comia-se tudo. O porco não escolhia. O porco não podia escolher. A natureza do slop é que a discriminação se torna impossível — não se distingue a casca de cenoura da água suja, o comestível do desperdício. Chega como é.
O século XIX acrescentou as águas residuais domésticas, incluindo o conteúdo dos penicos. Nas prisões britânicas, slopping out era o ritual matinal dos reclusos a esvaziarem os seus baldes de dejectos[4]. A palavra foi acumulando toxicidade a par da viscosidade. Nomeava o que produzimos e preferimos não ver — o que se junta durante a noite e tem de ser despachado de manhã.
Eis um pormenor revelador: já em 1866, slop servia para descrever cultura sentimental barata — escrita ou música excessivamente piegas, um caldo de clichés[5]. Os críticos vitorianos usavam o termo tal como o usamos hoje, para descrever conteúdo que simula emoção, mas resulta em kitsch. O gesto em direcção ao sentimento sem o sentimento em si — isto poderia ser uma definição alternativa do que chamei de pós-profundidade[6]. A IA não inventou o slop. Industrializou a sua produção.
Os linguistas observam que a estrutura fonética contribui para a eficácia da palavra. O /sl-/ inicial pertence a uma família de palavras inglesas associadas ao escorregadio e à perda de controlo: slime, sludge, slug, slush, slob — muitas com conotações adicionais de humidade ou afecto negativo. O linguista britânico J. R. Firth chamou a estes padrões “fonestemas” — conjuntos de sons que transportam significado para lá das suas partes constituintes[7]. O /p/ final sugere algo mole a bater numa superfície. A palavra soa a desperdício a cair num balde. Ouve-se o plop.
Antes do algoritmo
Devo confessar algo, sem intenção de sinalizar virtude nem superioridade: vi muito pouca reality tv. O que sei vem de fragmentos, referências, da osmose cultural que torna o evitamento impossível (poucas pessoas poderão dizer com verdade que não assistiram à primeira edição do Big Brother em Portugal, acredito). Esta minha distância pode ser apenas preconceito. É, seguramente, limitação. O que se segue é, portanto, observação feita de fora — o que pode ser a sua própria forma de slop: enunciamentos confiantes sobre fenómenos que mal testemunhei.
O que posso dizer é isto. Não acredito que a luta livre profissional seja combate não-guionado, mas reconheço o atletismo, a coreografia, o risco físico. Há arte ali, mesmo que os resultados sejam, em certa medida, pré-determinados. Custa-me estender a mesma generosidade à reality tv. O próprio formato que reclama o nome “realidade” enquanto fabrica situações, edita respostas, constrói narrativas que pouco se assemelham ao modo como as pessoas se comportam quando as câmaras não estão a filmar.
Em 2011, o comediante Bruno Nogueira criou o Último a Sair para a RTP — uma paródia do Big Brother tão convincente que muitos espectadores, ainda hoje, não sabem se era sátira. A campanha promocional obscureceu deliberadamente a natureza do programa, anunciando-o como um verdadeiro “reality show” antes de o primeiro episódio ir para o ar. Os actores seguiam guiões mas improvisavam com liberdade. Eram tão convincentes na sua banalidade que o público não conseguia distinguir. Ou estaríamos nós, a audiência, já num estado de torpor que não distinguia realidade de ficção?
Quando a sátira é indistinguível do seu alvo, o que está exactamente a ser satirizado? A resposta, creio, é que não sobra nada para exagerar. O original já consumiu todo o absurdo disponível.
Recentemente, alguns excertos chegaram ao Brasil e a países africanos de língua portuguesa, e houve reacções negativas porque pessoas que não tinham visto o programa consideraram parte do conteúdo ofensivo — sinal dos tempos politicamente correctos em que vivemos[8].
Chamar “realidade” a este género produz mudanças na própria realidade. Corrói a distinção entre o que acontece e o que é produzido. E esta erosão preparou-nos para o que se seguiu. A “televisão-realidade” demonstrou que o entretenimento não precisa de ser intrinsecamente agradável ou significativo. Basta-lhe ocupar a atenção. Não me parece coincidência que Donald Trump tenha apresentado um reality show e que a sua presidência, pelo menos para um português a viver em Portugal, evoque essa mesma sensação. A transição para o scroll sem propósito e sem fim veio na continuidade. Onde a “televisão-realidade” oferecia vazio programado a horas pré-determinadas, as redes sociais passaram a entregá-lo continuamente, a pedido, infinitamente personalizado ao nosso sabor particular de calorias vazias[9].
