Opinião
Quem sou eu quando ninguém está a ver?
Recentemente estive no colégio do meu filho para falar sobre um livro que marcou a minha infância. Escolhi O Rouxinol e a Rosa, de Oscar Wilde. É uma história dura. Demasiado dura, talvez, para a idade em que a li pela primeira vez. Ainda hoje me lembro do quanto chorei.
Desta vez, confesso que suavizei a história. Não quis expor as crianças a toda a dimensão do sacrifício do rouxinol. Preferi focar-me naquilo que, para mim, é a essência do livro: ser generoso quando ninguém está a ver.
Para quem não conhece, é a história de um estudante que precisa de uma rosa vermelha para conquistar a mulher que ama. Um rouxinol, ao ouvir o seu lamento, decide ajudá-lo — mesmo sabendo que a única forma de criar essa rosa é através de um sacrifício extremo: dar a sua própria vida.
E fá-lo em silêncio. Sem expetativa. Sem reconhecimento.
Durante a noite, encosta o peito a um espinho e canta. Canta enquanto o espinho lhe atravessa o coração, tingindo a rosa com o seu próprio sangue. E só quando a rosa fica perfeita… é que o canto termina. Na manhã seguinte, o estudante encontra a rosa e acredita, finalmente, que o amor venceu. Mas quando a leva à rapariga, ela rejeita-a. Diz-lhe que não combina com o vestido. Diz-lhe que já recebeu algo melhor — joias, oferecidas por outro homem, que valem mais do que qualquer rosa.
E o estudante, perante isso, faz algo ainda mais duro. Não reconhece. Não questiona. Não vê. Atira a rosa para o chão e conclui que o amor é inútil. Que não serve para nada. Que não compensa. E volta aos seus livros.
E é aqui que a história deixa de ser apenas uma história. E passa a ser um espelho.
Porque, no dia a dia, quantas vezes fazemos o mesmo?
Quantas vezes não vemos o esforço silencioso de alguém? Quantas vezes valorizamos mais o que brilha do que aquilo que realmente importa? Quantas vezes descartamos gestos genuínos porque não vêm embalados da forma “certa”?
E, mais incómodo ainda: quantas vezes já fomos o estudante?
É fácil identificar o rouxinol. É nobre, é generoso, é quase ideal.
Mas a verdade é que, na vida real, raramente nos vemos como o estudante — aquele que recebe, não valoriza e ainda conclui que “não vale a pena”.
E, no entanto, ele está em todo o lado. Está nas equipas que não reconhecem o esforço invisível. Está nas lideranças que ignoram contributos porque não vêm de quem “conta”. Está nas organizações que trocam significado por aparência.
E é por isso que a pergunta ganha ainda mais peso:
Quem sou eu quando ninguém está a ver?
Sou a pessoa que faz o certo apenas quando há reconhecimento?
Ou sou aquela que mantém os mesmos valores mesmo quando ninguém está a contar pontos?
Vivemos numa era onde a generosidade se partilha. Onde o bem que fazemos vem muitas vezes acompanhado de uma fotografia, de um post, de validação externa.
E não há nada de errado nisso.
Mas a pergunta mantém-se — incómoda, silenciosa, impossível de ignorar:
Eu faço o bem porque alguém está a ver… ou faria na mesma se ninguém soubesse?
Talvez não possamos controlar o reconhecimento.
Nem a forma como os outros recebem aquilo que damos.
Mas podemos escolher quem somos.
Podemos escolher ver.
Valorizar.
Reconhecer.
Podemos escolher não ser indiferentes
O rouxinol nunca teve aplausos.
Nunca teve reconhecimento.
E mesmo assim, fez aquilo que acreditava ser certo.
Talvez a verdadeira medida de quem somos não esteja naquilo que mostramos…
mas naquilo que fazemos em silêncio. Quando ninguém está a ver.
Susana Duro tem mais de 20 anos de experiência no desenvolvimento e implementação de estratégias de marketing para marcas líderes de mercado e um sólido percurso profissional construído em empresas nacionais e multinacionais de referência dentro do mercado de FMCG.
É licenciada em Marketing e Publicidade pelo IADE, pós-graduada em Retail Management e em Direção Comercial no Indeg/Iscte e mestre em Marketing pela mesma instituição. Iniciou a sua carreira de marketing na Henkel Ibérica como gestora de produto, passando depois para brand manager na Dan Cake. Em 2004 entrou para a Nestlé onde esteve durante 11 anos. Aqui desempenhou a função de brand manager da categoria de Culinários, de trade marketing manager na categoria de chocolates e de head of trade marketing na categoria de Cereais de pequeno-almoço. Em 2017 entrou para a Coca Cola Europacific Partners como responsável pela equipa de Customer Development do Canal Alimentar. Em 2022 foi convidada para assumir a função de National Account manager ficando com a responsabilidade de várias contas no canal Horeca Organizado. É também professora na pós-graduação em Gestão de Vendas do INDEG_ISCTE, onde leciona a disciplina de Comportamento do Consumidor.