Byung-Chul Han escreve sobre a “sociedade do cansaço” — sobre a exaustão que advém da auto-optimização perpétua, da exigência de estarmos sempre em modo de desempenho, sempre produtivos, sempre “ligados”. É como se estivéssemos apenas a comer alimentos sem qualquer valor nutritivo, ou como se confundíssemos mascar uma pastilha elástica com o acto de nos alimentarmos. Fazemos scroll sem nos informarmos. Envolvemo-nos sem nos ligarmos. É possível passar quarenta e cinco minutos no telemóvel e não lembrar nada do que se viu — apenas a sensação vaga de que o tempo passou e que algo se perdeu. O cansaço que Han descreve não é a fadiga que se segue ao trabalho com sentido. É o esgotamento que vem da actividade sem propósito, do consumo sem sustento. Estamos cheios e esfomeados ao mesmo tempo.
Porque é que engolimos isto
A pergunta que me interessa não é por que razão o slop existe. Claro que existe. Os custos de produção aproximam-se do zero (se descartarmos as quantidades de energia necessárias para alimentar os sistemas de IA que o produzem em massa). A distribuição é instantânea. Os algoritmos optimizam para o envolvimento, não para a qualidade. A economia é óbvia.
A pergunta é por que razão o toleramos. Porque continuamos a fazer scroll por conteúdo que sabemos ser inútil — e voltamos a fazê-lo cinco minutos depois.
Parte da resposta está no que chamei de pós-profundidade: a criação de simulações de profundidade tão sofisticadas que muitos deixaram de distinguir desempenho de substância. Quando a “vulnerabilidade” se torna uma marca pessoal e a “autenticidade” uma estratégia de marketing, o slop torna-se indistinguível da sinceridade.
Os mecanismos que produzem gambas-fundidas-com-Jesus por IA também produzem as platitudes de auto-ajuda, as receitas para uma vida plena e saudável e as frases inspiracionais que forram as paredes do nosso tempo[10]. A estética é idêntica. O estatuto epistemológico é idêntico. Ambos simulam significado produzindo apenas o seu resíduo.
As estratégias retóricas da pós-profundidade assemelham-se às da argumentação populista: reduzir a complexidade a slogans, apelar à emoção imediata em vez da análise demorada, apresentar-se como libertação enquanto se constrange o pensamento. O populista promete soluções simples para problemas complexos. O praticante da pós-profundidade promete transformações simples para seres complexos. O produtor de slop elimina por completo o atrito: entretenimento sem envolvimento.
A mesma podridão que produz slop de IA produz slop político: afirmações tão desligadas da realidade verificável que funcionam não como proposições a avaliar mas como espectáculos a serem testemunhados. Expressões infelizmente tornadas comuns como “é a minha verdade” e os “factos alternativos” emergem da mesma lama.
A erosão da discriminação
Esta erosão — da capacidade crítica, da capacidade de distinguir substância de simulação — não fica contida. O porco no comedouro não distingue o que come. Não pode. Come o que lá está. Décadas de reality tv, redes sociais e conteúdo optimizado por algoritmos fizeram-nos algo semelhante. Deixámos de notar a ausência de substância. A erosão do pensamento crítico num domínio — o entretenimento — preparou a sua erosão noutros. Política. Ética. A própria epistemologia.
Já escrevi sobre o que podemos chamar de síndrome da certeza[11]: tornámo-nos certos de que nada é certo, seguros de que a verdade é o que sentimos que ela é, confiantes de que a confiança só por si constitui argumento. Neste ambiente, o slop prospera. Quando todas as afirmações são igualmente válidas, as de pior qualidade vencem pelo volume. O comedouro transborda. Continuamos a comer.
O que liga a nossa tolerância ao lixo gerado por IA à nossa tolerância ao lixo político é precisamente esta degradação do discernimento. Uma capacidade que atrofia quando não é exercitada. E nós temos vindo a treinar-nos, através de milhões de interacções diárias com conteúdo sem valor, para não a exercitar.
A política do slop
Tenho tentado manter os meus escritos apolíticos. Não por indiferença mas por convicção de que o meu papel não é alinhar leitores com posições ideológicas particulares. O meu interesse está no pensamento rigoroso e amplo, em manter espaço para perspectivas diversas, em acreditar que a pluralidade pode encontrar melhores caminhos para mais pessoas. Incluo-me conscientemente nesta equação, com esforço.
Mas agora confesso a impossibilidade da posição apolítica. Foi sempre impossível. Cada omissão é uma escolha. A pretensão de neutralidade é, em si mesma, uma posição política — tipicamente uma que serve os arranjos existentes.
O que compeliu esta confissão, em Janeiro, foram as notícias da Venezuela. Os Estados Unidos tinham completado o que chamaram de “ataque em larga escala” sobre Caracas, capturado o presidente da Venezuela e declarado que iam “gerir o país” enquanto as petrolíferas americanas “gastavam milhares de milhões de dólares” para “reparar as infra-estruturas gravemente danificadas”. O Presidente afirmou que “vamos pôr o petróleo a fluir como deve ser”. O Secretário da Defesa caracterizou isto como “o oposto exacto” do Iraque porque — e passo a citar — “gastámos décadas e décadas e pagámos em sangue, e não obtivemos nada em retorno económico, e o Presidente Trump vira o guião”.
O guião que se virou, aparentemente, era a pretensão de que as invasões são sobre outra coisa que não recursos. O que se dizia baixinho passou a ser dito em voz alta.
O que distinguia isto da invasão da Ucrânia pela Rússia? Das ambições da China em relação a Taiwan? Cada potência invasora conta uma história sobre agravos históricos, sobre proteger o seu povo, sobre restaurar o que lhe pertencia por direito. A Rússia alega que a Ucrânia sempre fez parte da sua esfera civilizacional. A China reclama Taiwan como uma província temporariamente separada. Os Estados Unidos alegaram que o petróleo venezuelano fora “roubado” quando o país nacionalizou os seus próprios recursos em 1976.
A fórmula é consistente: construir uma narrativa de vitimização, reclamar posse sobre o que pertence a outros, usar força esmagadora, apresentá-la como libertação.
Escrevi isto em Janeiro. Em Fevereiro, a fórmula repetiu-se — desta vez a uma escala que torna a Venezuela um ensaio geral.
A 25 de Fevereiro, o ministro dos negócios estrangeiros iraniano declarou que um acordo “histórico” com os Estados Unidos para evitar um conflito militar estava “ao alcance”. O mediador omanita confirmou que o Irão aceitara nunca armazenar urânio enriquecido e submeter-se a verificação integral pela AIEA. A paz estava, segundo o Omã, “à vista”.[12] Três dias depois, a 28 de Fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram uma campanha militar conjunta contra o Irão. Assassinaram o líder supremo. Bombardearam bases militares, instalações governamentais, escolas, hospitais. A operação chama-se Epic Fury.
À data em que revejo este texto, a guerra dura há mais de três semanas. O Irão retaliou com centenas de mísseis e drones contra Israel e bases americanas em vários países. O Estreito de Ormuz está encerrado. Morreram mais de mil e quatrocentos civis iranianos, entre eles crianças numa escola primária de Minab. A administração Trump ofereceu justificações variadas e contraditórias para o ataque: travar uma ameaça iminente, destruir o programa nuclear, assegurar os recursos naturais do Irão, provocar mudança de regime.[13]
A quantidade de justificações é, em si mesma, slop político. Quando se oferecem sete razões para um acto, nenhuma delas é a razão.
Estou longe de ser um especialista em geopolítica. Nem sequer posso ser considerado conhecedor. E se há coisa que tenho vindo a aprender na vida é que não tenho de ter opinião sobre tudo, porque algumas das minhas opiniões não têm legitimidade, não são suficientemente fundamentadas ou são simplesmente mal construídas. Mas a estrutura repete-se com uma regularidade que dispensa especialização para ser reconhecida. Venezuela, Irão — a diferença não está na lógica mas em quem a exerce, e de quem é o slop que fomos treinados a engolir.
O que me impressiona não é que os políticos mintam. Impressiona-me a variedade das técnicas e os seus efeitos convergentes. A abordagem de Trump é descarada: dizer a coisa falsa ou a “verdade” absurda alto, repetidamente, sem embaraço, até a pura audácia criar a sua própria autoridade. A abordagem de Putin, por exemplo, é a oposta: negar sem fim, dissimular infinitamente, gerar nuvens tão densas de narrativas alternativas que a verdade se torna impossível de localizar. Um inunda a zona com despudor. O outro inunda-a com confusão. Ambos produzem o mesmo resultado: um público cada vez mais incapaz de discernir, julgar, agir.
Há uma cena em Interstellar em que os protagonistas discutem o grau de honestidade que deviam ter entre si. Um deles pergunta a TARS — um robô com IA avançada — qual é a sua configuração de honestidade. Responde 90%, porque é o que os humanos conseguem discernir. A piada funciona porque nos reconhecemos. Não queremos realmente honestidade completa. Queremos verdade suficiente para funcionar, engano suficiente para permanecermos confortáveis. E é bom que possuamos uma intimidade intransmissível. Na edição recente da newsletter do House of Beautiful Business, Roger Berkowitz afirma que “a profundidade exige segredo”. E, sejamos francos, se os nossos pensamentos em bruto fossem públicos não seríamos animais sociais.
A pergunta que a nossa época nos coloca é se baixámos esse parâmetro demasiado. Se 40% ou 30% ou 20% se tornou a nossa norma de funcionamento. Se perdemos a capacidade de nos aperceber.
O que o português sabe que o inglês não sabe
O inglês dá-nos uma única palavra viscosa. O português obriga-nos a escolher — e cada escolha revela uma faceta diferente do problema. Onde o inglês comprime, o português disseca. Vale a pena demorar-nos nessas dissecações.
Lavagem parece-me uma das traduções mais directas — a água de lavar loiça e chão, tradicionalmente guardada para alimentar os porcos. Mas lavagem carrega associações modernas que lhe acrescentam peso: lavagem de dinheiro, lavagem cerebral. Chamar lavagem ao conteúdo de IA sugere simultaneamente que é comida de porcos, que é fraude e que é concebido para manipular. A palavra estende-se entre o passado rural e o presente financeiro. Implica que alguém está a enriquecer ao alimentar-nos com desperdício enquanto altera o modo como pensamos.
Entulho nomeia detritos de construção, escombros deixados depois de uma demolição. A palavra deriva de entulhar, encher a tulha — e uma tulha, quaisquer que sejam as suas origens obscuras, veio a significar um celeiro, um armazém de grão. Com o tempo, o significado degradou-se de armazenamento para obstrução, do que nutria para o que agora entope. Entulho digital capta como o slop de IA preenche a infra-estrutura da informTodos os artigosação, enterrando tudo o que tem valor debaixo de escombros. Não se encontra o grão porque há demasiado entulho no celeiro.
Lixo é o que os meios de comunicação portugueses de facto usam. A sua etimologia permanece disputada: alguns rastreiam-na até ao latim lix (cinza), outros a lixívia, outros ainda a lixare (limar). A incerteza é adequada — lixo nomeia aquilo que preferimos não examinar de perto. É eficiente e inequívoco no uso, se não na origem. Mas falta-lhe a especificidade visceral de slop. Lixo é seco. Slop é húmido. A humidade importa.
Mas a minha favorita é calhandrice. É uma palavra com que cresci em Sesimbra, usada normalmente para designar mexerico ou tagarelice. Sempre gostei do som. Mas só recentemente descobri a sua história — e encaixa na era do slop com uma precisão incómoda. Calhandrice vem de calhandro, um bacio alto e cilíndrico usado nos séculos antes da canalização moderna. Na velha Lisboa, as calhandreiras eram as mulheres — frequentemente escravas — responsáveis por transportar estes recipientes pesados à cabeça para despejar os excrementos da cidade no Tejo. Eram as transportadoras literais de merda. Enquanto percorriam as ruas com a sua carga, falavam, trocavam notícias e espalhavam rumores. A associação ficou: o transporte de dejectos ficou ligado ao transporte de informação. Fazer calhandrice é participar numa rede de comunicação construída literalmente sobre um sistema de esgotos. Sugere que o portador da mensagem não consegue evitar cheirar ao que transporta.
Há ainda a expressão encher chouriços — que significa produzir discurso vazio, estofar conteúdo sem substância. Enche-se a tripa com o que houver disponível para que pareça algo que valha a pena comer. A mecânica dos grandes modelos de linguagem é exactamente esta: prever o próximo token, gerar palavras para preencher espaço sem propósito comunicativo além da completação formal. A IA está, algoritmicamente, a encher chouriços. Esta poderá ser a descrição portuguesa mais precisa do processo de produção do slop, mesmo que nomeie o acto e não o produto.
Slop e apagão
Entretanto, a palavra portuguesa do ano de 2025 foi apagão — escolhida pela Porto Editora na sequência da falha eléctrica maciça que paralisou Portugal e Espanha a 28 de Abril de 2025[14]. Enquanto o mundo anglófono debatia o excesso de luz digital — ecrãs cheios de lixo gerado por IA, feeds a transbordar de conteúdo sintético — Portugal confrontava a ausência de luz física. O apagão forçou uma desconexão involuntária que muitos viveram simultaneamente como crise e como alívio. Falou-se em redescobrir a conversa, no silêncio estranho, em levantar os olhos de ecrãs que tinham escurecido para encontrar outras pessoas a olhar de volta.
É curioso — e é preciso dizê-lo — que este acontecimento tenha ele próprio gerado muito slop, ou pelo menos muito conteúdo piegas: pessoas a contar como a falta de electricidade as levara a conversar verdadeiramente com vizinhos, filhos, companheiros; como famílias jogaram jogos de tabuleiro e leram juntas em salas iluminadas por velas. Tudo isto como se essas acções e disposições não estivessem disponíveis nos outros dias. Os aparelhos continuam a ter botões de desligar e nós continuamos a poder dizer “olá” ou mais do que isso aos nossos vizinhos. Enfim, sinto-me um velho a resmungar…
A ironia merece mais do que uma nota de passagem. A América nomeia a sua condição slop — demasiado, demasiado depressa, demasiado sintético. Portugal nomeia a sua condição apagão — ausência súbita, silêncio forçado, a infra-estrutura a falhar. Ambas as palavras diagnosticam algo partido. Mas apontam em direcções opostas. Uma diz: estamos a afogar-nos em luz artificial. A outra diz: esquecemo-nos de que dependemos de sistemas reais que podem falhar. Ambas são verdadeiras. São a mesma verdade vista de ângulos diferentes.
O que resta
Há algo quase esperançoso na escolha da palavra. O facto de a termos nomeado sugere reconhecimento. Slop carrega desprezo. Greg Barlow, presidente do Merriam-Webster, observou numa entrevista à Associated Press que as pessoas “querem coisas reais, querem coisas genuínas” — que a palavra representa desafio perante a IA. “É quase uma palavra de desafio em relação à IA,” nota. “Quando se trata de substituir a criatividade humana, por vezes a IA não parece muito inteligente.”[15]
Nomear a doença pode ser o primeiro passo para a imunidade. Ou pode não ser. Nomear nunca foi suficiente. Mas não é nada.
A economia do slop depende da nossa cumplicidade ou complacência. Cada scroll sem propósito, cada aceitação de afirmações que não examinámos, alimenta o comedouro. O sistema não requer crença. Apenas atenção. Até o desprezo pode ser monetizado. O teu clique de ódio paga tanto como o teu clique de amor.
A atenção genuína — a disposição para ficar com a complexidade, para tolerar o não-saber enquanto se continua a pensar — torna-se uma forma de activismo silencioso[16]. Não do tipo que dá bom conteúdo ou barulho instantâneo mas efémero. A que acontece quando fechas a aplicação, ou não a abres em primeiro lugar. Quando ficas com um texto difícil em vez de procurares o resumo. Quando te permites ficar aborrecido, e descobres o que emerge do tédio que não é imediatamente preenchido com ruído.
Isto não vai resolver nada. Não vai resolver o Irão nem restaurar o facto ao seu estatuto anterior. Estes são problemas estruturais que requerem respostas estruturais, e a atenção individual — por mais genuína que seja — não constitui política.
Mas pode preservar algo. A capacidade de reconhecer substância quando a encontramos. De distinguir comida de porcos de alimento. De nos lembrarmos de que nem sempre fomos alimentados assim e que, portanto, podemos não o ser para sempre.
A palavra “slop” entrou no inglês significando lama mole. Algo por onde se vadeia. Algo que se cola. Algo de que é difícil escapar.
Estamos todos a vadear nisto agora. A questão é se reparamos na merda — ou se a aceitámos como o chão em que andamos.
Notas: Originalmente publicado em inglês a 10 de Janeiro de 2026 na The Useful Uselessness. Adaptado para português pelo autor, março de 2026.
[1] O Merriam-Webster definiu slop como digital content of low quality that is produced usually in quantity by means of artificial intelligence. A Economist também a elegeu como palavra do ano, inspirada pelo lançamento do Sora da OpenAI.
[2] Etimologia do Online Etymology Dictionary, s.v. “slop.” A raiz proto-indo-europeia \sleubh-* (“to slide, slip”) produziu também sleeve e lubricate. Ver Douglas Harper, Online Etymology Dictionary, etymonline.com/word/slop.
[3] O inglês antigo cusloppe (“cow dung”) aparece no nome da flor cowslip (Primula veris), que cresce em prados onde o gado pasta. Ver Online Etymology Dictionary, s.v. “slop.”
[4] O slopping out foi oficialmente abolido em Inglaterra e no País de Gales em 1996. Na Irlanda, o Supremo Tribunal decidiu em 2019 (caso Simpson) que a prática violava os direitos constitucionais dos reclusos, mas esta só foi sendo eliminada progressivamente nos anos seguintes.
[5] O Online Etymology Dictionary data este sentido — “affected or sentimental material” — de 1866. Os críticos vitorianos usavam-no para descrever escrita ou música excessivamente piegas.
[6] Desenvolvi o conceito de pós-profundidade no ensaio “Depois da pós-verdade, a pós-profundidade”, publicado no Link to Leaders, e na versão inglesa “Post-Depth: The Plasticization of Profundity”.
[7] J. R. Firth cunhou “phonestheme” no seu livro Speech (Londres: Ernest Benn, 1930, p. 50), a partir do grego φωνή (phone, “som”) e αἴσθημα (aisthema, “percepção”). Para investigação contemporânea, ver Benjamin K. Bergen, “The Psychological Reality of Phonaesthemes,” Language 80, n.º 2 (2004): 290–311.
[8] O programa continua disponível na RTP Play.
[9] Esta progressão do consumo programado para o contínuo liga-se a argumentos que desenvolvi em “Atentemos ao que se presta atenção” e em “On the Beauty of Distraction” e “The Bullshit Economy”, onde examino como a economia da atenção converte o nosso foco em lucro para outros e em esgotamento para nós. Em português, o tema das tretas e do jargão está desenvolvido em “‘Chamar os bois pelos nomes’: o caso do jargão empresarial”.
[10] O tema da auto-ajuda como charlatanismo intelectual está desenvolvido em “Auto-ajuda e aeróbica: um método pseudo-científico para detectar ‘banha da cobra’”.
[11] Ver “Certezas e Dúvidas”, publicado no Link to Leaders, e a versão inglesa “The Certainty Syndrome: A Pathology of Our Time”.
[12] O ministro dos negócios estrangeiros de Omã, Badr Al-Busaidi, declarou a 27 de Fevereiro que se tinha alcançado um “avanço” e que o Irão concordara com zero armazenamento de urânio enriquecido e verificação completa pela AIEA. Ver “2026 Iran war,” Wikipedia, e “US-Israel strikes on Iran: February/March 2026,” House of Commons Library.
[13] Ver “US-Israel attacks on Iran: Death toll and injuries live tracker,” Al Jazeera, e “Gauging the Impact of U.S.-Israeli Strikes on Iran,” Council on Foreign Relations.
[14] Apagão reuniu 41,5% dos votos na votação promovida pela Porto Editora. A lista de finalistas incluía também imigração, flotilha, Agente (IA) e fogos. Ver “‘Apagão’ é a Palavra do Ano 2025”, Público, 3 de Dezembro de 2025.
[15] Greg Barlow, citado em “Merriam-Webster’s word of the year for 2025 is AI ‘slop,’” Associated Press, 15 de Dezembro de 2025.
[16] Para mais sobre a relação entre atenção, distracção e resistência, ver “Atentemos ao que se presta atenção” e “On the Beauty of Distraction”.








